O despertador tocava antes do sol nascer.
Aquele barulho fino, insistente.
— Jorgiane… — a voz do meu pai vinha do lado de fora do quarto — desliga isso!
— Já vou!
Mas não ia.
Virava pro lado.
Cinco minutos viravam quinze.
Até que a porta abria.
Meu pai aparecia no quarto, ainda vestido com o uniforme de vigilante. Camisa azul, calça escura, o cinto largo apertando a barriga que ele sempre dizia que
“era só retenção de líquido"
Sua presença não era tão imponente, ele tinha uns 1,75 de altura, era branco, bigode grosso… e um olhar que não precisava gritar pra impor respeito.
— Você vai perder a hora.
Nossos horários eram opostos, quando ele chegava era hora de me levantar. Na verdade tinha virado costume ele me acordar no lugar do despertador, meio que eu ganhava mais alguns minutos
Eu me espreguiçava.
— Já acordei…
— Acordou nada.
Ele puxava a cortina.
A luz invadia o quarto.
E as vezes quando nem isso funcionava, ele ia na cama e puxava meu lençol.
— Paaaaaai, eu tou só de calcinha.
— Agora acordou.
— Seu chato
— Faculdade não se faz dormindo.
Revirei os olhos, mas levantei, ainda vestida apenas com uma camisa verde e um calcinha azul clarinha.
— Tá bom, já entendi.
Ele saía, mas ainda dizia:,
— Boa aula
— Obrigada pai
Na cozinha, Jandira já estava de pé.
Sempre.
Não importava o horário. Preparava café do meu pai. Ela era baixinha, uns 1,66, pele clara, cabelos castanhos presos num coque simples. Tinha um jeito calmo… às vezes calmo demais.
— Dormiu bem? — ela perguntava, mexendo na panela.
— Dormi.
Meu pai aparecia na porta.
Ele pegava o café dele.
— Jandira, você viu minha lanterna?
— Em cima da geladeira.
— Não tá.
— Tá sim.
— Não tá.
Ela parava o que estava fazendo, ia até a geladeira… e pegava a lanterna.
— Tá aqui.
Ele coçava o bigode.
— Eu olhei aí.
— Olhou com o olho fechado então.
Eu comecei a rir.
— Essa casa é uma comédia.
A rotina era puxada.
Meu pai passava horas em pé, vigiando prédio, lidando com gente que nem olhava na cara dele.Jandira pegava ônibus lotado pra limpar casa de gente que tinha tudo… e ainda reclamava.
E eu… tentava equilibrar tudo.
Faculdade de manhã.
Estágio à tarde.
Casa à noite.
Às vezes parecia demais.
Mas a gente seguia.
Sempre dava um jeito.
A noite, quando voltávamos pra casa, o cansaço era visível.
Mas nem sempre a gente se encontrava.
Meu pai já tinha saído pro trabalho de vigilante a semana inteira. O turno dele era puxado, virava noite, madrugada… e quando eu chegava em casa, ele já não estava mais, pelo menos na maioria das vezes.
Na prática, a gente quase não se via.
Só existia um momento.
De manhã.
Antes do despertador.
Eu já meio acordada, meio dormindo… sentia a presença dele no quarto.
Passos leves.
O cheiro do café vindo da cozinha.
E então… um toque suave no meu ombro.
— Jorgiane… acorda.
Eu abria os olhos devagar.
Ele se aproximava, abaixava um pouco… e me dava um beijo na testa.
Rápido.
Simples.
Mas cheio de significado.
Depois ele saía.
E o som da porta fechando era o sinal de que o dia tinha começado.
Era o nosso jeito de nos vermos.
Pouco tempo.
Poucas palavras.
Mas suficiente. Tanto que guardo comigo até hoje essas memorias.
