Ela chegou abrindo a porta do quarto sem bater, com uma energia que não combinava em nada com a situação.
— Tá. Hoje a gente vai fazer direito.
Levantei os olhos devagar.
— Isso nunca é verdade quando você fala assim.
— Ontem foi conversa. Hoje é ensaio completo — disse ela, largando a bolsa na cama. — E sem frescura.
— Mãe…
— Nada de mãe. — Ela apontou na minha direção. — Hoje eu sou outra pessoa.
— Quem?
Ela pensou meio segundo.
— Sei lá, uma enfermeira
— Enfermeira?
— É. — cruzou os braços. — Mulher normal. Trabalha muito. Plantão puxado. Vive cansada. Gente de verdade.
Respirei fundo
.
— Isso não vai funcionar
— Confia. — Ela puxou a cadeira e sentou de frente pra mim. — A gente já tá conversando faz uns dias no aplicativo.
— Já comecei perdendo, então.
— Foco, filho! — Ela pigarreou, mudou o tom de voz, mais doce e artificial. — Oi… cheguei agora do plantão. Morta.
— Ah… oi.
Ela fechou os olhos
— Para tudo. — abriu de novo. — Você respondeu como se eu tivesse pedido informação na rua.
— Eu falei oi!
— Falou “oi” sem alma nenhuma! — reclamou. — Vai de novo.
Ela voltou pro personagem.
— Cheguei agora do hospital. Hoje foi puxado demais.
— É… — pensei rápido. — Plantão deve ser tenso mesmo.
— Melhor. — assentiu. — Continua.
— Você trabalha em hospital público ou particular?
Ela apontou pra mim, animada.
— AÍ! — disse, saindo do personagem. — Tá vendo? Pergunta boa.
Ela voltou a atuar.
— Público. SUS. Lotado.
— Imagino… — eu disse. — Deve ser cansativo lidar com tanta gente.
— Ótimo. — ela sorriu. — Agora você tá conversando. Não tá se explicando.
Relaxei um pouco.
— E você? — perguntou ela, ainda no personagem. — Faz o quê?
— Faço faculdade.
Ela fez cara feia.
— Aí já caiu de novo.
— Mas eu faço!
— Eu sei, mas fala como pessoa! — disse ela. — Você estuda o quê? Por quê? Você gosta ou só tá indo?
— Tá bom… — ele respirou. — Eu faço faculdade, mas ainda tô meio perdido. Gosto de aprender, mas não sei muito bem onde quero chegar.
Ela parou.
— Viu? — disse, saindo do personagem. — Isso é honesto. Isso é conversa.
Assenti, meio surpreso.
— Agora vem a parte que você sempre estraga — continuou Régia.
— Qual parte?
— A parte que você acha que já tá tudo encaminhado.
— Eu não acho..
— Acha sim. — Ela cruzou os braços. — Você pula etapas
— Mas não é assim que funciona?
— Funciona quando tem clima! — disse ela. — Você pula etapa. Parece que tá com pressa de chegar no beijo.
Desviei o olhar.
— Eu não sei identificar o clima.
— Então presta atenção. — respondeu ela. — Clima é resposta. É interesse. É a pessoa perguntar de você também.
Ela voltou pro personagem.
— A gente tá se dando bem, né?
— Tá… — eu disse
— Aí você vai lá e manda o quê?
— Quer sair comigo?
Ela levou a mão ao rosto.
— Não, meu filho…
— Então como fala?!
— Tipo… — ela pensou. — “Tô curtindo trocar ideia com você. A gente podia continuar isso fora daqui.”
Eu arregalei o olho
.
— Nossa… isso soa…bem melhor
— Porque é. — respondeu ela.
Ficamos em silêncio alguns segundos.
— Agora chega de ensaio — disse ela
— Eu me sinto frustrado. — disse baixo. — Todo mundo da minha idade já transou
Ela ficou quieta.
— Na faculdade os caras zoam. — continuei. — Falam como se fosse regra. Como se eu tivesse falhado.
— Eu me sinto pra trás.
Vi ela abrir a boca. Fechar. Tentou puxar alguma frase. Não achou nenhuma.
— Filho… — começou, e parou.
No lugar das palavras, ela levantou e me deu um abraço.
Meio duro no começo.
Depois firme.
Alguns segundos depois, eu encostei minha cabeça no ombro dela.
— Eu não sei te ensinar isso direito — murmurou ela. — Mas você não tá quebrado.
— E mais cedo ou mais tarde vai acontecer, tenha calma e paciência
As palavras dela era um alento, mas ainda assim, eu via como algo inalcançável para mim.