Obviamente não seria louca de admitir minha paixão por um cão, negaria ao mundo que tinha ciência do ato, que foi registrado em vídeo, e colocaria a culpa no efeito alucinógeno do chá. Embora não me envergonhasse da minha entrega, tive, na verdade, total lucidez durante aqueles momentos que me fizeram bem demais.
A noite de terça-feira foi pior: o coroa maquiou-me com uma aparência de cadáver. Até aí, nada demais; ele já fez outras aberrações. Mas, quando fomos para a sala secreta, havia um caixão aberto sobre o mini palco e o sujeito mórbido me obrigou a deitar no interior para ser fotografada.
— É só uma preliminar, habitue-se, pois passará muitas horas nessa urna fúnebre nos próximos dias, enquanto eu desenvolvo o novo trabalho.
Lúcida, eu não suportaria aquilo, mas a bebida ingerida por obrigação, a qual eu sabia que era para o malvado me manipular, drenava toda a minha lucidez e capacidade de dizer não. Na verdade, eu não tinha alternativas, era obrigada a participar de suas pirações, bizarrices e todo tipo de perversão. Ainda por cima, aquele bagulho causa um efeito muito louco, deixa a gente sem vontade própria. Como agravante, o negócio ainda nos deixa viciados.
Enfim, o lance do caixão deveria ser uma forma de castigo. Suportaria mais essa, mas estava ficando muito difícil administrar o conjunto da obra.
Comecinho de noite de quinta-feira: fui abordada pela dona Berta ao sair do estabelecimento de ensino.
— Gisele! Vá imediatamente para o ateliê — disse ela, sem rodeios.
Já havia imaginado que o mestre cancelaria minha folga desta noite. Até rezei para que o trabalho se resumisse a bancar a morta no caixão (imagine só!), pois meu medo era voltar à mansão dos horrores.
— Posso levar meu material, senhora?
— Claro que não, dá aqui e corre prá lá!
Nem bem cheguei e o mestre Vilânio já deu a péssima notícia:
— A condução que te levará para a mansão já está chegando.
“Porra”, pensei, injuriada, mais uma noite de escravidão e sem dormir. A expressão do maldito era de quem estava adorando meu padecimento.
Entrei no carro minutos depois. Era o mesmo motorista de há três semanas.
O procedimento foi o mesmo: não poderia falar com ele; fez o percurso de quase meia hora até o bairro dos bacanas em Mogi das Cruzes; deu-me o hábito com capuz (eu vesti); entrou no condomínio de luxo e estacionou na lateral da mesma mansão.
A dona Odete (a mulher responsável por nos preparar e orientar) abriu a porta traseira e repetiu a mesma frase da vez anterior, e com a mesma autoridade:
— Mantenha seu hábito fechado e siga-me.
Saí do carro coberta da cabeça aos pés e acompanhei seus passos apressados.
Será que o cuidado em ocultar a mim e o meu uniforme era preocupação com algum paparazzi escondido lá fora com uma teleobjetiva? Talvez este fosse só um dos motivos.
Após adentrarmos o interior da suíte no segundo piso, ela repetiu os procedimentos da última vez: mandou-me ficar nua e ir para o banheiro, onde ela fez questão de fazer a depilação, mesmo após eu dizer que já aprendera a fazer. A propósito, ela foi muito carinhosa nesta oportunidade; também demorou um pouco mais. A cada passada do aparelho, eu recebia carícias dos seus dedos no local raspado e, às vezes, seus dedos deslizavam sobre a minha fenda ou ânus.
Fiquei na minha, sem expressar reações, pois sentia um misto de constrangimento, tesão e medo. Medo de o deslize acarretar punição para nós duas, caso chegasse ao conhecimento dos “superiores”. E a corda sempre arrebenta do lado mais fraco.
Enquanto eu tomava banho, ela saiu, provavelmente para cuidar de outras garotas.
A mulher voltou muito tempo depois com uma bandeja contendo o meu jantar.
Seguiu-se a rotina anterior:
Maquiagem e peruca de cachinhos; vesti meu uniforme: saia e camisa, apenas; calcei um scarpin preto de salto médio; tomei o líquido do vidrinho com aparência de remédio; a máscara, de expressão angelical, cobriu inteiramente o meu rosto; vesti o hábito, deixando-o totalmente fechado, e capuz na cabeça.
— Em hipótese alguma tire essa máscara. E não permita que alguém a tire. — Está entendido?
— Sim, senhora.
— Você e mais duas iniciadas irão participar de um ritual de celebração. Não faça perguntas, não diga nada que não seja estritamente necessário e obedeça a todas as ordens.
Foram as mesmas frases de sempre.
Ritual de celebração… Sei! Pensei com ironia.
Saímos do quarto. A dona Odete chamou as duas que estavam nos aposentos ao lado. O grupinho mascarado seguiu a mulher corredor afora.
O “culto”, dessa vez, seria em outro cômodo, pois descemos as escadas que findavam na ampla sala abaixo do mezanino em que estávamos. Na parede à esquerda, um relógio cuco, de madeira e números romanos; os ponteiros marcavam dez horas. Um raio clareou um vitral colorido na mesma parede. As figuras esotéricas no vidro pareciam ter ganhado vida, que logo se apagou.
Seguimos pelo salão e passamos por entre homens e mulheres mascarados, alguns vestidos a rigor e outros nus. A nudez, em sua maioria, cabia ao time feminino.
No trajeto, uma mulher de corpo lindo, nua e mascarada, chamou demais a minha atenção. Ela estava sentada na superfície de uma ampla mesa de jantar estilo colonial, assim como duas outras jovens mulheres nuas, de corpos igualmente lindos e também portando máscaras. As duas segundas acariciavam a primeira, e eu diria que ambas as três giravam em torno dos 30 anos, a idade da dona Lúcia Helena.
Quando passamos por trás delas, as minhas suspeitas se concretizaram; eu reconheceria em qualquer lugar do mundo aquela mulher de corpo perfeito e com as covinhas de Vênus acima da cintura. O cem por cento de certeza veio quando visualizei nitidamente a sua marca de nascença: uma manchinha amarronzada em formato de meia-lua, do lado externo do seu seio direito. Puta que pariu! Era minha mãe sendo acariciada pelas fulanas.
Minhas pernas bambearam com o impacto da surpresa. Senti uma vertigem e quase desabei. Não fosse a dona Odete ter percebido a tempo e colado em mim.
— Se apruma, molenga? — sussurrou autoritária.
— Desculpe — respondi com um fio de voz e segui em frente, apoiada por ela, segurando firme em meu braço.
O líquido fármaco ainda não havia atingido o auge do efeito alucinógeno, não interferiu na minha avaliação de que realmente era a minha mãe. Precisava manter a calma e a discrição, pois desconhecia quais seriam as consequências se soubessem da minha descoberta.
Não soube se meu pai estava entre os participantes; quase todos os homens estavam totalmente vestidos, mascarados e cobertos com o hábito escuro. Apenas dois estavam nus, mas eram altos demais para serem meu pai.
No cômodo seguinte, nós paramos diante de uma porta guardada por um segurança. Como da outra vez, a dona Odete ficou e nós fomos orientadas a entrar. Descemos alguns degraus que nos levaram a outro salão tão sinistro quanto o do mês passado. Ali, outrora, deveria ter sido uma adega. Agora deveria ser o “abatedouro de raparigas”, imaginei.
O ambiente tinha as características esotéricas dos outros cômodos do local: iluminação baixa e avermelhada, odores enjoativos de incenso, pinturas satânicas do mestre Vilânio com alusão a rituais e inferno, além de muitas carrancas demoníacas que deixariam crianças sem dormir por vários dias.
Nessa oportunidade, não tinha a cama redonda e enorme. Optaram por três espreguiçadeiras estofadas e robustas em forma de S. (Descobri, depois, que o nome desse móvel é “chaise longue”). Não faltaram os cadeirões estofados. O veludo vermelho predominava no assento de todos os móveis.
Dessa vez, dispensaram as mulheres; apenas três homens nos aguardavam. Eles se levantaram e nos ordenaram que nos aproximássemos. Nós éramos as presas e eles, os predadores.
A composição sinistra do local combinava com os três grandalhões, com máscaras que cobriam só acima do nariz e, dois deles, possuidores de barba cheia e negra. Somados aos capuzes das capas pretas que escureciam os rostos, suas aparências ficavam ainda mais sombrias. Um barbudo, em especial, usava um chapéu de boiadeiro sobre o capuz… E foi esse que me escolheu. Caraca! O cara era um brutamontes. Dava dois de mim e deveria pesar o triplo.
— Tira esse hábito, meu anjo, deixa eu ver você.
Os seus colegas disseram o mesmo para as outras garotas, então ficamos só de uniforme: saia curta e camisa.
— Vamos ver se você é boa nessa matéria — disse sarcasticamente o meu parceiro enquanto me fazia girar, por duas vezes, segurando meu braço no alto como numa dança.
Ele me conduziu pela mão até um cadeirão, sentou, deixou-me de costas para ele e levantou minha saia.
— Uau! Que bundinha linda e durinha — disse, dando um aperto e um tapão.
Meu “ai!” Foi com um gemidinho de dor.
— Gostou, né, safadinha? — Foi ideia sua tirar a calcinha?
Balancei a cabeça, negando.
— Não gostou ou não foi ideia sua?
— A ideia não foi minha.
— Mas do tapinha você gostou, né? — disse o homem, dando outro tapa.
O cara estava me testando; era melhor eu entrar logo no jogo. Esses sádicos ficam mais violentos quando percebem que a gente está contrariada.
Ele mandou eu chupar seu pau. A capa era sua única vestimenta. Ajoelhei entre suas pernas, segurei seu membro em fase de ereção e comecei a chupar e me acostumar com o tamanho. O bruto e impaciente segurou minha cabeça, forçou para baixo, fazendo eu engolir tudo. Engasguei com o negócio em minha garganta, fazendo-o aliviar a pressão.
Foram minutos de sofrimento para mim e diversão para ele, até ele optar por se divertir com meus seios.
— Tira a camisa, meu anjo, ou quer que eu arrebente os botões?
Neguei com a cabeça e tirei rapidamente a camisa para evitar a perda da mesma.
Ele me colocou no seu colo de frente para ele e fez misérias em meus seios: batendo, amassando, mordiscando e chupando.
— Quero muito beijar essa boquinha. — Vamos quebrar a regra e tirar sua máscara, meu bem? — Eu te dou uma grana — sussurrou ele no meu ouvido.
— Por favor, não faça isso. Eu seria expulsa e muito castigada.
— Vou tentar me segurar, mas sua voz doce me deixa louco. Vou te comer gostoso agora. — Senta essa bocetinha no meu pau!
É foda, acabava sendo engraçado: eu agradecida pela opção dele de enterrar em mim, quase rasgando minha boceta, ao invés de tirar minha máscara para dar um simples beijo. Contudo, seria um beijo que foderia com a minha vida.
Procurei fazer o meu melhor, subindo e descendo, enquanto levava tapas doloridos na bunda.
Minutos depois, pelos gritinhos, gemidos e choro das outras duas, deduzi que era anal. A vida delas também não estava nada fácil. A minha também ia piorar. O bruto levou-me para a chaise longue. Minha saia ficou pelo caminho, assim como anteriormente ficaram as das minhas colegas.
Fui posicionada sobre o móvel como um franguinho assado, virada para a lateral do assento. Quando ele besuntou seu pau de gel e veio com a mão melecada para cima de mim, era o sinal de que meu cu também entraria na roda.
E não deu outra. Após ele lambuzar-me e brincar de enfiar o dedo, foi minha vez de gritar e gemer como uma vadia ao ter meu buraquinho alargado pelo monstro.
Com o passar do tempo, ocorreram alternâncias de posição e boquetes, causando vômitos e quase desmaio, devido à obstrução da minha garganta. Evidente que o mesmo ocorria com as minhas colegas de sofrimento. Isso, e mais os estalos de tapas na bunda, divertiam os crápulas. A perversão transcorreu sem trégua.
O brutamontes, em certa altura, havia me deixado de quatro, com as pernas dobradas e abertas, parecendo uma perereca. Ele, atrás de mim, alojado em meu vão, socava em minha boceta como se estivesse tentando me perfurar. Fiquei com medo ao ter meu queixo apertado por sua mão grosseira, puxando minha cabeça para trás, a ponto de deixar-me apavorada. Temi que ele se entusiasmasse demais e quebrasse o meu pescoço.
Meus gritos e movimentos frenéticos causados pela dor e desconforto pareciam não sensibilizar nem um pouquinho aquele animal sem noção.
A pressão só aliviou quando senti que ele estava prestes a gozar. Então retirou seu membro, não tão rápido, pois o primeiro jato ficou lá dentro. O restante ele ejaculou em cima de mim.
O sujeito urrava de prazer, como se minha bunda melada de porra fosse seu troféu.
Seus urros foram abafados por um trovão assustador; a chuva havia virado tempestade e os raios pareciam cair bem mais perto.
Felizmente a tortura chegou ao fim. Gracinhas ofensivas foram ditas para nós, enquanto os machistas recompunham a vestimenta.
Quando, enfim, os sociopatas saíram e ficamos apenas nós três, largadas na cama fétida, meu desejo era de dar um fim nisso, pois estava chegando no meu limite. Meu sentimento era de ter saído de uma arena romana, onde fui massacrada por gladiadores e leões: a bunda ardendo em razão dos infinitos tapas recebidos, um princípio de câimbra nas pernas por conta das “acrobacias” forçadas, os seios mordiscados e doloridos, os orifícios arregaçados e o corpo inteiro implorando por descanso.
A garota com uma marquinha na bunda, parecida com um pássaro voando, ficou de bruços com a cabeça apoiada nos braços.
— Eu não aguento mais — murmurou com voz embargada e ficou chorando baixinho.
Eu queria dizer algo para confortá-la; afinal, éramos escravas sexuais partilhando do mesmo sofrimento. Mas o que poderia dizer para amenizar aquela dor?
Além da proibição de conversarmos, também não haveria tempo, em razão de a dona Odete ter chegado rapidão.
— Vamos, senhoritas, vistam-se para irem embora!
Será que aquela dona não sentia vergonha de ser cúmplice? Não se sensibilizou ao ver-nos naquele estado deplorável? Acredito que não.
— Reforçando: vocês têm o compromisso de manter segredo da mansão e de todo o ocorrido. Estão cientes das consequências para quem infringe as regras, não estão?
— Sim, senhora — respondemos em coro.
— Rituais de iniciação são para privilegiadas; sintam-se orgulhosas em participar, vocês ganharam pontos preciosos.
Conversa fiada, ganhamos na bunda, isso sim. Pensei sem expressar a raiva que sentia.
Continua.


