Minha revelação também serviria, porventura, para evitar um estrago ainda maior, pois diariamente eu temia pela caçula (minha irmã Giovana). Meu pressentimento era de que não tardaria o recrutamento da garota pelos canalhas do instituto, a fim de incluí-la no grupo de escravas sexuais.
Tinha medo de como meu pai reagiria a essa monstruosa revelação e das possíveis consequências dos seus atos impulsivos e imprudentes. Tinha consciência do tamanho da bomba que estaria jogando no seu colo, estava a par de quão perigoso era enfrentar os poderosos, mas eu não aguentava mais ser sacrificada calada e estava próxima de chegar ao meu limite. Provavelmente, eles também tinham pesadelos até mesmo acordados, devido à situação de dependência financeira e pelas participações em rituais densos e deprimentes como os ocorridos na mansão. Entretanto, alguém precisava tomar a iniciativa e enfrentar nossos opressores. Quem sabe juntos conseguiríamos elaborar um plano de liberdade, nem que fosse apenas um esboço de fuga para algum lugar longínquo e improvável de sermos localizados?
Não falei nada com eles; primeiramente, precisava de um plano, amadurecer a ideia, conseguir provas e aliados. Não necessariamente nessa ordem.
***
Aparentemente, revogaram as minhas folgas das quintas-feiras e, mais uma vez, fui ordenada a apresentar-me no ateliê no início da noite.
Dessa vez, o mestre segurou-me no trabalho de modelo até próximo das 22h; só então comunicou a chegada de um transporte para conduzir-me ao trabalho noturno.
Filho da puta! Senti vontade de gritar e chorar de raiva, mas não lhe dei esse gostinho.
Não fui levada para a mansão; dessa vez a região era outra, situada no meio do caminho entre Águas Turvas e Mogi das Cruzes. Um lugar ermo, esquecido pelo tempo.
O motorista parou nas proximidades de um casarão isolado sobre uma elevação; parecia uma igreja… Ou um cemitério. Para mim dá no mesmo; são lugares frios, sombrios e incômodos. As duas torres de telhados pontiagudos pareciam querer espetar o céu.
Fui orientada a vestir o hábito e cobrir a cabeça, como de costume, mas também a colocar a máscara; só então ele rodou até o portão de grades e foi liberado rapidamente por um dos seguranças. Seguiu passando entre vários carros de alto valor, ali estacionados, e parou rente à lateral do edifício.
Outros dois carros chegaram naquele mesmo minuto e pararam atrás do nosso; só então fui autorizada a sair do veículo. Duas figuras, cobertas por hábitos, saíram dos outros carros; deduzi serem as minhas duas colegas da mansão.
Dona Odete também era nossa anfitriã nesse novo endereço. Nós três fomos escoltadas por ela até o piso superior de uma das torres. Era um salão amplo com decoração medieval: armaduras, lanças, espadas, escudos e alguns maquinários de madeira, latão e tiras de couro que causavam pavor, pois imaginei-os como instrumentos de tortura.
A mulher nos colocou em quartos separados, situados entre as duas torres. Era um quarto minúsculo, improvisado, sem janela, sem banheiro e sem quase nada. Somente uma cama de alvenaria, uma mesinha e uma cadeira. Acho que um dia aquilo foi uma cela.
Foram menos de dez minutos de preparação: fiquei pelada e descalça, recebi a maquiagem, peruca e máscara, tudo similar à mansão. Vesti o hábito com o capuz, sobre o corpo nu, e continuaria descalça. Ela então deixou-me só.
A dona voltou após quinze ou vinte minutos, deu-me o famoso líquido para beber. Na saída do cômodo, juntei-me às outras duas garotas e fomos conduzidas até um portal de acesso guardado por duas figuras grotescas vestidas de negro e máscaras horrendas. Pareciam os “Guerreiros Imortais” do filme 300. Entramos somente nós três, garotas. O ambiente era característico das orgias sexuais: o ar impregnado de incenso e a iluminação muito baixa e avermelhada. Três homens seminus, cobertos apenas por tapa-sexos e máscaras, ficaram intercalados à esquerda de cada uma de nós. Silêncio total. Segurando-nos pelos braços, eles aguardavam alguma coisa.
Minha vista acostumou-se à pouca luz, meu olhar percorria o interior daquela segunda torre quando percebi um movimento de pessoas. O salão era um teatro circular, com poltronas para um pequeno público situadas nos balcões posicionados no alto, tipo camarotes. A turma do traje de gala, capa e máscara se acomodava nas poltronas. Deduzi que umas vinte pessoas estavam no meu campo visual. Deveria ter mais um tanto, no alto, atrás de nós.
A atmosfera de tensão foi elevada, intensificando o medo, quando luzes incidiram sobre o palco central, onde havia três máquinas iguais às que julguei serem de tortura. Outros três homens, similares aos demais, pareciam ser os operadores dos instrumentos.
Um som de órgão inundou o ambiente, mas a melodia não era a mesma executada na mansão, embora fosse tão amedrontadora quanto. Os homens nos puseram em marcha em direção ao palco. Puta que pariu! Meu sangue gelou, devido ao líquido alucinógeno ainda não ter me deixado subserviente. Tentei me soltar para correr, pois entrei em pânico ao deduzir que seríamos torturadas naquelas máquinas. Porém, a mão do homem quase esmagou meu braço e praticamente me arrastou para o palco.
Os seis homens se encarregaram de tirar nossos hábitos, deixando-nos despidas. Nossos pulsos e tornozelos foram presos às máquinas pelas tiras de couro, o corpo curvado e o bumbum empinado para fora.
Se a gente chorava e pedia para sair? É claro que sim, mas ninguém se importava; os homens pareciam mortos-vivos.
A situação ficaria pior; uma cortina vermelha abriu-se à minha frente. Vi três cães com aparência de lobo gigante, cada um sentado numa espécie de trono vermelho adornado de dourado. Os animais altivos pareciam desempenhar um papel de divindades, pois tinham três homens mais jovens, também seminus e mascarados, ajoelhados com as mãos juntas, demonstrando servidão diante dos bichos.
O som forte da batida de um macete em um gongo de metal abalou geral. Os rapazes se levantaram e cada um pegou um potinho de barro em um degrau abaixo dos tronos, fizeram uma reverência para os cães ao subirem e baixarem o pote, viraram em direção ao palco e caminharam, sendo seguidos pelos animais de quatro patas.
A cada passo daquela comitiva em nossa direção, meu coração acelerava mais. Deus do céu! Imaginei o pior: seríamos devoradas pelas feras; aquilo era um sacrifício humano. Contudo, os grandalhões peludos até pareciam dóceis enquanto caminhavam suavemente. Será que também estavam sob o efeito do chá alucinógeno?
Quando um dos rapazes chegou atrás de mim, não tive condições de virar para ver o que aconteceria; também nem queria ver, meu estado de subordinação deve ter atingido os cem por cento. Agora eu até faria uma suruba com aqueles nove zumbis ao mesmo tempo, e na boa.
Resignei-me ao meu destino. Só queria ver aquilo acabar logo e com o mínimo de sofrimento. De repente, senti uma gosma geladinha sendo esfregada em meu sexo.
Vi quando os outros rapazes tiraram a gosma de dentro dos potinhos e passaram nas duas colegas. Eu conseguia ver a situação delas; nossas posições formavam um triângulo, cada uma de nós em uma ponta.
Senti um focinho fungando em minha vagina meia dormente, talvez pela ação anestésica da gosma.
Meu Deus! Fiquei horrorizada ao ver o cão gigante começando a montar sobre uma delas; seu pênis era surreal. Acontecia o mesmo com a outra colega… Também comigo, o cachorrão cobriu meu corpo, envolvendo-me com suas patas e tentou me penetrar.
Puta que pariu! Gritei sem pudor ao sentir ele dentro nas primeiras tentativas. O pau do bicho deveria ser igual ao de um cavalo. Mesmo com a vagina anestesiada, o desconforto foi monstruoso, em razão da velocidade e vigor das estocadas.
Cíntia (a que tinha a marquinha na bunda) gritava desesperada. O cachorro não conseguia penetrá-la, mas obteve a ajuda do rapaz para alcançar seu intento. Daí os gritos de rebeldia se transformaram em berros de um choro desesperado. Indiferentes, os animais deitados sobre nós socavam sem parar.
A outra garota conteve a rebeldia, mas chorava e gritava tanto quanto eu.
Embora estivesse sofrendo e extremamente preocupada com o saco escrotal do cão crescendo na entrada da minha vagina, ainda consegui perceber que, nos camarotes, algumas figuras femininas sentaram no colo de alguns homens, subindo e descendo sobre o seu parceiro. Era nítido que copulavam e divertiam-se com a desgraça alheia. Causou-me ainda mais repulsa essa gente.
Como se não bastasse as dores da penetração anormal, ainda suportava o desconforto do peso do animal em minhas costas e o arfar do seu bafo quente como uma fornalha. A tortura estava durando um tempo infinito. Provavelmente, deram alguma droga para os cães e retardaram o gozo deles. Aquele animal golpeou-me por mais de meia hora; foi minha impressão.
Encontrava-me extenuada quando ele enfim gozou, despejando um balde do seu líquido. Quando a mangueira descomunal saiu de dentro, o alívio foi imenso, assim como foi um bálsamo sentir a quantidade desmedida de meleca canina sendo expelida por mim.
Dei graças aos céus por ainda estar inteira, pois aquela bola na boca do gol ficou tão grande que, felizmente, impossibilitou sua entrada, ou então o peludo teria arregaçado minha vagina.
A mais nova do trio, praticamente desfalecida, há vários minutos perdera as forças para gritar, só gemia e choramingava.
Eu não tinha mais adjetivos depreciativos para nomear os indivíduos daquela congregação criminosa; era um universo de podridão. Jurei a mim mesma ser forte o suficiente para suportar tamanha adversidade, até conseguir uma maneira de expor ao mundo as provas das aberrações desta casta repugnante e pervertida. Também estava disposta a cometer loucuras, caso não conseguisse uma alternativa segura.
Continua.


