A partir desse ponto, o que narrarei não foi resultado dos efeitos causados pelas propriedades alucinógenas do chá que ingeri por meses seguidos. O que aconteceu comigo é algo que vai além da compreensão. Alguns chamariam de milagre, intervenção divina, obra sobrenatural, abdução ou algo do gênero. Como não encontrei um manual ensinando como lidar com fenômenos que a ciência talvez seja incapaz de explicar, então parei de tentar compreender e considerei o ocorrido como uma segunda chance ou uma nova missão.
Imagine essa cena: você sofre um acidente gravíssimo e entra em um estado de sono profundo. A princípio, você julgou que poderia ser eterno, mas, de repente, algo extraordinário acontece.
Tudo começou quando me dei conta de que estava em uma suposta ambulância de resgate em movimento, com a sirene acionada. A imagem angustiante do monstro vermelho colidindo com nosso carro continuava a atormentar minha mente. Subitamente, percebi o toque da mão da minha irmã Giovana, deitada ao meu lado, em outra maca. Ela entrelaçou seus dedos nos meus e algo emocionante aconteceu: nossas mentes se uniram, e pude sentir o amor que ela tinha por mim e receber seu pedido de perdão. Agora, ela tinha ciência de toda a história que envolvia nossa família e o instituto. Entendia que, entre as vítimas, eu fui a mais sacrificada.
Uma tristeza imensa abateu-me quando percebi que a natureza do gesto também engendrava uma despedida. Naquele momento, uma força estranha, que havia assumido o controle da minha vida desde que despertei na ambulância, fez-me entender que a força molecular em meu corpo se extinguia; comecei a sentir-me como se fosse apenas energia. Talvez seja isso que nomeiam de alma.
As surpresas se sucediam como num passe de mágica. Subitamente, fui transportada à velocidade da luz para uma espécie de outra dimensão, um lugar escuro onde não havia nada em nenhuma direção, mas algo me induzia a seguir em movimento. Embora não fosse possível ver ninguém, o local parecia estar fervilhando de pessoas, como se transitassem de um lado para o outro. Não tinha som, apenas uma leve vibração, semelhante à de um transformador de energia; era perceptível.
Algo emergiu das trevas, assemelhando-se à abertura de um poço gigantesco, com a largura de uma rodovia, e a entrada coberta com uma espécie de plasma incandescente, como uma cortina viva que pulsava freneticamente, lembrando lava vulcânica. O buraco de aparência quente me causou um medo inexplicável. Tudo o que eu queria era me afastar, pois me fizeram acreditar que essa entrada me conduziria ao mundo dos mortos com dois espaços distintos. Um dos espaços era o purgatório, que é um lugar onde aqueles que não foram dignos nesta vida enfrentam momentos penosos, caracterizados por uma mistura de punição e aprendizado. Outro espaço, se é que eu entendi direito, era somente uma sala de espera para as almas que aguardavam o momento de iniciarem uma nova vida.
Acima do buraco quente, a uma altura equivalente a um sobrado, havia outro túnel que parecia conduzir ao céu. A largura era tão ampla quanto. O plasma que revestia essa área emitia uma luz branca, suave e reconfortante. A sensação de paz era tentadora, intensificando o anseio de ir até lá. Imaginei que talvez ali estivesse o caminho para o que chamam de paraíso.
A mesma energia anterior me orientou sobre essa nova entrada: era um local onde passamos por uma formatação para começarmos uma nova vida. As almas saem de lá como se fossem uma folha em branco.
Imaginei que tudo poderia ser um sonho do qual logo despertaria. Porém, quando me senti sendo puxada para o poço de lava, tudo se tornou um pesadelo; era como se um ímã poderoso me estivesse atraindo. Estava muito perto quando a parte energética, que era meu corpo, começou a flutuar, subindo gradualmente, permanecendo na altura entre um ponto de entrada e outro, ou entre o sagrado e o profano, eu diria.
Sem conseguir vislumbrar qual seria o meu fim, só temia despencar dentro da lava nervosa, pois já antecipava o horror das queimaduras, mesmo desprovida de um corpo humano no momento.
Tentei lutar, mas faltou-me força; quis gritar, mas não tinha voz. Ainda me restou o bom senso de não ser hipócrita a ponto de fazer uma oração apenas naquele momento de desespero, uma vez que nunca fui religiosa. Estava ciente dos meus erros e acertos; afinal, foram minhas escolhas. Considerava-me uma pessoa do bem, vivendo em harmonia comigo mesma, dentro do possível.
Ao ser posicionada bem ao centro dos dois “túneis de plasma”, senti o calor infernal vindo de baixo e a brisa celestial vinda de cima. Naquele instante, meus poucos anos de vida passaram pela minha mente em segundos, como um flashback em hipervelocidade. Em 16 anos, fiz ou estive envolvida em muitas coisas e reconheço que poderia ter feito muito mais; contudo, é um período insignificante. Meu desejo sempre foi o de viver por muitos anos para descobrir novas experiências, conhecer pessoas diferentes e explorar outros lugares. Namorar bastante também estava nos meus planos e, quem sabe, me apaixonar, casar e ter filhos.
Mais uma vez, aquela energia que parecia preencher e dominar todo o universo físico e psíquico fez-me entender que eu tinha duas escolhas: seguir na direção da luz suave, onde passaria por uma espécie de formatação, esquecendo tudo que já experimentei e aprendi. Começaria uma nova vida do zero.
Outro caminho parecia uma espécie de reencarnação, porém, no corpo de outra jovem, pois não era possível retornar ao meu. Essa outra alma havia desistido da vida, abandonando à própria sorte o seu corpo enfermo em estado de coma.
Se aquilo era um desafio, aceitei com toda a minha gratidão; eu apenas desejava continuar vivendo no mundo que já conhecia e que ainda tinha muito a oferecer. Desejava retornar ao convívio das pessoas amadas e aproveitar a vida por muitos anos, pois adorava viver. Tentaria não flertar tanto com o perigo, dessa vez.
No momento seguinte, uma luz lilás apareceu entre um túnel e outro. Assemelhava-se a uma flor, um lírio desabrochando como o diafragma de uma câmera fotográfica abrindo-se passo a passo. Quando a abertura atingiu o máximo, fui puxada lentamente para dentro até atravessá-la e, novamente, viajei à velocidade da luz, parando no interior de um corpo humano. Milagrosamente, recebi a oportunidade de retornar ao mundo dos vivos, substituindo essa alma desertora. Esse novo corpo estava muito ferido, mas ainda vivo e, aparentemente, com todos os órgãos.
Na minha humilde opinião, acredito que não tenha chegado a minha hora de morrer; foi algum erro do “estagiário”. Quando alguma espécie de supervisor ficou sabendo, provavelmente me mandou de volta; todavia, como o meu corpo ficou imprestável, minha alma foi alocada no de outra pessoa, que se recusava a continuar vivendo.
Sentiria saudades do meu antigo corpo, amava cada detalhe, principalmente as covinhas de Vênus. Mas continuava grata e, após conseguir despertar esse corpo, eu procuraria ser sempre coerente com as minhas convicções, ou seja, não agir contra a minha concepção de certo e errado, pois a morte não é o fim de tudo, percebi; há outros ciclos a serem cumpridos. Acredito que as pessoas dignas, empáticas e generosas não são jogadas no buraco quente e nervoso. Aquele lugar deve ser um inferno.
A satisfação sentida ao retornar para esse mundo amenizou o incômodo de continuar na escuridão. Não sabia quando era noite ou dia; após o milagre, a minha preocupação era continuar viva. E, embora houvesse o transtorno de despertar em um corpo em estado de coma, a minha expectativa de fazê-lo recobrar a consciência em algum momento era animadora. O desesperador era sentir tanto desconforto em razão da enfermidade e a impossibilidade de interagir com o corpo inerte.
Às vezes, a sensação era de ter ganhado um carro cuja ignição não funcionava. Na maioria das vezes, tinha a impressão de correr por caminhos no interior de um labirinto, mas o final do corredor era sempre uma porta lacrada. Será necessária uma senha de acesso? Onde consegui-la? Ficava me questionando.
Sentia falta da energia, a qual me orientou na outra dimensão e não “falou” mais comigo; ainda assim, a percepção era de não estar sozinha e de fazer parte de algo de dimensões absurdas. No entanto, além das portas, só conseguia ver escuridão e ouvir o zumbido leve e estranho vindo de todas as direções.
Continuaria percorrendo o labirinto pacientemente até encontrar a saída; tempo livre não me faltava, sobretudo, para acreditar no despertar do corpo. Também para pensar nos momentos já vividos.
Por exemplo: a correlação do fatídico acidente sofrido pela minha família com uma carta que encontrei há duas semanas entre as páginas de um dos livros que o mestre Vilânio obrigava-me a ler. O manuscrito era um desabafo ou acusação de alguém chamado Susana. Até dois meses antes da minha admissão, essa jovem havia sido a modelo do mestre.
Serei fiel ao tema escrito por ela, mas à minha maneira, pois não me recordo de todas as frases na íntegra.
Ao mestre Vilânio.
Sua última tentativa frustrada de fazer sexo comigo, ou seja, de abusar do meu corpo, reduziu ainda mais o pouco respeito que eu ainda tinha pelo senhor. E se me causou desprezo e vergonha alheia a sua cena patética, por outro lado, eu fui compensada ao passar uma noite de amor maravilhosa com o Robson. Ele era um homem de verdade, o homem que eu amo e que fez sexo comigo por horas, saciando todos os meus desejos. Aproveitamos o alojamento ainda desocupado para ter nossa noite romântica.
Aqui, farei um adendo para explicar o motivo do alojamento vazio e já continuo com a carta. As aulas no ateliê tiveram início no dia primeiro de fevereiro do referido ano. Ao passo que os estudantes dos demais departamentos do instituto só retornaram no dia sete. Foi o meu caso, pois, naquele mês, eu frequentava apenas o ensino médio. A minha trajetória no ateliê ainda não havia começado; a vaga era ocupada pela Susana. Ela estudava no colégio técnico durante o dia, fazia o treinamento remunerado com o mestre Vilânio à noite e dormia no alojamento. O Robson — seu namorado secreto — cursava artes plásticas no ateliê durante o dia. Não dormia no alojamento. Isto é, soube pela carta que não era bem assim, né?
Sigamos com a carta e a narrativa da Susana:
Assim que saí desse ateliê nojento, tomei um banho para tirar o odor fétido deixado em mim pelo senhor e aguardei meu amor, toda cheirosinha e só com o conjuntinho de dormir.
Minutos depois ele chegou e se acomodou em minha cama, aconchegando-se comigo e, após um beijo ardente e cheio de desejos, meu shortinho começou a deslizar por minhas pernas e sua língua, lábios e dedos brincaram deliciosamente em minha vagina. Talvez a sua ignorância machista não compreenda o quanto uma mulher adora essas preliminares.
Ele não teve pressa, tampouco nojinho quando gozei em sua boca. Evidente que retribuí também o chupando gostoso, mas ele guardou o auge do seu prazer para mais tarde, pois tínhamos toda a noite pela frente.
Em instantes eu estava de quatro sobre minha cama, e o pênis rígido como ferro, inteirinho em minha boceta, indo e vindo, arrancando meus gemidos, abafados pelo travesseiro.
A propósito, ele usou preservativo e saiu cheio de dentro de mim, após quase me desfalecer de prazer.
Durante os cinco minutos de relaxamento para recuperar o fôlego, ele, de conchinha comigo e massageando meus seios, sussurrava em meu ouvido as sacanagens suaves que eu amo ouvir nessas horas. Seu membro entre minhas pernas ganhou nova rigidez, excitando-me ainda mais que antes. Direcionei a cabeça do volume para a entrada da minha vagina; ele ergueu a minha perna e transformou o momento da penetração em algo maravilhoso. Senti-me flutuar ao receber seus golpes potentes e prazerosos. A conexão dos nossos corpos era perfeita e o instante vivido era divino.
Foi super gratificante chegarmos ao gozo simultaneamente, com ele uivando e eu latindo como uma cadela, ignorando o perigo do flagrante e, dessa vez, a falta do preservativo. Eu tinha ciência, mas pensaria no problema depois; no momento, meu único desejo era continuar fodendo gostoso com meu homem.
A melhor parte da minha vida foi naquela noite de sexta-feira, nos braços do Robson. E a segunda-feira foi o dia mais triste e difícil, quando recebi a notícia do falecimento do meu amor em um acidente de carro. Tenho certeza de que foi algo encomendado por pessoas tão desprezíveis e repugnantes que nem o inferno será castigo suficiente.
Passadas três semanas, recebi o exame com a confirmação da minha gravidez. Isso, por si só, seria uma catástrofe em minha vida. No entanto, poderia ser pior; o agora feto poderia ser seu herdeiro, senhor Vilânio. A sua ejaculação precoce, despejando seu sêmen antes mesmo da introdução, pode ter me engravidado, pois, tentando saciar o seu ego de macho, ainda tentou copular comigo ao enfiar essa coisa melada e mole em minha vagina. Serviu apenas para complicar a minha vida.
Preocupe-se com outras coisas e não com a paternidade, pois jamais pediria isso para um escroto como você; desejei apenas que soubesse dos fatos, já que não estarei aqui para contar pessoalmente.
Até nunca mais, e apodreça no inferno, seu verme!
Susana.
No final, ela deu a entender que estava se despedindo dessa vida. E aconteceu realmente; ela engoliu um monte de comprimidos de tarja preta e não foi socorrida a tempo.
A carta era endereçada ao mestre; não sei o motivo de ela estar no livro. Mas ele não chegou a ler, ou então a teria destruído.
Contudo, ele ainda terá a oportunidade de ler, pois levei a carta e entreguei ao Roberto. Ele digitalizou e enviou uma cópia para o repórter do site de denúncias. A original foi enviada com o HD contendo a cópia das imagens. Será uma prova adicional contra a máfia.
Ao relacionar a tragédia de Roberto e Robson com a da minha família, fortaleceu em mim a certeza de que os bandidos usariam “acidentes” de carro como o método preferido para eliminar seus desafetos.
Continua.





Mais um relato interessante.