Deixamos a classificação do motel para depois; tínhamos trabalho pela frente.
Calçamos as luvas cirúrgicas para não deixarmos digitais nos equipamentos.
— Também é apropriado para conservar as digitais do seu mestre. Talvez mais tarde seja útil para a PF — esclareceu.
Para garantir que incluía as imagens em que eu era a protagonista, primeiro visualizamos alguns trechos da produção nos próprios aparelhos.
Meu parceiro parecia não acreditar nas cenas degradantes, disse estar horrorizado e incapaz de crer que eu conseguia suportar tamanha aberração.
Com o notebook que o meu colega trouxe, um HD externo e leitores de cartão, ele fez uma cópia com mais de 200 gigabytes de arquivos. A maioria esmagadora era de vídeos, todos com data dos últimos seis meses.
Realizamos algumas capturas de tela e transferimos para o meu cartão mini SD. A ideia era ter uma amostra para apresentar aos meus pais, caso fosse necessário antecipar o assunto. Porém, o sensato seria aguardar a reunião do meu colega com a equipe do site de denúncias para sabermos como agir. Apenas quando me sentisse segura e protegida, revelaria minha parceria com Roberto e a posse das cópias em vídeo mostrando os abusos sofridos.
O processo de copiar para o HD externo era demorado. Deitei um pouquinho para descansar a vista e o corpo. O Roberto continuou trabalhando.
Adormeci e tive um pesadelo horrível. Estava inclinada sobre a mesa de pedra no altar montado no palco do miniteatro do ateliê. Vestida com o uniforme do instituto, mas com uma saia despojadamente curta e mais nada por baixo. Mesmo sem ver a retaguarda, sabia que um vampiro, com asas abertas, similar a um morcego e com mais de dois metros de altura, avançava em minha direção. A criatura com um pênis monstruoso e disforme mantinha-me dominada por alguma espécie de energia que emanava dele. Estremeci com um calafrio ao sentir o ser invadir o vão entre as minhas pernas abertas. Soube que era o tio Agenor ao ouvir seu murmúrio em um dialeto estranho com uma entonação demoníaca; o medo me dominou. Entendi que ali ocorria um ritual no qual eu seria brutalmente violentada e, em seguida, sacrificada.
Quando o membro bizarro começou a forçar a entrada da minha vagina, a dor e o desespero fizeram-me gritar, mas o som foi abafado pela risada demoníaca do ser. Comecei a chorar compulsivamente ao sentir que não suportaria o volume que me invadia.
Aquela cena aterrorizante se dissipou como fumaça quando senti carícias em meus cabelos e uma voz amiga chamando meu nome. Percebi a presença do Roberto deitado ao meu lado. Eu estava chorando quando virei para ele. Fiquei aliviada de imediato ao perceber que não passara de um pesadelo.
— Percebi seu sono agitado. Foi um sonho ruim?
— Foi horrível. Ainda bem que me acordou.
O jornalista me abraçou forte e carinhosamente, pediu para eu parar de chorar. Apertei ainda mais meu corpo contra o dele e o beijo foi tão romântico quanto ardente. As carícias continuaram enquanto nos despíamos. Logo após aconteceu o momento delicioso da penetração; esqueci o vampiro frio e saboreei o corpo quente do meu parceiro sobre o meu, no mesmo instante em que senti o peso da responsabilidade ao ouvi-lo dizer:
— Eu te amo, Gisele.
Meu amante tornou o momento ainda melhor. Beijei sua boca com todo meu carinho e tesão enquanto nos movíamos em sincronia com os corpos unidos, como se fôssemos um só. Nós rolamos na cama e gozamos até saciarmos nosso desejo.
Era dia quando tudo ficou pronto. Os equipamentos estavam guardados e o relógio marcava 6h40. Era hora de partir. Meu cúmplice ficou com as mídias originais e os equipamentos. Em poucas horas, ele se encontraria com seu amigo jornalista para uma reunião a fim de tomar decisões adequadas, legais e seguras.
O roubo seria um fator complicador. Foi o único método que encontrei, como vítima, para obter provas. Seria a minha linha de defesa.
Saímos do motel pouco antes das sete da manhã e, alguns minutos mais tarde, desci do carro próximo à minha rua e ele seguiu viagem.
Cheguei em casa mais cedo que costumeiramente; naquele sábado, menti para os meus pais que o ônibus do instituto antecipou a partida.
A Giovana acabara de entrar no banheiro; aproveitei a oportunidade e fui para o nosso quarto. Peguei o mini SD contendo as capturas de tela do notebook do Roberto, com imagens evidenciando os abusos que sofri no interior do ateliê, e escondi provisoriamente dentro da roupa de uma boneca que conservei da minha infância.
Tentaria seguir normalmente com minha rotina. Óbvio que seria impossível, pois, tão logo descobrissem o roubo, as coisas ficariam punk ao extremo.
Já havia esquecido que prometi levar a Giovana para conhecer o ateliê e o mestre Vilânio. Passaram-se alguns meses desde que ela parou de me cobrar a visita. Isso foi um alívio, mas estava enganada com seu esquecimento e descobri tarde demais que dei mole, não suspeitando que a maquiavélica aprendiz tramava algo.
Ela veio com tudo para cima de mim, justamente no dia em que consegui as provas do abuso criminoso que sofria.
— Não consigo acreditar que você tem coragem de transar com um cachorro e ainda fazer todas aquelas nojeiras. Senti vontade de vomitar — disse a Giovana, visivelmente alterada.
Essa discussão começou no quarto lá de casa, após eu voltar do banheiro, onde fiquei quase meia hora. A garota estava com seu celular na mão. A minha boneca e a caixinha aberta do cartão mini SD estavam sobre a sua cama.
Confessou que há muito suspeitava do meu treinamento no ateliê, ouvira insinuações em seu grupinho de estudantes, por isso ela vinha bisbilhotando minhas coisas para conseguir encontrar algo incriminador.
Ela confessou que estava me vigiando quando escondi a caixinha na boneca. Aproveitou o tempo que fiquei no banho para enfiar o cartão no seu celular e visualizar as fotos estarrecedoras. Eram imagens da minha interação romântica com o cão durante os trabalhos monitorados pelo mestre. Na realidade, eram cenas de erotismo explícito; ainda assim, tentei poupar a caçula dessa bruta realidade.
— Não é o que parece, sua louca, só fazemos simulações, é teatro, apenas interpretação — esse foi o meu primeiro intento para abrandar a ira demonstrada por ela, inventava argumentos na tentativa de convencer minha irmã. Disse que era um ato artístico, fantasia e surrealismo com falso teor explícito.
— Quero ver a reação do papai quando ele der de cara com isso. — Você acha que ele vai acreditar nesse monte de mentiras idiotas?
— Ele nunca verá isso, Gi. Esse trabalho vai direto para a Suíça a pedido de clientes milionários, para uso privado, garantiu-me o mestre Vilânio.
— Você tá achando que eu sou idiota, né, Gisa? — disse ela. — Não consigo acreditar que você teve coragem de descer tão baixo. — E se fez isso com o cachorro, então fez pior ainda com o velho, né? — Que nojo eu sinto de você… Argh!
Eu fui estúpida ao trazer isso; devia ter aguardado a resposta do jornalista.
Procurei parecer natural e dei o meu melhor caçando palavras para amenizar a situação e tentar convencê-la a ficar calada. Mas não obtive sucesso; a menina parecia uma metralhadora despejando impropérios e trazendo à tona toda sua decepção e raiva que sentia por mim.
Para meu desespero, ela saiu em disparada rumo ao quarto dos meus pais. A caçula estava prestes a precipitar os acontecimentos.
Continua.

