Chegando à sua residência, um sobradinho de dois dormitórios, fui informada de que sua mãe trabalhava como cuidadora de idosos e só chegaria ao anoitecer.
— Você pode treinar tranquila.
Eu sorri e concordei; achei melhor assim, teria ficado sem graça com a presença da mulher.
Já havia ligado para a minha irmã, avisando que passaria o dia na casa de uma colega. Meus pais estavam no trabalho.
O Roberto é um cara legal, robusto, mas sem músculos, de estatura média e tímido; não é bonito, mas é muito simpático; de aparência nerd, possivelmente pelos óculos de grau e pela barba rala, cheia de falhas e descuidada. Não mexeu com minha libido, porém, é pegável.
Treinamos juntos a primeira hora e meia; depois ele foi cuidar dos seus afazeres domésticos. Continuei praticando sozinha em seu quarto.
Aprender a usar as chaves de abertura de forma eficiente demandava tempo. Nos últimos dias, empenhei vários minutos no aprendizado por meio de tutoriais. Contribuiu significativamente para o meu desenvolvimento e aquisição de prática.
Felizmente, ao findar a tarde, o treinamento havia sido um sucesso e me considerava preparada para abrir as fechaduras. Reservaria o domingo para descansar, pois mão e punho estavam doloridos devido ao esforço exigido naquele sábado.
Marcamos o dia da invasão; seria em duas semanas, na sexta-feira, 9 de setembro.
Aproveitei o feriado da Independência e fui à casa do Roberto para combinarmos todos os detalhes da operação e praticar mais um pouco.
Uma hora e meia de treino foi suficiente; conseguia abrir cada uma das fechaduras de teste e até a fechadura tipo tetra da sala da residência em menos de dez minutos.
Posteriormente, concordei em fazer uma denúncia em vídeo para enviar ao site de denúncias. Iria no mesmo pacote com as provas do crime.
A única parte divertida durante os cinquenta minutos de gravação foi o Roberto tentando ocultar o seu pau duro sob o jeans. Os meus relatos mexeram profundamente com a libido do rapaz.
Momentos depois, meu anfitrião abriu uma garrafa de vinho. Aguardávamos a entrega do almoço pedido por ele. A mãe do jornalista, também nesse dia, encontrava-se no trabalho.
O almoço chegou e, após saborearmos sem pressa, sugeri continuarmos a conversa no conforto da sala, ao passo em que ficávamos mais amáveis e ligeiramente melancólicos, devido ao volume da segunda garrafa de vinho já estar abaixo da metade.
Todo atencioso, ele falou do perigo de deixar-me correr o risco sozinha.
— Se acontecer um imprevisto, seria bom ter alguém para te ajudar — explicou.
— É verdade, embora seja mais seguro eu atuar sozinha, por pertencer ao local.
— Se na hora você não estiver confiante, não corra riscos desnecessários e desista; poderemos pensar em outra alternativa.
— Estou supermotivada para correr todos os riscos. Os carrascos me fizeram acumular motivos mais que suficientes para ser forte e vencer o desafio. Vai dar certo.
Acomodei-me no sofá, pensando no assunto. Eu tinha ciência de que um plano tão arriscado poderia dar errado; talvez até acabasse meus dias, presa como escrava em algum puteiro controlado pelos bandidos. Também poderia acabar morta nessa história.
De repente, minha porção ninfomaníaca manifestou-se; conjecturei que talvez estivesse diante da minha última oportunidade de praticar sexo consentido. Foi quando ele se aproximou para colocar mais vinho em meu copo, com um olhar menos tímido.
O álcool desinibe e encoraja, pensei.
— Ficou sério, Róber. O que foi?
— Estava pensando. E se colocarem você em um programa de proteção a testemunhas? Eu nunca mais vou te ver.
— Que coincidência! Acabei de pensar em algo do tipo, então desejei te deixar com uma lembrança minha e levar uma sua — falei e deixei o copo de lado.
— Eu ia adorar. O que é?
— Larga isso e vem aqui pegar — falei ao ficar em pé, de braços abertos, convidando-o para o contato íntimo.
A ficha dele levou um tempinho para cair, e alguns segundos se passaram antes de ele dar o primeiro passo em minha direção. Foi necessário que eu afirmasse com um sorriso e um movimento de cabeça enquanto pronunciava:
— Vem!
Quando o boy chegou pertinho…
— É melhor tirar isso — disse eu, pegando delicadamente os óculos dele e colocando-os sobre a mesinha.
Voltando à posição vertical, minha boca procurou a sua enquanto envolvia seu pescoço em meus braços. Enterrei os dedos em seus cabelos cacheados e bagunçados, acariciando sua cabeça enquanto desfrutava do seu abraço e do calor do seu corpo.
O beijo foi longo, muito romântico e pouco atrevido. Mas eu daria um jeito nisso ao incentivá-lo a tirar a camiseta. Acariciei seu peito nu.
— Uau! Que caixa torácica de respeito, amei.
Com um sorriso maroto e olhando-o de forma provocante, comecei a levantar minha camiseta até removê-la. Por estar sem sutiã, meu tronco ficou nu, deixando o próximo abraço mais excitante e intensificando o beijo e as carícias.
A partir desse ponto, o desejo tomou conta da situação, foi puro tesão. Com ambos despidos no sofá, seu corpo se uniu ao meu em um papai e mamãe. Sem preliminares, já que meu parceiro, seis anos mais velho, porém inexperiente, estava faminto por sexo. Ainda mais quando informei sobre estar protegida, despreocupando o universitário.
Transamos durante a maior parte da tarde, com pausas para uma corridinha até o banheiro para higienizar ou para recuperarmos o fôlego. Também tomamos o restante do vinho.
Era fim de tarde e estava quase cochilando no sofá da sala; ele de conchinha comigo, pois foi de ladinho a última transa.
— Que horas sua mãe costuma chegar?
— Vou falar a verdade: minha mãe está passando alguns dias em Ponta Grossa, no Paraná, na casa da minha avó. Achei que você não viria se soubesse disso.
— Cachorro mentiroso, hahaha! — Merece um castigo.
— Mereço mesmo, desculpe.
— Está pronto?
— Pronto para o castigo?
— Sim, e tem que ser no capricho.
— E o que é, Gisele?
— Vou fazer essa cobra ficar durona de novo para fazermos um “Ipsilone”.
Precisei explicar rapidinho minha teoria. Ele adorou.
Meu cúmplice não decepcionou ao me pegar por trás, debruçada no braço do sofá. O danado afirmou que adoraria receber essa punição por dias seguidos. Pensei positivo desejando que os dias vindouros fossem de liberdade e de muitas outras transas.
***
Naquela quinta-feira, pós-feriado da Independência, não fui convocada para trabalhos noturnos. Dei graças aos céus; minha intenção era dormir cedo e descansar muito, pois a noite de sexta-feira seria de muita atividade perigosa e nenhum sono.
Durante os trabalhos de sexta à noite no ateliê, olhei para o salão e memorizei os movimentos que faria mais tarde ao caminhar no escuro no interior do miniteatro.
Horas depois, no alojamento, a noite fria foi providencial, pois me permitiu dormir vestida com a camiseta e a calça de moletom, ambas pretas. Estava parcialmente vestida para facilitar a minha fuga noturna.
O nervosismo ajudou-me a permanecer acordada, em vista de ter planejado sair à 1h da manhã para me apoderar dos equipamentos. Havia treinado o suficiente para vencer o desafio de abrir as fechaduras em um curto espaço de tempo, estava confiante.
O momento chegou. Com a leveza de um ninja, levantei, peguei minha mochila e alcancei a varanda externa sem chamar a atenção dos que dormiam. Vesti a blusa e o tênis, ficando toda de preto: calça, camiseta, casaco com capuz, tênis e, inclusive, a mochila. Caminhei rumo ao objetivo, percorrendo uma distância de 100 metros, e parei diante da porta do quartinho. Felizmente, não encontrei sinal de nenhuma alma viva pelo caminho, então calcei as luvas cirúrgicas, tirei o primeiro jogo de chaves da pochete, o frasco de óleo e dediquei-me inteiramente ao trabalho.
Dez longos minutos depois, comecei a ficar decepcionada comigo mesma; a infeliz nem dava sinal de querer abrir. Tem algo errado com essa tranqueira, pensei. Será a ferrugem causada por respingos de chuva? Enfiei o bico do frasco de óleo no buraco da fechadura e dei mais um jato generoso. Continuei tentando e fiquei animada quando começou a dar resultado.
O alívio foi imenso ao conseguir destrancar; gastei vinte minutos naquela porra de fechadura, mas em nenhum momento pensei em desistir. Se, por um lado, havia o pavor de ser descoberta a qualquer momento, por outro, havia a revolta e a sede de vingança por tudo que já me fizeram passar, somado à angústia de ver minha família refém desse sistema. Todas essas coisas fizeram-me criar uma crosta de coragem e força; não mediria esforços para superar os obstáculos e conseguir o material almejado, que seria capaz de causar danos na estrutura dessa rede mafiosa.
A fechadura da porta interna deu menos trabalho; não levei cinco minutos. Agradeci aos céus por vencer a primeira etapa. Encostei a porta e fui em frente contando os passos. A escuridão total do miniteatro não era um problema; eu conhecia bem seu interior, disposição dos objetos e decorei com antecedência a quantidade de passos entre a porta que acabara de passar e a outra passagem secreta de acesso à antessala.
25 passos depois, tateei a porta, que na verdade era uma madeira maciça com detalhes talhados. Firmei os dedos nos sulcos e fiz pressão, deslizando-a devagar e apenas o suficiente para eu passar.
Na antessala, a luz do luar atravessando os vitrais clareava parcialmente o ambiente. Segui caminhando e controlando o medo, pois agora podia ver as inúmeras figuras satânicas pintadas nos quadros e nas paredes e, apesar de já estar acostumada com a arte sinistra, as figuras grotescas pareciam ameaçar-me na tentativa de proteger o lugar.
A porta para passar da antessala para o mezanino abre apenas girando a maçaneta, mas necessita da chave para o sentido inverso. Deixei-a escancarada por precaução. Alguns passos mais e entrei no escritório no interior do mezanino, sentindo cada vez mais medo, imaginando que poderia ser surpreendida por um sistema de alarme ou por algum guarda-noturno.
Tirei a outra chave (ferramenta) da pochete, rezando para que a fechadura do armário desse tão certo quanto a da segunda porta.
Cerca de cinco minutos depois, sorri ao ter obtido sucesso na abertura, e principalmente por encontrar a minha “lista de desejos” repousando sobre a prateleira. Coloquei com cuidado os equipamentos na mochila e fiz o caminho de volta, abandonando o prédio.
Caminhei entre as árvores frutíferas por aproximadamente 50 metros até chegar aos fundos do pomar. Escalei a grade de dois metros ou mais de altura e saltei na vegetação rasteira. Afastei-me caminhando, tirei as luvas e enfiei-as no bolso da calça. Segui iluminada somente pelo luar, até chegar ao ponto de encontro combinado com o Roberto. Partimos de imediato em direção a Mogi. No caminho, fui contando sobre as dificuldades e motivos do meu atraso.
Continua.

