Jairo conseguiu uma substituição de duas semanas numa escola da comunidade de Vila Canaã, no Alto Coari. Uma vila pequena, crente, cercada de mata e cortada por um igarapé de água escura. Fomos hospedados na casa de Seu Francisco e Dona Livranice, um casal já de idade que recebia professores com naturalidade. Os dois filhos gêmeos, Aminadabe e Eliel, de dezoito anos, ainda moravam com eles. A casa era simples, de madeira, no meio da clareira. O banheiro ficava nos fundos, ao ar livre: só um chuveiro improvisado, uma tábua no chão e nenhuma parede. Quando tinha visita, todo mundo tomava banho de roupa. Quando não tinha, a gente descobriu depois, a regra era outra. No segundo dia, no final da tarde, Jairo saiu para buscar água no rio e passou atrás da casa. Dona Livranice estava no chuveiro. Usava um babydoll fino, de algodão claro, que a água tinha colado completamente no corpo. O tecido transparente marcava os seios pesados, os mamilos escuros, a barriga macia e o desenho da calcinha por baixo. O cabelo molhado escorria pelas costas. Ela não viu Jairo de imediato. Continuou se ensaboando com calma, as mãos passando devagar pelo corpo. Jairo parou a uma distância respeitosa. Quando ela ergueu o rosto e o viu, não se assustou. Só passou a mão no cabelo e falou, a voz tranquila: — Boa tarde, professor. A água está boa hoje. Ele cumprimentou de volta e ficou conversando. Falou do rio, da escola, do calor. Ela continuou tomando banho na frente dele, o babydoll cada vez mais transparente, o tecido grudado entre as coxas. Jairo não desviava o olhar o tempo todo, mas também não se aproximava. A conversa fluía natural, como se a situação fosse comum. Eu cheguei alguns minutos depois, voltando da cozinha. Vi os dois e parei. Livranice me olhou sem constrangimento e sorriu. O babydoll molhado deixava quase tudo à mostra. Jairo aproveitou a deixa e perguntou, com a voz calma: — Dona Livranice… por que a senhora toma banho de roupa? A gente, eu e a Anita, é nudista. Em casa a gente não usa nada. Não se importa se a senhora preferir sem roupa também. Ela parou de passar o sabão, olhou para mim, depois para ele, e deu uma risadinha baixa, quase sem jeito. — Aqui na comunidade é diferente, meu filho. Quando tem visita a gente se cobre. Mas… vou pensando nisso. Ela terminou o banho ainda de babydoll, se enxugou por cima da roupa e foi para dentro. Jairo e eu ficamos ali mais um pouco, o coração acelerado. Nada além daquilo tinha acontecido. Só o olhar, a conversa, o tecido molhado e a porta que a gente tinha entreaberto com cuidado. Naquela noite, deitados na rede do quarto dos fundos, Jairo murmurou no meu ouvido: — Ela não se assustou. Isso é um começo. Eu apertei a mão dele e fiquei olhando o teto de palha. A casa era crente, a comunidade era fechada, os gêmeos andavam quietos pela varanda. Mas o banheiro sem paredes e o babydoll transparente tinham dito alguma coisa. O limite ainda estava longe.Mas a gente já tinha dado o primeiro passo.
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