Depois que Seu Francisco desceu o rio de canoa, eu não me vesti. Fiquei nua dentro da casa por um tempo, o corpo ainda formigando com a conversa. O calor da mata apertava. Resolvi levar uma cadeira de madeira para fora, bem na área dos fundos, de frente para o rio e para o caminho por onde a família costumava voltar. Sentei, as pernas abertas o suficiente para o ar circular, os pelos da buceta ainda um pouco úmidos do banho, e fiquei ali, olhando a água escura entre as árvores. O sol já estava mais alto quando ouvi de novo o barulho da canoa. Seu Francisco e Livranice foram os primeiros a aparecer. A canoa atracou, eles subiram o barranco carregando algumas coisas da roça. Livranice veio na frente, a saia suja de terra, o cabelo preso. Quando me viu sentada nua na cadeira, parou seco. Os olhos dela desceram pelo meu corpo inteiro — seios, barriga, a buceta descoberta — e depois subiram de novo para o meu rosto. Seu Francisco veio atrás e não demonstrou surpresa. Só tirou o chapéu e falou, como se fosse a coisa mais natural do mundo: — Eu já tinha dito pra ela que podia ficar assim. Livranice ficou em silêncio por alguns segundos. Depois deu um meio sorriso, meio constrangido, e respondeu baixo: — No meio do mato… a gente já viu de tudo. Mas é estranho no começo, né? Eu não me cobri. Continuei sentada, as mãos descansando nas coxas. — Seu Francisco me explicou sobre a família de vocês. Sobre ser descendente de índio. Eu resolvi ficar assim. Se incomodar, eu visto. Livranice balançou a cabeça. — Não incomoda. Só não esperava. Pode ficar. Eles passaram por mim e entraram na casa para deixar as coisas. Eu continuei na cadeira, nua, sentindo o vento quente da mata tocar a pele. O constrangimento inicial tinha voltado um pouco com a presença de Livranice, mas foi passando rápido. Ela saiu de novo momentos depois, já sem a blusa, só de saia, e se sentou num banquinho próximo, como se quisesse mostrar que também estava à vontade. Não demorou para os meninos aparecerem. Vieram pelo caminho de terra, voltando da escola. Quando me viram nua do lado de fora, pararam. Um deles abriu a boca, o outro desviou o olhar rápido. Eu apenas acenei com a cabeça, sem me mexer. Eles atravessaram o quintal em silêncio e entraram na casa, sem fazer pergunta nenhuma. O silêncio deles pesava mais que qualquer comentário. Por último chegou Jairo. Ele veio pelo mesmo caminho, a mala de professor na mão, o rosto cansado do dia. Quando ergueu os olhos e me viu sentada nua na cadeira, do lado de fora da casa, no meio da mata, parou como se tivesse levado um susto. Os olhos dele se arregalaram. Olhou para Seu Francisco, que estava próximo, depois para Livranice, depois de novo para mim. — Anita…? A voz saiu baixa, surpresa, quase sem ar. Eu sorri, ainda sentada, as pernas abertas, o corpo inteiro à mostra sob a luz da tarde. — Oi. Eles voltaram e me encontraram assim. Seu Francisco já sabia. A Livranice também. Os meninos viram. Eu não me vesti. Jairo ficou parado mais alguns segundos, processando. O olhar dele descia e subia no meu corpo, misturando o desejo antigo com o susto de me ver exposta daquela forma, fora de casa, na frente de todo mundo. Seu Francisco falou, calmamente: — Já expliquei pra ela, Jairo. Aqui a gente é caboclo. Nudez nunca foi problema. Pode ficar à vontade. Livranice completou, ainda só de saia: — Pode mesmo. Ninguém aqui vai estranhar. Jairo soltou o ar devagar. Depois deixou a mala no chão, se aproximou de mim e parou na minha frente. Olhou nos meus olhos, depois para o resto do corpo, e falou baixo, só para eu ouvir: — Você tá nua… do lado de fora… — Tô. E vou continuar. Ele não pediu para eu me vestir. Só passou a mão pelo meu cabelo, depois desceu até o ombro, e ficou ali, ao meu lado, ainda de roupa, enquanto eu permanecia nua na cadeira, de frente para o rio e para a família que agora sabia exatamente como eu escolhia ficar. O sol ia baixando entre as árvores. O rio corria quieto. E pela primeira vez, naquela casa no meio da mata, a nudez tinha deixado de ser só coisa de dentro de casa.
Faca o seu login para poder votar neste conto.
Faca o seu login para poder recomendar esse conto para seus amigos.
Faca o seu login para adicionar esse conto como seu favorito.
Denunciar esse conto
Utilize o formulario abaixo para DENUNCIAR ao administrador do contoseroticos.com se esse conto contem conteúdo ilegal.
Importante:Seus dados não serão fornecidos para o autor do conto denunciado.