Peguei o carro e dirigi até o centro da pequena cidade de passagem. Eu queria jantar, mas, acima de tudo, queria sentir a pulsação do risco sob as luzes claras da civilização — não mais o isolamento do mato, mas um salão cheio de gente normal, onde qualquer audácia valia o dobro.
Encontrei um restaurante movimentado na avenida principal. Luminárias amareladas, cheiro de comida caseira, talheres e conversas cruzadas. Perfeito. A iluminação forte criava uma ilusão de segurança que tornava tudo mais perigoso.
Escolhi uma mesa de canto, estrategicamente posicionada. A duas mesas de distância, um casal: ela distraída no celular, ele de meia-idade, cansado, cortando a comida sem vontade.
O jogo começou quando ele levantou os olhos do prato e os lábios travaram ao me notar. Não encarei. Fitei o cardápio como uma turista inocente, deixando que ele me devorasse com o olhar: as pernas cruzadas, o vestido subido, os pés descalços nos sapatos.
Era gostoso aquele olhar em cima de mim. Afinal não estava nua. Adorava sentir aquela sensação de poder.
A esposa mergulhou ainda mais fundo na tela do celular. Foi a minha deixa.
Queria dar um presente para o marido dela. Um show.
Sob o tampo da mesa, afastei os joelhos devagar. O tecido do vestido escorregou, abrindo a linha de visão perfeita a partir do ângulo dele. Nada brusco. Só a postura relaxada de quem não imagina o que está sendo visto — a penumbra sob a mesa fazendo o resto.
O garfo dele parou no ar. Vi o rubor subir pelo pescoço, os olhos arregalados entre o choque e a dúvida: acidente ou provocação? Ele engoliu em seco, o pomo de adão subindo e descendo, e não conseguiu desviar.
Eu tinha vontade de falar para ele:
— Sim, isso mesmo. Não estou usando nada por baixo.
— O que acha? Tem vontade de toca-la mais do que a da sua esposa.
Mas apenas fingi ignorar que ele observava. Minha atenção era em saber o momento para que mais ninguém entrasse na nossa brincadeira.
Meu show era exclusivo para ele.
Pelo canto do olho, observei cada reação: a respiração que falhou, a mão que apertou o guardanapo, o suor fino despontando na testa de um homem que tentava parecer normal diante da esposa. Aquilo me acendeu. O calor desceu do ventre direto entre as pernas, e eu me surpreendi com a própria umidade: não era só jogo. Era tesão de verdade.
Eu como se estivesse lendo o cardápio mexi os lábios e disse:
— Consegue ver como estou molhada. Acho que não....
— Se estivesse pertinho veria como você está me dando tesão.
— Vai larga a carne, a do prato não é melhor do que essa que te ofereço.
Ele parecia quase engasgar. Quando a esposa mexeu no celular, prestes a levantar a cabeça, fechei as pernas com suavidade e cruzei os pés com elegância.
Um segundo. Ela nem percebeu. O homem piscou três vezes seguidas, o queixo rígido, respondendo qualquer coisa no automático enquanto ela falava do cardápio.
Minutos depois, ela se levantou e caminhou para o corredor dos banheiros.
Meu coração acelerou. Não sei de excitação ou maldade com aquele momento intimo e solitário entre nós.
O restaurante continuava cheio, mas o espaço entre as nossas mesas virou um campo de força. Ele ficou imóvel, os ombros rígidos, me encarando pela primeira vez diretamente.
Encarei-o de volta. Dois segundos. Depois, lenta e deliberadamente, abri os joelhos de novo — mais do que antes, com total clareza, sustentando o olhar dele enquanto sustentava o próprio sorriso sereno.
Esse movimento fez o tecido subir mais para cima. Melhorando a visão dele.
E então, sem quebrar o contato visual, deixei a mão descer.
Primeiro pela barra do vestido, puxando o tecido devagar, como quem nada fizesse. Depois, por baixo da mesa, mais fundo.
Os dedos encontraram a pele macia da parte interna das coxas, estava inchada, molhada e quente — o homem viu tudo: a trajetória da mão, o ritmo lento, a intenção.
Ele soltou o ar pela boca, um sopro abafado que ninguém no salão notou, mas que eu ouvi como um grito. Os nós dos dedos embranqueceram na borda da mesa. O corpo dele estava imóvel, mas o peito subia e descia rápido demais para quem apenas jantava.
Toquei-me devagar, sem pressa, o rosto ainda de quem lê o cardápio.
Era prazeroso e assustador. Diferente de andar nua nas ruas. Era um risco diferente, era um exibicionismo diferente.
Um tesão enorme que aumentava cada vez mais conforme me exibida e fingia estar alheia a ele e ao mundo a nossa volta.
A umidade escorria entre os dedos, o vestido absorvendo o calor, e a cada movimento do pulso via o homem se desmontar dois metros adiante: o suor agora escorrendo da têmpora, os olhos vidrados, obcecados, fixos na penumbra sob a minha mesa como quem assiste ao próprio acidente.
Ele ajustou o corpo no assento, desconfortável, a calça apertando onde apertava, e a mão dele tremeu ao tentar beber um gole de água. O copo bateu nos dentes.
Aquilo me levou à beira. O prazer apertou em ondas no meu ventre, os músculos das coxas endurecendo sob o vestido. Meus dedos aceleraram, discretos sob o tampo, os olhos semicerrados disfarçados de cansaço — e ele percebeu.
Pela primeira vez, vi o desejo vencer o medo no rosto dele: a boca entreaberta, a respiração pela boca, a expressão de quem implora para o tempo parar.
O orgasmo me tomou em silêncio, onda após onda, o corpo pedindo para gritar. Cravei os dentes no dedo indicador, o nó da mão colado aos lábios como quem pensa na vida, e o gemido morreu ali, preso entre os dentes — um gemido que só duas pessoas naquele salão entenderam.
Eu, porque o segurei. Ele, porque viu tudo: os olhos se fechando por um segundo, os ombros tremendo de leve, o mordisco no dedo, o ar escapando dele num suspiro de agonia doce. Todo o resto do restaurante via apenas uma mulher distraída, mordiscando o dedo, pensativa diante do cardápio.
Voltei de mim aos poucos, o coração na garganta, as coxas trêmulas molhando o banco. Recolhi a mão e a levei ao copo de água, o mais naturalmente possível, bebendo um gole longo e gelado enquanto ele me encarava de boca aberta, o suor agora escorrendo livremente, um homem destruído.
A porta do banheiro feminino se mexeu ao fundo. Fechei as pernas, alisei o vestido, cruzei os pés com elegância — segundos antes de a esposa reaparecer no salão, sorrindo para o marido ao passar, sem imaginar que ele não piscava havia cinco minutos.
Pedi a conta. Paguei em dinheiro, guardei o troco, me levantei. O vestido desceu cobrindo o suficiente. O ar morno da noite tocou minhas pernas ainda latejantes.
Qualquer pessoa normal caminharia para a saída. Mas o vício na adrenalina exigia mais.
Caminhei direto para a mesa do casal.
Ao me ver, o homem congelou. O sangue fugiu do rosto dele; a cor sumiu por completo, os olhos arregalados num pavor primitivo. Um escândalo, uma cena, a esposa descobrindo — ele calculou tudo isso em um segundo e quase desmaiou.
Parei ao lado da mesa e ofereci um sorriso doce e extremamente educado para a esposa.
— Licença, boa noite — disse, com a voz suave e cristalina.
A mulher olhou para mim, surpresa, mas simpática:
— Boa noite!
Olhei para o homem por uma fração de segundo — o suor frio na testa, a respiração ainda presa no peito, a mão trêmula no copo — e voltei a atenção para a esposa, apontando discretamente para a mesa:
— Desculpe interromper, mas é que eu não pude deixar de notar de longe… O seu companheiro serviu a sobremesa no seu prato e fez questão de encher o seu copo antes mesmo de você pedir.
— Ele fez sem você ver. Isso é tão fofo. Um cuidado raro.
A mulher sorriu, tocada, e olhou para o marido com carinho:
— Ah… ele é muito atencioso mesmo!
Mantive o sorriso impecável, inclinei a cabeça para ela e fechei o recado com o olhar fixo no homem — o mesmo olhar que ele sustentara enquanto eu gozava mordendo o dedo, dois metros adiante, sem poder tocar em nada além do guardanapo:
— Pois é. Não larga desse homem não… Não é fácil encontrar alguém que pensa na gente e cuida de tudo mesmo quando a gente não está por perto.
Ele engasgou com o próprio ar. A frase atingiu o peito dele como um soco: a confirmação de que tudo fora de propósito, de que aquele fora o momento mais erótico da vida dele — e o mais humilhante — e de que eu tinha o controle absoluto daquela lembrança para sempre.
— Tenham uma ótima noite — completei, sem esperar resposta.
Girei sobre os calcanhares e caminhei para a saída com passos firmes, o vestido balançando suavemente a cada passada, o corpo ainda exalando o finalzinho do prazer entre as coxas. Deixei para trás um salão alheio a tudo, uma esposa sorridente e encantada, e um homem completamente destruído de tesão, culpa e pânico, incapaz de articular uma única palavra.
Entrei no carro, fechei a porta e tranquei. O silêncio do veículo foi invadido pela minha respiração acelerada. Segurei o volante com as duas mãos, a onda de calor subindo pelo ventre, as pernas tremendo sobre o couro do banco.
Liguei o motor e acelerei rumo à rodovia. Sob as luzes amareladas da estrada de volta ao chalé, a mente pulsava em euforia: procurar outro posto escuro para esticar a noite até o limite, ou voltar para a pousada e guardar essa fome acumulada para o cenário gigante e imprevisível que me esperava em São Paulo ao amanhecer?
Uma coisa, porém, era certa: ele nunca mais jantaria sem olhar em volta.




