As horas passaram. As pessoas foram sumindo aos poucos, rindo alto, tropeçando nas próprias pernas, deixando atrás de si um rastro de confusão. A casa ficou transformada em um campo de batalha doméstico: mesas tortas, cadeiras viradas, pratinhos com restos de salgadinho grudados, latinhas de cerveja esmagadas no chão, o cheiro ácido de álcool misturado com comida fria. Juca fechou a porta da rua com um suspiro longo, as costas doendo, a cabeça latejando. Estava exausto. Cansado do trabalho, cansado das perguntas invasivas, das piadinhas inconvenientes, do ciúme absurdo que lhe apertava o peito sem motivo real, da inveja venenosa que sentia ao ver casais se tocando como se o mundo fosse feito só para eles.
Arrastou-se até o quarto, tirou a camisa, deixou a calça cair no chão e se jogou na cama. O colchão recebeu seu corpo pesado. O sono veio como uma onda escura e densa, engolindo-o de uma vez.
A porta do quarto rangeu baixinho. Uma fresta de luz do corredor cortou a escuridão. Uma cabeça surgiu, cabelos bagunçados, sorriso lábio-cheio. André. Entrou sorrateiro, fechando a porta atrás de si com cuidado quase carinhoso. Juca abriu os olhos, o coração já acelerado.
— O que você está fazendo aqui…?
Antes que a frase terminasse, a mão quente de André tampou a boca de Juca. O polegar pressionava o lábio inferior. O outro indicador subiu até a boca dele mesmo, pedindo silêncio com um “shiiiii” quase inaudível, os olhos brilhando na penumbra.
André retirou a mão devagar, levantou o cobertor e se deitou atrás de Juca, encaixando o corpo grande no dele em conchinha. O peito quase totalmente liso colou nas costas nuas de Juca. O calor era imediato. Juca sentiu o sorriso crescer nos próprios lábios, misturado a um surpreso arrepio que descia pela espinha.
— Mas… e a Júlia? Espera… você não é hétero?
Outro “shiiiii”, agora acompanhado de lábios quentes colados na orelha. A voz de André saiu baixa, carinhosa:
— Não fala nada. Só curte o momento… ou você não quer?
Juca não respondeu com palavras. Apenas balançou a cabeça devagar, afirmativamente, a respiração já mais pesada. André sorriu contra sua nuca e depositou o primeiro beijo ali, molhado, demorado. A língua escorregou devagar pela pele, subindo até a orelha, mordiscando o lóbulo. Ao mesmo tempo, algo firme e quente pressionou a bunda de Juca pela cueca. Juca levou a mão para trás, os dedos encontrando o volume grosso, quente, latejante. A textura da pele lisa sobre a dureza do pau de André fez seu próprio pênis reagir imediatamente, inchando contra o colchão.
André puxou a cueca de Juca para baixo com um gesto lento, quase reverente. A mão grande deslizou pela nádega exposta, apertando. Juca, por sua vez, fechou os dedos em torno do pau de André e começou a masturbá-lo com movimentos firmes, sentindo as veias sob a pele, a cabeça já úmida de pré-gozo. André cuspiu na própria mão. O som molhado ecoou no silêncio, e passou a saliva quente pelo rego de Juca, os dedos deslizando entre as nádegas, pressionando de leve o ânus. Juca gemeu baixo, o corpo se abrindo por instinto. Entendeu a mensagem. Guiou o membro agora ainda mais rígido até a entrada.
A cabeça larga e quente pressionou a portinha. Juca respirou fundo, os dedos se fechando no lençol. Centímetro por centímetro, André foi entrando. A invasão era densa, quente, quase dolorosa no começo, o ardor queimava, mas logo se transformava em uma sensação gostosa, preenchendo exatamente o vazio que Juca carregava há tanto tempo. André parou quando estava completamente dentro, o peito ofegante colado nas costas de Juca, os pelos pubianos roçando a pele sensível da bunda do passivo.
— Porra… você aperta tão gostoso!
Murmurou André contra o pescoço, a voz embargada de tesão.
Segurou a cintura de Juca com as duas mãos grandes e começou a se mover. Devagar no início, quase carinhoso, saindo quase por completo e voltando fundo. Juca rebolava de encontro, gemendo sem conseguir se conter, a boca aberta contra o travesseiro. André aumentou o ritmo. As estocadas ficaram mais fortes, mais profundas, o pau grosso batendo lá dentro com um som molhado e obsceno. O suor começou a escorrer entre os corpos. Os pelos pubianos de André roçavam a bunda de Juca a cada investida. Juca empurrava para trás, pedindo mais, a mão voltando para tocar os testículos pesados que batiam contra ele. André metia cada vez mais rápido, cada vez mais fundo, os dedos cravados na carne da cintura, a respiração virando grunhidos baixos…
Até que Juca acordou sobressaltado.
O coração batia tão forte que doía no peito. A respiração ofegante. O pau estava duro, latejando, completamente melado de gozo e pré-gozo, a cueca encharcada. Os primeiros raios de sol entravam pela janela. Sábado. Ainda tinha que trabalhar.
Levantou-se cambaleante e foi direto para o banheiro. Abriu o chuveiro. A água quente desceu pelo corpo, tentando levar embora o resto do sonho, mas o pau teimoso continuava em riste, latejando a cada memória.
De repente a porta do banheiro se abriu com um estrondo seco.
— Ei! Estou no banho!
Gritou Juca ao mesmo tempo em que afastou a cortina do boxe só o suficiente para colocar a cabeça para fora, os olhos arregalados.
Francisco estava ali, sem camisa, o peito largo e peludo à mostra, a barriga levemente marcada. Tirou o pau grosso e peludo da cueca com um gesto casual e começou a mijar. O jato saiu forte, intenso, contínuo, batendo no vaso com um som constante. O cheiro de mijo quente encheu o ar pequeno do banheiro.
— Relaxa que sou eu, Juquinha. Só quero mijar. E pode manjar a rola à vontade… eu sei que você gosta!
Juca sentiu o rosto queimar. O olhar traiçoeiro desceu, o pau era mesmo grosso, veias saltadas, a cabeça rosada ainda pingando as últimas gotas e voltou depressa para o rosto de Francisco.
— Mija e sai. Nem devia estar aqui.
Francisco terminou de mijar, sacudiu o pau duas vezes com a mão e deu um passo em direção ao boxe, o sorriso torto e provocador. Abriu a cortina e disse encarando Juca.
— O que foi, Juquinha? Está “nervosa”? Sabe o que é isso? Falta de vitamina “P”… de pica. Toma aqui. Mama que você vai se sentir bem melhor.
Estendeu o pau ainda semi-duro na direção de Juca, a mão segurando a base, oferecendo. O cheiro de mijo e suor de macho amanhecido invadiu o vapor do chuveiro. Juca recuou, a água ainda caindo nas costas, o próprio pau traidor ainda latejando.
— Sai daqui, Francisco, ou vou chamar a Bianca.
Francisco soltou uma risada baixa, quase um rosnado. Deu dois tapinhas leves, mas firmes, na face molhada de Juca. O contato da mão áspera contra a pele fez Juca estremecer de nojo e algo mais escuro.
— Chama. Vai lá, Grita. Que eu vou dizer pra ela que o priminho viadinho deu em cima do pai do filho dela. Que entrou pelado no banheiro enquanto eu mijava. Em quem ela vai acreditar, hem? Em você, todo afetado, que nunca arrumou uma mulher… ou no macho que come metendo fundo na buceta dela e é pai do filho que ela tá esperando?
Aproximou o rosto, o hálito quente batendo no de Juca. Apontou o dedo grosso bem na cara dele.
— Se liga, viadinho!
Balançou o pau pesado na frente dos olhos de Juca, deliberadamente lento, e guardou-o de volta na cueca. Saiu sem olhar para trás, deixando a porta aberta e o ar pesado de desafio.
Juca ficou parado sob a água, o estômago revirado. Terminou o banho rápido, se secou com movimentos bruscos, se vestiu. Na cozinha, Francisco já estava sentado à mesa só de cueca, comendo pão como se fosse o dono da casa. Juca não disse uma palavra. Saiu direto para o trabalho sem sequer tomar café.
O dia no callcenter foi um inferno de clientes gritando e supervisores pressionando. Quando finalmente saiu, foi direto para o salão de Lulu. O cabeleireiro nem levantou os olhos do celular.
— O que foi essa cara? Aconteceu alguma coisa?
Perguntou Juca se jogando no sofá do salão.
— Ah, agora quer conversar, boneca? Porque ontem fui te contar o que tinha me acontecido e você não quis me ouvir.
Disse Lulu irritado e magoado com o amigo.
— Desculpa, Lulu… eu não estava com cabeça…
Lulu ia responder, mas o olhar se desviou para a rua. Vanusa discutia com Cleitinho na calçada. Lulu ergueu a mão, pedindo silêncio, e prestou atenção. Não dava para ouvir as palavras exatas, mas as expressões diziam tudo: Vanusa apontava para o pescoço de Cleitinho, onde marcas arroxeadas ainda estavam visíveis. Os lábios se moviam rápido, acusadores. Cleitinho tentava se defender, gesticulando, mas a mulher não baixava a voz nem o dedo apontado como uma espada na cara do marido. Lulu e Juca ficaram em silêncio, assistindo ao espetáculo privado que se desenrolava do outro lado da porta de vidro.
Os dias seguintes foram uma tortura lenta. A solidão apertava o peito de Juca como uma mão invisível. Onde quer que fosse, o mundo parecia conspirar para esfregar relacionamentos na sua cara: casais se beijando de língua no ônibus, declarações de amor em filmes, pedidos de namoro no shopping, pessoas dividindo comida com intimidade. E, pior de tudo, André e Júlia na praça toda vez que ele passava. Ela sentada no colo dele, os dedos dele deslizando pela coxa dela, os dois se beijando devagar, como se tivessem todo o tempo do mundo. O peito de Juca doía tanto que quase não conseguia respirar.
Foi então que a decisão veio, fria e definitiva.
Entrou no salão correndo, a respiração irregular.
— Emílio… ainda tem o contato dele aí?
— De quem? Do que você tá falando?
— Do macumbeiro. Pai de santo. Feiticeiro, sei lá. O homem que traz o amor.
Emílio ergueu uma sobrancelha, o canto da boca se curvando em deboche.
— Tem certeza, Juca? Não foi você que disse que não queria ninguém obrigado?
— Você tem ou não tem o contato dele, Emílio?
A voz de Juca saiu mais alta, quase um estalo. Emílio suspirou, pegou o celular e digitou algo.
— Tá aí. Mas toma cuidado com o que deseja… você pode conseguir!
Lulu, que ouvia tudo de longe fazendo escova no cabelo de uma cliente, se aproximou do namorado.
— Que história é essa, Emílio? Você não andou fazendo macumba pra mim não, né?
— E eu preciso? Vai dizer que tu não é gamado no seu pretinho aqui, hem?
A cliente que estava sob a mão de Lulu soltou uma gargalhada alta ao olhar para Emílio que, apesar do apelido dados por Lulu, era branco pálido.
Juca mal prestou atenção. Abriu a mensagem, digitou o número com dedos trêmulos e enviou. A resposta veio rápida. O feiticeiro marcava a consulta presencial para aquela mesma noite.
O caminho até lá foi longo e silencioso. O bairro afastado parecia ter sido esquecido pela cidade. As ruas estreitas, sem iluminação adequada, o asfalto rachado. No fim de uma rua escura, quase sem saída, a casa apareceu. Ficava bem ao lado de uma encruzilhada de terra, onde os caminhos se cruzavam sob um poste morto. O portão de ferro enferrujado rangeu como um lamento quando Juca o empurrou. O jardim estava tomado por ervas e plantas pareciam se mexer mesmo sem vento.
A porta da casa estava entreaberta. Juca hesitou no umbral. Lá dentro, a escuridão era quase absoluta, interrompida apenas pelo brilho trêmulo de dezenas de velas espalhadas pelos móveis. O ar cheirava a cera derretida, ervas amargas e algo mais antigo, metálico, quase de sangue seco. Nas prateleiras, potes de vidro continham plantas, ossos, pedaços de animais que Juca preferiu não identificar. Estatuetas de barro e madeira observavam de todos os cantos com olhos vazios.
Um calafrio percorreu toda a espinha de Juca. O corpo inteiro tremeu. Por um segundo pensou em voltar, em correr de volta para a rua iluminada. Foi quando a voz grave ecoou da escuridão mais profunda da sala, baixa e envolvente como fumaça:
— Se não tem coragem para estar aqui… não conseguirá nada do que aqui pode lhe dar. Nem merece!
As palavras bateram no peito de Juca como um soco. Ele fechou os olhos. Lembrou do vazio. Do ciúme. Da solidão. Da mão de André no sonho. Da humilhação no banheiro. Abriu os olhos de novo. Uma brisa fria e impossível soprou de fora para dentro, fazendo as chamas das velas tremerem violentamente. As sombras dançaram nas paredes como figuras vivas.
Juca endireitou os ombros. A voz saiu firme, quase desafiadora:
— Eu consigo!
Das sombras mais densas, um homem emergiu. Capa preta longa, quase até o chão. Barba espessa e grisalha. Olhos que pareciam absorver a luz das velas em vez de refletir. Aproximou-se da mesa de madeira escura no centro da sala, sentou-se de um lado e estendeu a mão aberta, convidando.
— Sente. E conte o que veio pedir.
Juca sentou-se. A cadeira rangeu sob ele. Contou, a voz falhando algumas vezes: que não tinha ninguém, que parecia invisível aos olhos… especialmente aos olhos dos homens.
Mestre Salomão escutou em silêncio absoluto. Quando Juca terminou, o feiticeiro falou devagar, cada palavra pesada:
— Posso ajudar. Mas não sai barato. Posso lançar um feitiço para que você atraia alguém aleatório… mas é mais fácil se já tiver alguém em mente.
— Tenho.
— Ótimo. Mas você o ama? O ama de verdade?
Juca engoliu em seco.
— Sim.
— E ele? É homossexual? Está solteiro? Tem algum sentimento por você? Não é algum famoso do outro lado do mundo, né?
— Não… mas ele é hétero. Namora uma amiga minha. A gente se conhece… de longe. E…
Mestre Salomão soltou um “hummm” longo.
— Assim vai ser mais caro. Mexer na cabeça de alguém já é complicado. Agora mudar os desejos… isso complica tudo. Mas pelo preço certo…
Falou dos materiais necessários. Falou do valor. O número era absurdo.
Juca sentiu o estômago afundar.
— Tudo isso? Eu não tenho esse dinheiro.
O feiticeiro inclinou-se para frente. As velas ao redor tremeram outra vez. Os olhos dele brilharam por um instante com algo que não era luz.
— Sem dinheiro… sem amor.
Autor: Mrpr2
P.s. E você já pensou ou já fez um feitiço para trazer a pessoa amada?
