O Feitiço - 1

O Feitiço - 1

Juca saiu do trabalho com a cabeça latejando. As ligações não tinham parado o dia inteiro e agora o corpo inteiro parecia carregado de uma energia pesada. Colocou seus fones de ouvido, escolheu uma playlist de músicas sofrência / românticas e caminhou até o ponto de ônibus sob o sol ainda quente do final da tarde.
O ponto estava cheio. E o ar, cheio tesão.
À sua esquerda, um casal hétero se beijava com a desejo e intensidade de quem não queria esperar chegar em casa. A mão do homem descia pela curva da cintura da mulher, apertava a carne macia sob o vestido curto, subia de novo até a nuca e a puxava com força. Ela gemia baixinho contra a boca dele, as coxas se esfregando quase sem disfarce. Mais adiante, dois homens se beijavam de forma ainda mais explícita: um tinha a mão enfiada por baixo da camisa do outro, os dedos deslizando pela pele quente das costas, enquanto o segundo segurava a cintura dele com possessividade, os corpos colados da virilha até o peito. A cada movimento, dava para ver o volume marcado nas calças de ambos, a forma como um esfregava o quadril no do outro em um ritmo lento e deliberado.
Juca tentou desviar o olhar e focar em suas músicas, mas falhou miserávelmente.
Sentiu o sangue subir quente pelo pescoço. O desejo veio misturado com algo amargo inveja, fome, uma pontada de solidão que doía mais do que admitia. Observava as bocas se abrindo, as línguas se encontrando, os dedos apertando os corpos, e o próprio corpo respondia traidoramente. A calça ficou mais justa entre as pernas. Ele cruzou as pernas, engoliu seco e forçou a atenção para a música, mas o som só servia de trilha para as cenas que se repetiam ao seu redor. Cada carícia ousada, cada suspiro, cada quadril se movendo contra outro fazia o peito dele apertar de vontade e de inveja ao mesmo tempo.
Quando o ônibus finalmente chegou, Juca entrou quase aliviado. Mas o calor na virilha não dissipou.
Em casa, o caos o esperava.
A cozinha estava tomada. Mãe, tia, irmã, primas, primos pequenos correndo de um lado para o outro, balões, docinhos, caixas abertas. O irmão sem camisa passava carregando cadeiras. Juca mal conseguiu entrar.
— O que está acontecendo?
Perguntou, a voz ainda falha do caminho.
— É o chá revelação do bebê da Bianca, você se esqueceu?
Respondeu sua mãe, sem nem olhar para ele.
— Eu nem sabia que a Bianca estava grávida.
— Quatro meses.
Esclareceu a tia, mãe de Bianca, passando com um bolo na mão.
— Guarda essa mochila e vem ajudar a enrolar os docinhos, Juca!
Mandou Vitória, a irmã, já lhe empurrando uma caixa de forminhas., enquanto era agarrada por trás pelo namorado. Vitória repreendeu o empurrando com a bunda, mas sorriu denunciado que ela gostou.
Juca resmungou, mas obedeceu. Foi direto para o quarto, precisando de um segundo de silêncio, de um espaço onde pudesse respirar sem o barulho e sem o calor residual que ainda carregava do ponto de ônibus.
Abriu a porta. E parou. Francisco estava ali. Nu. De pé no meio do quarto, a toalha molhada pendurada num dos ombros, o corpo ainda brilhando de água. Peito largo, barriga seca com pêlos que desciam e se amontoavam em cima do membro. O pau semi-duro balançava pesado entre as coxas, a cabeça rosada já descoberta, uma veia latejando visível ao longo do comprimento. Francisco não fez o menor esforço para se cobrir. Pelo contrário: abriu os braços, a toalha caindo no chão, e se exibiu por completo, o sorriso safado já no rosto.
— Foi mal… mas o que você está fazendo no meu quarto?
A voz de Juca saiu mais baixa do que pretendia.
— Me secando. Não está vendo?
Francisco respondeu, girando o corpo de leve, deixando que a luz da janela desenhasse cada curva, cada músculo, cada centímetro daquela ereção ainda incompleta, mas já imponente.
— Cheguei e tavam nessa arrumação do chá revelação do meu moleque. Falei que ia em casa me trocar, mas não deixaram. A Bia já até comprou a roupa. — Ele apontou com o queixo para a camisa e a calça dobradas em cima da cama, bem ao lado da mochila que Juca acabara de jogar.
Juca não conseguiu desviar o olhar a tempo. Os olhos desceram sozinhos, pararam no membro de Francisco, na forma como ele pulsava levemente, ainda úmido. O calor que vinha do ponto de ônibus voltou com força, subindo pela barriga, apertando a garganta. Ficou vermelho até as orelhas.
Francisco notou. Claro que notou.
Aproximou-se um passo. Segurou o próprio pau com a mão direita, ergueu-o um pouco, balançou de um lado para o outro com um sorriso safado nos lábios.
— Olha só… você tem cara de que cresceu mas curte esse tipo de mamadeira do papai aqui.
Brincou Francisco com a voz grossa, os olhos escuros fixos no rosto de Juca.
Juca sentiu o estômago revirar de vergonha e de outra coisa bem pior. O sangue latejava nas têmporas. Sem pensar, deu um passo à frente, empurrou o peito nu de Francisco com as duas mãos, sentindo a pele quente e ainda úmida sob as palmas.
— Você é um porco, Francisco. Casado com a minha prima e fica se exibindo assim no meu quarto!
Rosnou, a voz embargada de raiva e de desejo que não queria admitir.
O empurrão não foi fraco. Francisco caiu sentado na cama, as pernas abertas, o pau agora quase completamente duro batendo contra a barriga. Em vez de se ofender, ele riu baixo, o olhar escuro e provocador ainda preso em Juca.
— Vai embora então, priminho… — murmurou, sem fazer o menor movimento para se cobrir. — Mas se mudar de ideia… a porta não tranca.
Juca saiu do quarto como se estivesse em chamas. O coração batia tão forte que doía. A calça estava apertada de novo, o corpo inteiro latejando. Passou pela sala sem responder a ninguém, ignorou os chamados da mãe e da irmã, e bateu a porta da frente com força.
Na rua, o ar fresco da noite não aliviou nada.
Caminhou rápido, a mente ainda presa na imagem de Francisco nu, no peso daquele pau na mão, no sorriso safado, no cheiro de sabonete e pele quente que tinha ficado grudado nele. Cada passo fazia o tecido da calça roçar de um jeito quase doloroso.
Foi direto para o salão do Lulu.
Precisava de alguém que o entendesse.
Ou de alguém que o distraísse.
O salão do Lulu era um pedaço de caos colorido espremido entre uma farmácia e uma loja de roupas usadas. O letreiro rosa-choque piscava “Lulu Hair & Drama” com uma letra “L” meio torta. Dentro, o cheiro de shampoo de morango misturava-se com spray de fixação e o perfume doce que o cabeleireiro sempre usava. Espelhos enormes refletiam luzes quentes, revistas de fofoca espalhadas no sofá de veludo vinho e uma Tiara (a gata siamesa do salão) dormia enrolada em cima da caixa de areia como se fosse rainha.
Juca empurrou a porta de vidro com o ombro, ainda com o corpo latejando da cena com Francisco. O cabelo ruivo liso caía bagunçado sobre a testa, as sardas mais evidentes por causa do calor que ainda subia pelo pescoço. Usava a mesma camisa social azul-clara do trabalho, agora amarrotada, e a calça preta que teimava em marcar demais o que ele tentava esconder. Entrou quase de mansinho, a voz baixa como sempre.
Lulu estava de costas, finalizando o penteado de uma cliente. Mechas roxas e azul-elétrico brilhavam sob a luz, o corpo lontra slim balançando no ritmo de uma música pop alta. Usava uma regata cropped branca que deixava a barriga à mostra e uma calça jeans rasgada que parecia ter sido atacada por tesoura de cabeleireiro. Quando viu o reflexo de Juca no espelho, soltou o pente no ar e virou-se todo teatral.
— Juca, o que aconteceu, minha flor? Que cara é essa? Tá com cara de quem viu o fantasma da tia Vilma sem sutiã!
Juca passou a mão no cabelo, as sardas se destacando no rosto vermelho.
— Nada, Lulu… posso usar o banheiro?
— Óbvio né, gata. Ainda não chegou no ponto de usar a caixinha de areia da Tiara não, kkkk!
Lulu gargalhou alto, a voz cantada e afeminada ecoando no salão. A cliente riu também.
— Vai lá, meu bem. Só não deixa a porta aberta que a Tiara é fofoqueira.
Juca sumiu no corredor estreito. Quando voltou, o rosto ainda estava quente. Sentou-se no sofá de veludo com um suspiro longo, as pernas cruzadas de forma discreta, tentando disfarçar o resto de tensão que o corpo teimava em carregar.
Lulu terminou o penteado, cobrou a cliente com um “arrasa, mona!” e se aproximou, mãos na cintura.
— Conta logo, bicha. Desde cedo tem um movimento danado na sua casa. Eu vi a Vitória passando com um monte de balão. Que porra tá acontecendo?
Juca falou baixo, quase sem erguer os olhos:
— É o chá revelação do filho da Bianca. Quatro meses. Eu nem sabia.
Antes que Lulu pudesse responder, a porta do salão bateu com força. Emílio entrou como quem dono do pedaço: alto, camiseta preta justa marcando o peito, calça jeans baixa na cintura. Sem nem cumprimentar, foi direto em Lulu, agarrou-o por trás pela cintura e cravou a boca no pescoço do cabeleireiro, sugando a pele com um beijo molhado e barulhento.
— Cheguei, porra!
Rosnou baixo contra a orelha de Lulu.
Lulu soltou um gritinho agudo e delicioso, o corpo inteiro se derretendo para trás contra o peito do ficante. As mãos de Emílio apertaram a barriga exposta, os dedos escorregando por baixo da regata cropped.
— Ai, Bê! Você me mata de susto um dia desses!
Lulu riu, eufórico, virando o rosto para receber um beijo de verdade. As línguas se encontraram e se engalfinhando demais para um salão aberto. Quando se separaram, Lulu estava com os olhos brilhando e a boca vermelha.
Juca bufou baixo e se jogou ainda mais fundo no sofá, os braços cruzados, o olhar perdido na parede.
Lulu arqueou a sobrancelha, ainda com Emílio colado nas costas.
— O que foi, Juca? Hoje você não tá bem, minha flor. Tá com essa cara de quem mamou limão.
Emílio riu, a voz grossa, os braços ainda em volta da cintura de Lulu:
— Verdade. Juca tá com cara de quem comeu e não gostou… ou melhor, de quem não foi comido e não gostou, kkkk!
Lulu bateu no braço do ficante, tentando controlar o riso, mas os ombros tremiam.
— Cala a boca, Emílio!
Depois olhou de novo para o amigo.
— Fala sério, o que foi?
Juca passou a mão no cabelo ruivo, as sardas do pescoço ainda coradas. A voz saiu baixa, quase um murmúrio:
— Pior que é bem isso mesmo, Emílio… Poxa, eu nem sou tão feio assim. Como que eu não arrumo um namorado?
Lulu soltou Emílio só o suficiente para se aproximar do sofá, mãos na cintura, o jeito espalhafatoso voltando com força total.
— Eu não acho você feio, migo! Olha pra você: jovem, pele clara, esse cabelo liso ruivo que qualquer um morre de inveja, sardas pelo rostinho e pelo corpo… 1,71 m de twink sonhador. Sensível, gente boa, empático… Não é possível que ninguém te queira, meu bem! Você trabalha num call center, um antro de viado! Você vai trabalhar vendado, é?!
Juca deu um sorrisinho torto, encolhendo os ombros.
— A maioria é passivo, amigo. Os poucos ativos são disputadíssimos. Além disso se acham pra caralho.
— Até imagino.
Lulu fez uma cara dramática, passando a mão no ar como se descrevesse um desfile.
— Aqueles bombados cheios de passiva babando quando eles passam. Devem ser um ó!
— Bem isso. Fora eles, tem uns casados que só querem… você sabe o quê. E os velhos… nada contra, afinal todo mundo um dia envelhece, mas se ainda fossem aqueles daddys dos filmes… são aquelas uvas-passas.
Lulu gritou, batendo a mão na própria coxa:
— Aí, amigaaaaaa! Você é podre!
Depois virou para Emílio, ainda colado nele.
— Amor, não tem nenhum amigo ativo, menos de cinquenta, mais de dezoito, solteiro, pro nosso amigo aqui não?
Emílio pensou dois segundos, a mão ainda escorregando distraída pela barriga de Lulu, e depois deu de ombros, um sorriso safado no rosto:
— Além de mim… não.
Lulu beliscou a lateral do braço dele com força.
— Ai, seu desgraçado!
Emílio soltou uma gargalhada grossa e, sem nenhum pudor, passou a mão por cima da própria calça, afofando o volume marcado entre as pernas enquanto olhava de canto para Juca.
— Tô brincando, porra… ou não.
Juca sentiu o rosto esquentar de novo. O sofá de veludo de repente parecia quente demais. Lulu revirou os olhos, mas o sorriso debochado não saía do rosto.
— Você vê, Juca? Até o meu ficante de plantão tá te oferecendo. O mundo é cruel com os passivos sonhadores, minha flor.
— Bom, um ativo eu não conheço, mas conheço alguém que por um aqué pode destravar seus caminhos amorosos se você se interessar…

Ps. E você? Como está sua vida amorosa? Está fácil encontrar um amor? Tem mais passivo ou ativo aí onde você mora?

Autor: Mrpr2

Foto 1 do Conto erotico: O Feitiço - 1


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Ficha do conto

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Nome do conto:
O Feitiço - 1

Codigo do conto:
274754

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
15/10/2026

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