Antes da sua mão me encontrar,
antes do seu olhar me aquecer,
antes de qualquer palavra
dita no escuro —
eu já estava aqui,
pulsando no meu próprio ritmo,
guardando o meu próprio calor.
Não preciso de você pra existir.
Mas quando você chega
eu me lembro
do que é ser completamente viva.
Eu sei quando você quer.
Sinto antes de você tocar —
uma antecipação que molha
antes do contato,
um preparo que o corpo faz
sozinho, sem consultar a cabeça.
Sou honesta assim.
Não finjo.
Não consigo.
Quando gosto, fico quente e aberta.
Quando não gosto, fecho.
Simples.
O resto do corpo às vezes mente —
eu nunca.
Me toca devagar
e eu me abro como flor que não tem pressa.
Me toca com pressa
e eu respondo com urgência igual.
Me toca com cuidado
e eu me lembro
de que existe ternura no mundo.
Quando você entra em mim
não é invasão —
é chegada.
Como quem volta pra um lugar
que reconhece pelo cheiro,
pela temperatura,
pelo jeito que o silêncio soa diferente ali.
Aperto porque quero você perto.
Aperto porque não quero que acabe.
Aperto porque o corpo tem memória
e a minha
guarda tudo.
Quando o prazer vem
não peço licença —
vem em ondas,
vem em tremores,
vem do centro pra fora
como pedra jogada em água parada
que faz círculos
até a margem.
E depois,
quando tudo passa
e você está quieto do meu lado
e o mundo voltou ao normal —
eu ainda pulso.
Devagar.
Lembrando.
Guardando.
Porque é isso que eu faço.
Eu guardo tudo
que passou por mim.