Eu estava em pé no corredor, segurando a barra com uma mão, a bolsa na outra, tentando não perder o equilíbrio a cada freada. Vestido de malha, justo, na altura do joelho. Tinha vestido sem pensar naquela manhã. Agora estava arrependendo — não pelo calor, mas porque eu sabia exatamente o que aquele tecido fino revelava quando colado ao corpo.
Numa freada mais brusca, a massa de gente se jogou pra frente e eu recuei um passo involuntário.
Foi quando senti.
Ele estava logo atrás de mim. Não sei desde quando — só sei que de repente havia um corpo muito próximo do meu, quente, firme, e alguma coisa que não era a calça dele pressionando levemente contra minha bunda.
Meu coração disparou.
Fiquei parada. Não me movi pra frente, não recuei. Fiquei exatamente onde estava, a respiração um pouco mais curta, tentando processar o que estava acontecendo.
O ônibus balançou numa lombada.
A pressão aumentou.
Fechei os olhos por um segundo. Aquilo era deliberado — eu sabia. Não era o movimento do ônibus, não era acidente. Era ele, firme e quente contra mim, esperando pra ver o que eu ia fazer.
O que eu fiz foi recuar meio centímetro.
Só meio centímetro. O suficiente pra deixar claro.
Ouvi uma respiração levemente diferente atrás de mim. Ele havia entendido.
A mão veio devagar — tão devagar que por um momento achei que estava imaginando. Encontrou meu quadril por baixo da bolsa, os dedos se fechando com uma firmeza que me fez morder o lábio. Não era uma mão hesitante. Era uma mão que sabia o que estava fazendo.
— Desculpa o aperto — ele disse baixinho, perto do meu ouvido. Voz grave, quente. A frase mais banal do mundo dita do jeito mais carregado possível.
— Tá tudo bem — eu respondi. E a minha voz saiu mais rouca do que eu queria.
O ônibus continuou. As pessoas ao redor olhavam pra frente, pro celular, pra janela — cada um no seu mundo. Ninguém olhava pra nós.
A mão no meu quadril se moveu devagar, deslizando pelo vestido, descendo pela lateral da coxa. Eu estava com o coração na garganta. Senti os dedos encontrarem a barra do vestido, hesitarem um segundo — perguntando, sem palavras.
Mudei o peso de um pé pro outro. Abrindo levemente.
Ele entendeu.
A mão entrou por baixo do vestido.
Prendi a respiração. Os dedos subiram pela parte interna da coxa, devagar, sem pressa, como se tivéssemos a tarde toda. O ônibus balançou e eu usei o movimento pra me apoiar mais na barra, a cabeça levemente abaixada, tentando manter a expressão neutra enquanto aqueles dedos subiam, subiam, subiam —
E encontraram o tecido fino da calcinha.
Estava encharcada. Completamente encharcada. E ele percebeu na hora — senti a respiração dele mudar atrás de mim, mais funda, mais pesada.
— Nossa — ele murmurou, quase sem som, no meu ouvido.
Fechei os olhos.
Os dedos pressionaram por cima do tecido primeiro — circulando devagar, sentindo a forma, a umidade, o calor. Eu mordi o interior da bochecha pra não fazer barulho. Uma senhora de meia idade estava a menos de um metro de mim lendo uma revista. Um rapaz com fone de ouvido olhava pro celular. O motorista freou num sinal.
A calcinha foi empurrada de lado.
O contato direto me fez dar um pequeno soluço que disfarçou fingindo tossir. Ele passou o polegar devagar pelo comprimento inteiro — uma vez, duas vezes — e eu estava com os joelhos literalmente bambos, me segurando na barra com as duas mãos agora.
— Fica quieta — ele disse no meu ouvido, com aquela voz baixa. Não era uma ameaça. Era cuidado. Era ele me dizendo que ia cuidar de mim se eu deixasse.
Deixei.
Os dedos trabalharam com uma paciência absurda — circulando, pressionando, encontrando o ritmo que me fazia perder o controle aos poucos. Eu estava com o rosto quente, a respiração curta, os olhos fixos num ponto qualquer da janela sem enxergar nada.
Numa curva mais fechada, o ônibus jogou todo mundo levemente pro lado e ele aproveitou o movimento pra se aproximar ainda mais — o corpo quase completamente encostado no meu agora, a boca rente ao meu ouvido.
— Tá gostando? — ele perguntou.
— Sim — eu disse. Saiu automático, sem pensar.
Senti ele sorrir contra minha orelha.
Os dedos aceleraram.
Eu apertei a barra com força, os nós dos dedos brancos, tentando com toda minha concentração não fazer nenhum som enquanto a pressão aumentava, aumentava, aumentava — o polegar no lugar certo, os outros dedos se movendo com uma precisão que me deixava sem ar.
A senhora com a revista desceu no ponto seguinte. O rapaz com fone se afastou pro fundo do ônibus.
E eu cheguei — silenciosamente, tremendo levemente, os dentes no lábio inferior, os olhos fechados, a cabeça jogada discretamente pra trás contra o ombro dele enquanto a onda passava por mim em ondas longas e quentes.
Ele não se afastou. Ficou exatamente onde estava, os dedos mais lentos agora, me deixando descer devagar.
Quando abri os olhos, o ônibus estava chegando no meu ponto.
Endireitei o vestido com um movimento discreto. Peguei a bolsa. Respirei fundo uma vez.
Antes de me mover, virei levemente a cabeça — não o suficiente pra vê-lo de frente, só o suficiente pra ele ouvir.
— Obrigada — eu disse, baixinho.
Uma pausa.
— Eu que agradeço — ele respondeu.
Desci na próxima parada com as pernas ainda levemente bambas e o coração ainda acelerado, sem nunca ter visto o rosto dele.
Não precisei.
Algumas coisas são melhores assim.
FIM
P. S.: Moro em Natal - RN. A Linha 301 faz o percurso Parque das Dunas/Shopping