Foi por isso que quase não a vi.
Ela estava no canto direito, de costas levemente apoiada na parede espelhada, o celular na mão, os olhos nele. Vestido preto, decote discreto, cabelo preso de um jeito que deixava o pescoço à mostra. Talvez trinta anos. Talvez menos. Difícil dizer — havia algo nela que tornava a idade irrelevante.
Apertei o oito. Ela tinha apertado o seis.
As portas fecharam.
Fiquei do lado oposto, olhando pra frente, como se faz em elevadores — aquele acordo tácito de fingir que a outra pessoa não existe no metro quadrado que vocês dividem. Mas o espelho estava ali, traiçoeiro, refletindo tudo. E no espelho eu podia vê-la sem parecer que estava olhando.
Ela guardou o celular.
E no mesmo instante — não sei se foi acidente, não sei se foi intenção — ergueu os olhos pro espelho.
Nos encontramos ali, no reflexo. Por um segundo. Dois.
Ela não desviou.
Eu também não.
O elevador parou no terceiro andar. As portas abriram. Ninguém entrou. Fecharam de novo.
Quando olhei pro espelho outra vez, ela estava me observando com uma expressão que eu não conseguia classificar — não era interesse exatamente, não era convite exatamente. Era avaliação. Fria, direta, completamente consciente.
— Você estava me olhando — ela disse. Não era uma acusação. Era uma constatação.
— Estava — eu respondi.
Uma pausa.
— Tudo bem — ela disse.
O elevador desacelerou. Quinto andar. Ela se afastou levemente da parede, como quem vai se preparar pra sair — e então parou. Ficou parada no meio do elevador, de costas pra mim, olhando pras portas fechadas.
O elevador subiu mais um andar.
Sexto andar. As portas abriram.
Ela não saiu.
As portas fecharam.
Eu não disse nada. Ela não disse nada. O elevador começou a subir pro sete — e foi quando ela virou, atravessou o pequeno espaço entre nós em dois passos e me beijou.
Não foi um beijo de apresentação. Foi um beijo que pulou todas as etapas — fundo, com as mãos no meu rosto, o corpo inteiro se encostando no meu contra a parede do fundo. Eu levei meio segundo pra reagir — meio segundo de puro espanto — e depois minha mão foi pra cintura dela, a outra pra nuca, e eu correspondi com a mesma intensidade com que ela havia começado.
O elevador parou no oito.
Minhas portas.
Nenhum dos dois se mexeu.
As portas fecharam.
Ela se afastou levemente, os olhos nos meus, a respiração um pouco mais acelerada. Havia um sorriso no canto da boca — pequeno, satisfeito, como quem acabou de confirmar uma teoria.
— Escada de emergência — ela disse. — Porta ao lado.
Saímos no nono andar porque foi o próximo que parou. O corredor estava vazio. A porta da escada tinha uma barra horizontal de metal — ela empurrou antes de mim, eu segurei pra ela passar, e então a porta fechou atrás de nós com um estalo seco que ecoou pelo poço de concreto.
A escada de emergência tinha aquela luz fria de tubo fluorescente, o cheiro de ar parado e tinta, o silêncio pesado de lugar onde ninguém vai. Descemos meio lance — o suficiente pra ficar entre andares, invisíveis de cima e de baixo.
Ela me puxou pelo colarinho.
Eu a pressionei contra a parede de concreto com mais força do que planejei — ela recebeu o impacto sem reclamar, com um pequeno som no fundo da garganta que me acendeu completamente. As mãos dela foram direto pra minha camisa, abrindo botões com uma eficiência que me disse que ela havia tomado aquela decisão bem antes do nono andar.
Minhas mãos subiram pelo vestido.
Ela estava quente. Estava molhada através do tecido fino da calcinha, e quando passei os dedos por cima ela arqueou levemente os quadris na minha direção — um gesto pequeno, involuntário, que disse tudo.
Afastei o tecido de lado.
— Deus — ela murmurou, a cabeça jogada pra trás no concreto, os olhos fechados.
Trabalhei devagar primeiro — circulando, pressionando, aprendendo o ritmo dela através das pequenas reações que ela não conseguia esconder. A respiração que mudava. O lábio que mordia. Os dedos que se fechavam na minha camisa aberta.
Lá em cima, em algum andar distante, o elevador abriu e fechou. Passos no corredor. Uma voz. Depois silêncio de novo.
Nenhum dos dois parou.
Quando ela estava no limite — eu sabia, conseguia sentir na tensão do corpo dela, na respiração que havia ficado curta e entrecortada — ela abriu os olhos e me olhou. Havia algo diferente ali agora. A avaliação havia ido embora. O que ficou foi mais simples e mais honesto.
— Agora — ela disse.
A calcinha foi pro bolso da minha calça. Ela enrolou uma perna na minha cintura, eu a levantei levemente contra a parede, e quando entrei nela os dois ficamos imóveis por um segundo — só respirando, só existindo naquele instante específico no meio de uma escada de emergência entre o oito e o nove de um prédio que nenhum dos dois morava.
Então ela se moveu.
E eu me movi com ela.
O ritmo foi crescendo naturalmente — urgente, silencioso, pontuado só pela respiração dos dois e pelo atrito suave das costas dela contra o concreto. Ela tinha os dedos no meu cabelo, a boca no meu pescoço, e em algum momento disse uma coisa ininteligível, quente contra minha pele, que funcionou melhor do que qualquer nome.
Quando ela chegou foi com o rosto enterrado no meu ombro, os dedos cravados nas minhas costas, o corpo inteiro contraindo em ondas. Eu fui logo depois — fundo, com os dois antebraços apoiados na parede acima dela, a testa encostada na dela, os olhos fechados.
Ficamos assim por um tempo que não soube medir.
Depois, devagar, voltamos ao mundo.
Ela desceu os pés no chão, ajeitou o vestido com aquela calma que algumas mulheres têm e que sempre me pareceu sobrenatural. Eu fechei os botões da camisa — dois estavam tortos, deixei assim. Ela tirou o cabelo do preso, sacudiu, tornou a prender de um jeito levemente diferente.
Olhamos um pro outro.
— Qual é o seu andar? — ela perguntou.
— Oito — eu disse.
— Eu desço no seis — ela respondeu.
Uma pausa.
— Então — ela disse, com aquele sorriso do canto da boca outra vez — melhor pegar o elevador.
Subimos a meia lance de escada em silêncio, ela na minha frente. Empurrei a barra da porta, o corredor apareceu lá fora com sua luz morna e sua moquete cinza.
Esperamos o elevador lado a lado. As portas abriram.
Entramos.
Ela apertou o seis. Eu apertei o oito.
Ficamos de frente pro espelho, lado a lado, como dois estranhos que dividem um elevador.
No reflexo, ela encontrou meus olhos.
E sorriu.
FIM