A CASA ABANDONADA

Eu havia encontrado o lugar três semanas antes — numa estrada secundária, entre dois matagais, uma casa de abandonada com janelas vazias e porta que abria com um empurrão. Mostrei pra ela numa tarde de domingo, sem contexto, sem explicação.

Ela olhou pra mim com aqueles olhos que conhecem tudo.

— Quando? — ela perguntou.

— Sábado — eu disse.

Ela não perguntou mais nada.

Chegamos de tarde, com a luz ainda boa mas o sol já baixo. Ela vestia um vestido simples, o cabelo solto, os pés num tênis velho — tinha entendido, sem que eu dissesse, que não era ocasião pra salto. Eu carregava uma mochila. Ela não perguntou o que havia dentro.

A casa cheirava a madeira velha e terra úmida. O assoalho rangia. As paredes tinham manchas de umidade que formavam mapas de lugares que não existiam. No quarto do fundo havia um colchão que eu havia levado na semana anterior, coberto com lençóis limpos — o único sinal de que alguém havia planejado aquilo.

Ela entrou no quarto e ficou parada no meio, de costas pra mim, olhando pro colchão.

Fechei a porta.

— Tira o vestido — eu disse.

Não foi um pedido.

Ela tirou — devagar, puxando pelo ombro, deixando cair no chão de tábuas. Embaixo havia apenas a calcinha. Ficou assim, de costas, esperando.

Me aproximei devagar. Passei as costas dos dedos pelo comprimento da espinha dela — do pescoço até a cintura — e senti o arrepio que percorreu a pele dela de cima a baixo.

— Mãos atrás — eu disse.

Ela juntou os pulsos atrás das costas.

Da mochila tirei a corda — fina, macia, de algodão trançado. Enrolei com cuidado ao redor dos pulsos dela, uma volta, duas, o nó firme mas sem apertar demais. Ela não disse nada. Ficou completamente imóvel enquanto eu trabalhava, a respiração levemente diferente — mais funda, mais controlada, como quem está se preparando pra algo.

Quando terminei, passei a mão pela nuca dela e peguei o cabelo todo num punho.

Puxei devagar — o suficiente pra inclinar a cabeça dela pra trás, pra ela me ver de canto de olho.

— O que você é hoje? — eu perguntei, baixinho, perto do ouvido dela.

— Sua — ela respondeu. Sem hesitação.

— Isso — eu disse.

A venda foi o segundo item da mochila — um tecido escuro, macio. Amarrei atrás da cabeça dela com cuidado. Ela ficou cega, os pulsos presos, completamente dependente de mim em cada detalhe daquele espaço.

E então eu parei.

Fiquei em silêncio. Sem tocar.

Trinta segundos. Um minuto.

Ela começou a respirar diferente — mais agitada, a cabeça levemente girando tentando sentir onde eu estava, os ombros tensos.

— Fica quieta — eu disse, de um lado diferente de onde estava antes.

Ela parou imediatamente.

Me aproximei por trás, devagar, sem fazer barulho. Passei os lábios pelo pescoço dela sem tocar de verdade — só o calor, só a proximidade. Senti a pele dela arrepiar de novo.

— Por favor — ela sussurrou.

— Por favor o quê?

— Me toca.

— Não — eu disse. — Ainda não.

O controle não era sobre o corpo dela. Era sobre o tempo. Sobre a espera. Sobre fazer ela querer tanto que quando eu tocasse de verdade seria como afogamento e ar ao mesmo tempo.

Fiquei assim por mais alguns minutos — perto o suficiente pra ela me sentir, longe o suficiente pra não tocar. Palavras baixas no ouvido dela. O que eu ia fazer. Como ia fazer. Ela estava com os joelhos levemente dobrados, a respiração completamente entregue, quando finalmente passei a mão pelo quadril dela.

Estava encharcada através da calcinha.

— Olha isso — eu murmurei. — Tudo isso só de esperar.

Ela não respondeu. Estava além das palavras.

A joelhei no colchão com as mãos ainda presas atrás. Tirei a venda — queria que ela visse. Fiquei de pé atrás dela, e no silêncio da casa abandonada o único som era a respiração dos dois e o vento lá fora nas tábuas soltas.

Abaixei a calcinha devagar.

Passei a mão aberta pela bunda dela — uma carícia longa, lenta — e então, sem aviso, a palmada.

Ela soltou um som curto, surpreso.

— Conta — eu disse.

— Um — ela disse, a voz rouca.

A segunda veio do outro lado. Mais forte.

— Dois.

Continuei — alternando lados, alternando força, nunca no mesmo ritmo pra ela não conseguir antecipar. A pele dela ficou quente sob a minha mão. Ela contava cada uma com a voz que foi ficando progressivamente mais desmontada — mais baixa, mais entregue, mais longe de qualquer compostura.

Na décima, parei.

Passei os dedos devagar pelo lugar onde havia palmado — a pele quente, ela se contraindo levemente ao toque.

— Mais — ela disse. Não era um pedido educado. Era uma necessidade.

— Eu sei — eu disse. — Mas agora não.

Ela gemeu de frustração e eu sorri.

A deitei de bruços no colchão, os pulsos ainda presos. Me posicionei sobre ela — o peso do meu corpo controlado, os joelhos de cada lado dos quadris dela — e passei a boca pelo pescoço, pelo ombro, pela linha da espinha. Ela se movia debaixo de mim com aquele desespero silencioso de quem está completamente no limite.

Coloquei a boca perto do ouvido dela.

— O que você quer? — perguntei.

— Você — ela disse.

— Mais específico.

Uma pausa. Ela estava com o rosto enterrado no lençol, as bochechas vermelhas.

— Quero você dentro de mim — ela disse. — Por favor.

— Por favor o quê?

Outra pausa. Mais longa.

— Por favor, senhor — ela disse, baixíssimo.

Aquela palavra no contexto daquele quarto naquela casa vazia me acendeu de um jeito que não consigo descrever adequadamente. Me levantei, tirei a roupa sem pressa, e quando voltei pra ela virei pelo ombro de bruços pra de costas — queria ver o rosto dela.

Os olhos dela estavam escuros, dilatados, completamente rendidos.

Entrei nela devagar — até a base, num movimento longo e contínuo que fez os dois prenderem a respiração.

— Me olha — eu disse.

Ela me olhou.

E então eu comecei.

O ritmo foi duro desde o início — ela havia esperado demais pra gentilezas. Cada movimento dela tentando me encontrar, os pulsos presos atrás ainda, completamente à mercê do ritmo que eu ditava. Segurei o queixo dela com uma mão quando ela tentou fechar os olhos.

— Olha pra mim — eu disse. — Sempre.

Ela obedeceu.

Havia algo naquele contato — os olhos dela nos meus enquanto eu a possuía completamente, enquanto ela não podia se mover, não podia mudar o ritmo, não podia fazer nada além de receber e sentir — que era mais íntimo do que qualquer coisa que já havia acontecido entre nós fora daquele contexto.

Dominação não é ausência de cuidado.

É cuidado em sua forma mais absoluta.

Quando ela chegou foi intensa e longa — o corpo inteiro sacudindo, os olhos finalmente fechados porque eu deixei, o nome dela no meu lábio enquanto eu a segurava firme contra mim e deixava a onda passar por completo.

Vim logo depois, fundo, com a testa encostada na dela.

Desatei a corda com cuidado. Passei as mãos pelos pulsos dela, massageando devagar, verificando. Ela ficou imóvel, os olhos fechados, a respiração descendo lentamente de volta ao normal.

Depois de um tempo ela abriu os olhos e me olhou.

Havia algo diferente ali — não a rendição de antes, não a avaliação de sempre. Era gratidão. Simples, direta, sem necessidade de palavras.

Mas ela falou assim mesmo.

— Obrigada — ela disse, baixinho.

Me deitei do lado dela no colchão, o teto da casa abandonada acima de nós com suas manchas e suas rachaduras.

— Obrigado você — eu disse.

Ficamos em silêncio por um longo tempo. Lá fora o sol havia descido e o quarto estava na meia luz dourada do fim de tarde. Pássaros em alguma árvore próxima. O vento nas tábuas.

— A gente volta? — ela perguntou, depois de um tempo.

Olhei pro teto.

— Sábado que vem — eu disse.

Ela não respondeu.

Mas sorriu.

FIM


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Ficha do conto

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Nome do conto:
A CASA ABANDONADA

Codigo do conto:
263103

Categoria:
Fetiches

Data da Publicação:
28/05/2026

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