DONA AMÉLIA, A SANTA


Dona Amélia era conhecida em todo o bairro pela sua retidão.

Quarenta e dois anos, missa das sete toda manhã, terço às sextas, cabelo sempre preso num coque severo que não admitia um fio fora do lugar. Casada há dezoito anos com o dr. Heitor — homem bom, homem correto, homem completamente previsível — ela havia construído ao redor de si uma santidade tão sólida que as vizinhas a consultavam sobre questões morais como se ela fosse um oráculo.

— Dona Amélia, a senhora acha certo uma moça sair desacompanhada à noite?

— Dona Amélia, o que a senhora pensa de casal que não tem filhos?

— Dona Amélia, a senhora que é uma mulher de bem, diga.

E dona Amélia dizia. Sempre a coisa certa. Sempre com aquela voz mansa e aquele olhar sereno de quem nunca teve um pensamento impuro na vida.

Mentira.

Tudo começou com o encanador.

Não era bonito — era melhor do que bonito. Era novo, talvez vinte e cinco anos, com as mãos grossas de quem trabalha e os braços que a camiseta não conseguia esconder direito. Veio consertar um cano na cozinha numa terça-feira de manhã, quando o dr. Heitor estava no consultório e as filhas na escola.

Dona Amélia o recebeu na porta com toda a compostura de sempre. Mostrou o problema, ofereceu café, foi sentar na sala com sua costura como fazia sempre que havia visita de serviço — distância respeitosa, postura impecável, olhos no bordado.

Mas ouvia.

Ouvia o barulho dele se movendo pela cozinha, o rangido do assoalho sob o peso dele, a respiração esforçada quando movia a pia. E havia algo naqueles sons — tão físicos, tão masculinos, tão diferentes do silêncio asséptico que o dr. Heitor deixava nos cômodos — que fez alguma coisa se mexer dentro de dona Amélia num lugar que ela havia aprendido a ignorar há muitos anos.

Ela virou o bordado do avesso.

Levantou.

Disse a si mesma que ia ver se ele precisava de alguma coisa.

Ele estava agachado debaixo da pia quando ela entrou. Levantou os olhos — sem cerimônia, sem malícia, só os olhos escuros de quem não sabe que está causando problema algum.

— Tá quase, dona. Mais uns minutinhos.

— Tudo bem — disse ela. A voz saiu normal. Ela mesma se surpreendeu.

Ficou parada perto da porta, os braços cruzados sobre o peito como escudo, observando as mãos dele trabalharem. Mãos que sabiam o que faziam. Mãos sem a hesitação do dr. Heitor, que tocava tudo na vida — inclusive ela — com uma delicadeza que às vezes parecia medo.

Dona Amélia teve um pensamento.

Foi tão rápido e tão nítido e tão completamente inaceitável que ela ficou vermelha sozinha na sua cozinha como se alguém tivesse lido.

Voltou pra sala.

Ficou com o bordado na mão por uma hora sem dar um ponto.

Ele voltou na semana seguinte. Problema no mesmo cano — disse que havia precisado de uma peça, que trazia agora, que em meia hora estava resolvido.

Dona Amélia abriu a porta e sentiu o coração na garganta.

Rezou um terço inteiro enquanto ele trabalhava.

Não adiantou.

Quando ele foi embora ela ficou na cozinha por um longo tempo, de pé, as mãos sobre a pia fria, olhando pela janela o quintal com o varal e as roupas do dr. Heitor balançando no vento.

E chorou.

Não de arrependimento — ainda não havia nada de que se arrepender. Chorou de raiva. De si mesma, do seu próprio corpo que havia decidido, aos quarenta e dois anos, depois de dezoito de casamento e milhares de missas, lembrar que existia.

Ele voltou uma terceira vez.

Ela soube, quando atendeu a porta, que dessa vez seria diferente. Soube pelo jeito que o deixou entrar. Pelo jeito que não foi pra sala. Pelo jeito que ficou na cozinha, de costas pra ele, fingindo arrumar alguma coisa na bancada, os ombros tensos, esperando.

Ele trabalhou em silêncio por um tempo.

Depois parou.

Dona Amélia sentiu a presença dele antes de ouvir os passos — uma mudança no ar da cozinha, uma proximidade que a pele registra antes dos olhos. Ele ficou atrás dela, perto demais pra ser acidente, longe demais pra ser certeza.

— Dona Amélia — ele disse, baixinho.

Ela não se virou.

— Pode ir embora — ela disse. A voz não tremeu. Foi isso que a perdeu — se a voz tivesse tremido ela teria acreditado em si mesma. Mas saiu firme, e ela soube que era mentira, e ele soube também.

Ele não foi.

A mão dele encontrou o coque severo — aquele coque que ela prendia toda manhã como armadura — e o desfez com dois movimentos. O cabelo caiu pelos ombros dela como uma confissão.

Dona Amélia fechou os olhos.

— Isso é pecado — ela disse.

— Eu sei — ele respondeu.

E foi exatamente isso que a fez se virar.

O que aconteceu na cozinha de dona Amélia naquela terça-feira de manhã foi tudo que dezoito anos de casamento correto nunca havia sido. Foi sem delicadeza e sem medo e sem aquela polidez triste que o dr. Heitor chamava de amor. Foi contra a pia fria, com o varal lá fora ainda balançando as roupas do marido no vento, com o terço dela em cima da geladeira a três metros de distância.

Ela não rezou.

Ela gritou — baixinho, com a boca fechada, os dentes cerrados, tentando conter aquilo que o corpo havia guardado por anos e agora transbordava sem pedir licença.

Ele não foi gentil.

Ela não queria gentileza.

Queria exatamente aquilo — ser tratada como mulher e não como santa, ser tocada com urgência e não com reverência, sentir que havia um corpo por baixo de todos aqueles anos de compostura e missa e coque severo.

Havia.

Deus, havia.

Quando terminou ela arrumou o cabelo com os dedos, prendeu o coque, endireitou a blusa.

Ele pegou a caixa de ferramentas sem dizer nada.

Na porta, parou.

— Semana que vem — ele disse.

Dona Amélia olhou pra ele com aqueles olhos serenos de quem nunca teve um pensamento impuro na vida.

— O cano está consertado — ela disse.

Uma pausa.

— Tá — ele disse. E foi embora.

Dona Amélia fechou a porta, foi até a cozinha, ficou olhando a pia consertada por um longo tempo.

Depois pegou o terço de cima da geladeira.

Sentou à mesa.

E rezou — não pedindo perdão, porque pra pedir perdão é preciso ter certeza de que não vai fazer de novo.

E dona Amélia não tinha certeza nenhuma.

FIM


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Ficha do conto

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Nome do conto:
DONA AMÉLIA, A SANTA

Codigo do conto:
263129

Categoria:
Fantasias

Data da Publicação:
28/05/2026

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