A DUALIDADE REPRESSIVA DA IRMÃ REBECA

A repressão não era o oposto do desejo de Rebeca. Era o combustível.
Desde menina, aprendera que o corpo era território inimigo. A mãe falava baixo, quase com medo: “Mulher de Deus não sente isso.” O pastor repetia do púlpito que a carne era fraca e que a salvação dependia de manter a fraqueza acorrentada. Rebeca ouvia, assentia, ajoelhava. E enquanto ajoelhava, sentia o calor subir entre as pernas com uma clareza cruel. Cada “não” que engolia fazia o desejo crescer mais denso, mais escuro, mais paciente.
A dualidade dela não era um conflito entre bem e mal. Era um sistema. A Rebeca religiosa precisava existir para que a outra pudesse gozar. Sem a repressão, o prazer perdia a aresta. Sem o coque apertado, o vestido longo, a Bíblia debaixo do braço, foder três presos numa sala de culto seria apenas sexo. Com tudo isso, tornava-se sacrilégio. E o sacrilégio era o que a excitava de verdade.
No ônibus, ela lia o mesmo versículo que lia há anos. Os lábios se moviam. Por dentro, outra voz contava quantos dias faltavam para a próxima visita. A voz religiosa tentava interromper: “Isso é pecado. Você está se condenando.” A outra respondia com um riso baixo: “E é exatamente por isso que eu continuo.”
Quando entrava no presídio, a repressão se tornava performance. Cada gesto controlado, cada sorriso manso, cada “paz do Senhor” era uma camada a mais de tensão. Quanto mais apertado o coque, mais forte seria o alívio de desfazê-lo. Quanto mais alto o discurso sobre pureza, mais suja ela se sentiria quando a boceta escorresse por três homens ao mesmo tempo.
Depois do sexo, a repressão voltava com fome. No banheiro da igreja, lavava o corpo com água fria e raiva. Rezava de joelhos até as pernas doerem. E no meio da oração, a imagem voltava: a própria boca aberta, a língua estendida, esperando a porra. O nojo e o desejo se misturavam até se tornarem a mesma coisa.
Ela não queria se libertar da dualidade. Queria mantê-la afiada. Porque a mulher que saía do presídio com a Bíblia na mão e o cu ainda latejando só existia porque a outra mulher — a que orava, a que ensinava, a que fingia — continuava viva. Uma alimentava a outra. Uma justificava a outra. Uma tornava a outra possível.
À noite, sozinha na cama, Rebeca às vezes se perguntava o que aconteceria se a repressão finalmente vencesse. Se um dia ela realmente se arrependesse. A resposta vinha rápida, fria, honesta:
Sem a prisão que ela mesma construiu ao redor do desejo, não restaria quase nada.

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Ficha do conto

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Nome do conto:
A DUALIDADE REPRESSIVA DA IRMÃ REBECA

Codigo do conto:
272437

Categoria:
Fetiches

Data da Publicação:
16/09/2026

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