A DUALIDADE PSICOLÓGICA DA IRMÃ REBECA

Rebeca parou na frente do espelho pequeno do banheiro da igreja, ajustando o coque até que nenhum fio escapasse. A mulher que a olhava de volta tinha olhos suaves, boca fechada, o rosto de alguém que nunca tinha erguido a voz em raiva ou prazer. Ela ensaiou o sorriso que usaria com o diretor. Gentil. Paciente. Santo.
Lá dentro, outra coisa observava.
Sempre esteve lá. Mesmo adolescente, ajoelhada no primeiro banco, ela sentia — um segundo eu que não orava, não se arrependia, não acreditava no Deus que servia em público. Esse outro eu notava o movimento da garganta de um homem ao engolir. A forma como o jeans esticava sobre a coxa. A maneira como o poder e a restrição se assentavam em um corpo que não podia sair. O presídio não era campo missionário para ela. Era um teatro onde o segundo eu podia finalmente falar sem interrupção.
No ônibus até a penitenciária, ela lia a mesma passagem de sempre, os lábios se movendo em silêncio. Mas as palavras não entravam. O que entrava era a memória da semana anterior: o peso de três homens a usando ao mesmo tempo, o som molhado deles gozando no rosto dela, a forma como a própria voz tinha soado quando pediu para serem mais brutos. A Rebeca piedosa sentia um nojo agudo, quase físico. A outra Rebeca sentia apenas a fome se afiando.
Quando o guarda trancou a porta, a cisão já tinha acontecido.
A mulher que abriu a Bíblia ainda era a da igreja — voz baixa, postura correta, linguagem cuidadosa. Mas no instante em que os homens a olharam com aquela mistura particular de incredulidade e apetite, o segundo eu avançou e tomou o corpo. Não parecia possessão. Parecia honestidade. O vestido caiu. O cabelo desceu. A linguagem mudou. Ela se tornou a coisa que passou anos negando: uma mulher que queria ser usada por homens que não podiam recusá-la, num lugar onde sua identidade pública tornava a transgressão ainda mais doce.
Depois, quando se limpou e reconstruiu o coque, os dois eus ficaram lado a lado no mesmo crânio. Um sussurrava que ela estava condenada. O outro respondia que a condenação era o único lugar onde ela já se sentira real.
Ela saiu passando pelo diretor com o mesmo sorriso suave que tinha ensaiado no espelho. Ele perguntou se a Palavra tinha tocado algum coração.
— Sim — disse ela, e as duas versões dela falaram a verdade. Só que não a mesma.
No ônibus de volta, abriu a Bíblia de novo. Desta vez não fingiu ler. Ficou olhando a página e se perguntou, não pela primeira vez, qual das duas mulheres ainda estaria ali se a outra finalmente morresse.

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Ficha do conto

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Nome do conto:
A DUALIDADE PSICOLÓGICA DA IRMÃ REBECA

Codigo do conto:
272332

Categoria:
Fantasias

Data da Publicação:
15/09/2026

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