O PSICÓLOGO, O MARIDO, A ESPOSA E O AMIGO

A partir deste momento, a verdade deixa de ser única”. Foi o que Maga me disse certa vez, com a segurança de quem não apenas defendia essa ideia, mas a habitava.
Doutora. PhD em psicologia. Minha professora, na faculdade.
Maga não ensinava respostas. Ela criava fissuras. E foi por essas fissuras que tudo começou a escapar, inclusive eu. Algumas aulas não terminavam quando o horário acabava.
Algumas perguntas também não. E certas relações muito menos.
“Escute o que não está sendo dito.” A frase nunca me deixou. Ou talvez eu nunca tenha conseguido sair dela.
Eu não sei quando começou ele disse, olhando para as mãos.
Silêncio.
Você sabe, sim ela respondeu. Só nunca teve coragem de dizer em voz alta.
(O tempo da resposta dela foi imediato demais. Defesa? Ou preparação?)
Não é isso eu só
Só o quê?
(A interrupção. Ela não queria completar queria expor.)
“Observe quem suporta o vazio e quem precisa preenchê-lo.”
A voz de Maga ou a memória dela atravessou meu pensamento.
Eu sentia que faltava alguma coisa, ele continuou. Mas não era você.
Ela riu. Curto. Seco.
Essa é nova.
(Riso como contenção. Possivelmente raiva deslocada.)
Não, escuta não era sobre você. Era sobre mim.
Sempre é ela disse. Você sempre dá um jeito de fazer tudo ser sobre você.
(Ela não nega. Ela acusa. Isso muda o eixo.)
Por um instante, pensei em intervir. Organizar. Traduzir.
Mas havia algo ali que resistia a qualquer tentativa de clareza.
“Muitas vezes, compreender cedo demais é só uma forma elegante de interromper o processo.” Eu não disse nada.
Você queria que eu adivinhasse? ela continuou. Porque era isso, né? Silêncio, distância, aquelas perguntas estranhas.
Eu não sabia como falar.
Não sabia ou não queria?
(O confronto direto. Sem mediação. Ela já não busca resposta busca confirmação.)
Eu tinha medo.
Silêncio novamente.
Mas dessa vez, diferente.
Ela não respondeu imediatamente.
Medo de quê? perguntou, mais baixo.
(Essa pergunta não veio com ataque. Veio com algo mais perigoso, abertura.)
Ele demorou.
De descobrir que não dava mais pra voltar atrás.
(Ele finalmente nomeia. Parcialmente. Sempre parcialmente.)
Senti o impulso de intervir outra vez. Dar contorno. Criar sentido. Mas algo me conteve. Ou alguém. Maga dizia que o analista não conduz a verdade ele suporta a presença dela quando ela aparece.
E, naquele momento, ela estava ali. Crua. Incompleta. Instável.
Então por que agora? ela perguntou.
Porque você percebeu.
(Ele devolve. Divide a responsabilidade.)
Ela desviou o olhar pela primeira vez.
Eu sempre percebo disse, quase para si mesma.
(E ali, talvez, estivesse algo que nenhum dos dois ainda conseguia dizer.)
Eu anotei. Ou pensei em anotar. Às vezes já não sei mais. Porque, em certos momentos, não sou apenas eu que escuto.
Maga ainda está aqui. Nas pausas que eu sustento. Nas interpretações que eu evito.
Nas que escapam sem que eu perceba. E enquanto eles falam, eu continuo aprendendo a diferença cada vez menos nítida entre ouvir, interpretar e me deixar atravessar.

Continuação do último episódio desta historia

A manhã trouxe silêncio. Não o silêncio da paz. Mas o silêncio de quem já cruzou uma linha e sabe.
Fernanda acordou sozinha. Mas não abandonada. Escolhida.
O apartamento estava organizado demais. Café pronto. Flores. Tudo pensado. Aquilo não era cuidado. Era concessão.
Ela passou os dedos pela mesa, devagar, como se estivesse reconhecendo um território novo.
Então pegou o celular. Abriu o grupo.
Bom dia.
A resposta veio imediata. Rápida demais.
Bom dia, meu amor.
Ela leu e demorou. Deixou ele esperar.
Você está diferente.
Estou, ele respondeu. Cansei de fingir que não vejo.
Que não vê o quê?
Você.
Ela sentiu. Não era carinho. Era entrega. Ela não respondeu. Foi para o privado. Sem aviso.
Amigo acordado?
Sempre estive.
Sem hesitação. Sem defesa. Ela não sorriu dessa vez. Ela avançou.
Então para de se esconder.
A pausa veio. Pesada.
Você está indo rápido demais, eu respondi.
Ela digitou, apagou, digitou de novo.
Não. Eu só parei de ir devagar.
Silêncio. Ela continuou:
Eu sei que é você, Rob.
Dessa vez o tempo se estendeu. Ela viu digitando. Sumiu. Voltou. Sumiu de novo.
No grupo, o marido escreveu.
Amor, está aí?
Ela não tirou os olhos do privado.
Sim, estou.
O nosso amigo não respondeu, ainda, escreveu o marido.
O telefone vibrou. Privado.
Desde quando você sabe?
Ela respondeu sem hesitar:
Desde antes de você achar que estava no controle.
A resposta demorou mais.
E você deixou?
Ela respirou fundo. E apertou onde sabia que doía.
Não. Eu quis ver até onde você ia sem perceber que já era meu também.
Silêncio. Denso. Quase físico. No grupo:
Fernanda o marido chamou.
Ela ignorou. Escolheu. Privado.
Me diz uma coisa, ela escreveu. Você ainda acha que está conduzindo isso?
A resposta veio curta:
Não.
Ela fechou os olhos por um segundo. Sentiu o impacto.
Ótimo.
E então, sem suavizar:
Então escuta.
Pausa.
Eu não quero mais você atrás de uma tela.
Do outro lado, não veio resposta imediata. Veio presença.
Isso não é fantasia, Fernanda.
Eu sei.
Isso muda tudo.
Ela respirou e empurrou mais.
É exatamente por isso.
Silêncio. No grupo, o marido voltou.
Vocês estão me ignorando agora?
Ela abriu. Leu. Pensou.
E dessa vez trouxe ele para dentro.
Não.
Então fala comigo.
Ela digitou devagar. Sem recuar.
Eu estou falando com você. Só não estou mais escondendo.
Escondendo o quê?
Que eu quero mais do que isso aqui.
Mais como?
Ela não suavizou. Sem limite. Sem esse cuidado de sempre. Sem você tentando controlar o que sente.
A resposta dele demorou. Quando veio, veio baixa.
E se eu não quiser controlar?
Ela sentiu o corpo responder antes da mente.
Então não controla.
Silêncio. Pesado. Aceito.
Ela voltou para o privado.
Viu?
Vi, eu respondi. Ele não só entende.
Pausa. Ele permite.
A resposta veio mais lenta.
E você?
Ela sorriu. Mas não era leve.
Eu não pedi permissão.
Silêncio. Mais longo. Mais fundo.
Então o que você quer de mim, Fernanda?
Agora não havia mais espaço para desvio.
Ela escreveu devagar.
Eu quero ver até onde você vai quando não tem mais onde se esconder.
E se eu for longe demais?
Ela respirou. Segurou. E soltou.
Eu vou estar lá.
A tela ficou em silêncio. Mas não vazia. Carregada.
Me diz quando eu escrevi.
Ela olhou para a conversa do grupo. Depois para o privado. Depois para si mesma. E, pela primeira vez, decidiu não ceder ao impulso imediato.
Hoje não.
Por quê?
Ela demorou. De propósito.
Porque agora você sabe.
Pausa.
E eu quero ver o que isso faz com você.
Silêncio. Mais uma vez.
Mas agora diferente.
Sem controle. Sem roteiro. Sem volta.
E então, a última mensagem dela.
Não demora.
Pausa.
Porque eu também não vou.


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Ficha do conto

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Nome do conto:
O PSICÓLOGO, O MARIDO, A ESPOSA E O AMIGO

Codigo do conto:
258191

Categoria:
Heterosexual

Data da Publicação:
30/03/2026

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