Ela deu um passo mais perto.
Eu parei de me fazer essa pergunta.
Silêncio. Mas não vazio. Ele assentiu lentamente. Como quem aceita algo que já sabia.
Então me responde uma coisa, disse ele.
Ela cruzou os braços, calma.
Qual?
Ele deu um leve sorriso. Diferente. Menos contido.
Que roupa você vai usar quando encontrar ele?
A pergunta não veio leve. Veio carregada.
Fernanda piscou, surpresa, mas não recuou.
Eu não pensei nisso.
Ele soltou um pequeno riso pelo nariz. Como se esperasse exatamente essa resposta.
Eu pensei.
Ela inclinou a cabeça. Observando. Medindo.
Ele caminhou até a mesa. Pegou uma caixa. Simples por fora. Precisa por dentro. Colocou na frente dela.
Abre.
Fernanda não teve pressa. Passou os dedos pela tampa. Sentiu o peso. O significado. E então abriu.
O silêncio entre os dois mudou. Ficou mais denso. Mais íntimo. Mais perigoso.
Ela não comentou a roupa. Mas os olhos disseram tudo.
Ele se aproximou um pouco mais.
Eu imaginei você usando isso, disse baixo, antes mesmo de ela admitir que queria.
Fernanda levantou os olhos para ele. Agora havia algo novo ali. Não era só aceitação.
Era participação.
Você pensou longe, ela disse.
Não, ele respondeu. Eu só parei de mentir para mim.
Pausa. Respiração contida.
Tem uma coisa que você não sabe.
Ela não desviou.
Então fala.
Ele sustentou o olhar dela. Sem fuga.
Quando o Rob começou a entrar na nossa cabeça, ele disse devagar, ele não tirou só coisa sua.
Fernanda ficou imóvel.
O que ele tirou de você?
Um pequeno silêncio. Mas não de dúvida. De coragem.
O meu maior segredo.
Ela sentiu. Antes mesmo de ouvir.
Qual?
Ele deu um passo mais perto. Agora não havia espaço entre eles.
Que eu sempre imaginei isso.
Pausa.
Você sendo desejada por outro.
O ar ficou mais pesado. Mas ele não parou.
No começo era só ideia. Fantasia. Distante. Ele engoliu seco. Mas continuou firme.
Só que com o tempo parou de ser abstrato.
Fernanda não piscava. Virou alguém.
Silêncio.
Quem?
Ele não hesitou dessa vez.
Ele.
O Rob.
O nome ficou no ar.
Sem proteção. Sem volta.
Fernanda soltou o ar devagar.
Então você já estava lá antes de mim?
Não, ele respondeu. Eu só não tinha coragem de admitir.
Pausa.
Você teve.
Ela absorveu aquilo. Inteiro. Sem fugir.
O celular vibrou. Os dois olharam. Privado.
Eu sinto que alguma coisa mudou, a mensagem dizia.
Fernanda pegou o telefone. Mas não respondeu na hora.
O marido observava. Dessa vez sem tentar controlar. Só querendo ver.
Ela digitou.
Mudou.
Pausa.
Agora você não está mais sozinho nisso.
Do outro lado:
O que isso quer dizer?
Fernanda olhou para ele. Ele assentiu. Sem medo. Sem recuo.
Que você não é o único que quer ir até o fim.
Silêncio. Longo. Pesado. Vivo.
Então me diz quando.
Fernanda olhou para a caixa aberta.
Para ele.
Para si mesma.
E dessa vez não havia dúvida. Só escolha.
Não hoje.
Pausa.
Mas agora você já sabe como vai ser.
Mais alguns segundos.
E a última mensagem.
E não vai ser só imaginação.
O silêncio que ficou não era mais expectativa. Era construção. Algo já estava acontecendo.
Mesmo antes do encontro. E nenhum dos três. Era mais o mesmo.
rob025