Episódio 23 – A festa da gestora (Parte 1) (contado por Anita)
A convite chegou no meio da semana. A gestora da escola onde Jairo trabalhava ia fazer aniversário e queria alguém de confiança para fotografar a festa. Jairo aceitou na hora. Era um extra e, além disso, a mulher sempre tinha sido simpática com ele. Eu fui junto. A festa seria na casa dela, um sobrado grande num bairro mais residencial de Coari, com quintal amplo, piscina e área gourmet. Chegamos por volta das sete da noite. Jairo carregava a bolsa da câmera e o tripé. Eu ia de vestido leve, sem nada por baixo, só para sentir o tecido colar no corpo com o calor. A gestora nos recebeu na porta sorrindo. Tinha uns trinta e poucos anos, corpo bem cuidado, cabelo preso num coque elegante, vestido justo vinho que marcava os seios e a cintura. Ao lado dela estava o namorado, um homem alto, de uns trinta e cinco, bem vestido, que nos cumprimentou com um aperto de mão firme. A casa já estava cheia. Colegas de trabalho, alguns pais de alunos, amigos da gestora, um ou outro político local. Música baixa, luzes amarelas, cheiro de churrasco e perfume. Jairo começou a trabalhar na hora. Eu fiquei por perto, observando. Ele fotografava de tudo: o bolo sendo colocado na mesa, os convidados chegando, a gestora recebendo beijos no rosto, o namorado servindo vinho. A câmera clicava sem parar. De vez em quando ele se agachava para pegar um ângulo melhor, ou pedia para alguém sorrir de novo. A gestora gostava de posar. Toda vez que Jairo apontava a lente para ela, ela endireitava a postura, sorria de um jeito estudado e, por um segundo, olhava direto para a câmera como se soubesse exatamente o efeito que causava. Eu andava pela festa com uma taça na mão, conversando com algumas pessoas, mas meu olhar voltava sempre para o meu marido. Ele estava concentrado, profissional, mas eu conhecia o corpo dele. Via quando os olhos demoravam um segundo a mais no decote da gestora, ou quando ela se inclinava para ajeitar algo e o vestido subia um pouco na coxa. Jairo não fazia nada demais. Continuava só fotografando. Mas eu sentia. A noite foi avançando. O bolo foi cortado, as pessoas cantaram, brinde. Jairo captou cada momento: a faca entrando no chocolate, a gestora rindo com a boca suja de cobertura, o namorado abraçando ela por trás enquanto todos aplaudiam. Depois a pista improvisada no quintal começou a encher. Música mais alta, corpos se mexendo. Eu dancei um pouco com Jairo entre uma foto e outra. O suor já colava o vestido nas minhas costas e entre as pernas. Em alguns momentos eu abria um pouco as pernas de propósito quando ele passava perto, só para ele sentir o cheiro e lembrar que eu estava sem calcinha. Por volta das onze a festa ainda estava animada. Jairo tinha tirado centenas de fotos. A gestora veio até ele algumas vezes para ver o resultado no visor da câmera. Cada vez que ela se aproximava, encostava o ombro no dele, apontava alguma imagem e ria baixo. O namorado aparecia de vez em quando, passava a mão na cintura dela e depois se afastava para conversar com outros convidados. Nada de estranho. Tudo dentro da normalidade de uma festa de aniversário. Eu fui ao banheiro no andar de cima. O corredor era silencioso. Quando voltei, passei pela porta entreaberta do escritório e vi Jairo ali dentro, mostrando algumas fotos para a gestora no computador. Os dois estavam de pé, lado a lado, a tela iluminando os rostos. Ela falava baixo, apontava detalhes, e em um momento colocou a mão no braço dele enquanto ria de alguma imagem. Eu parei por um segundo na porta, só observando. Jairo notou minha presença e me chamou com um aceno. A gestora se virou, sorriu e disse: — Seu marido tem um olhar muito bom. As fotos estão lindas. Eu entrei, olhei algumas imagens junto com eles e concordei. Realmente estavam boas. A gestora em todas aparecia radiante, confiante, o corpo bem enquadrado. Quando saímos do escritório, ela ainda comentou: — Depois a gente conversa melhor sobre o restante, Jairo. Quero ver se você topa umas fotos diferentes… mais particulares. Ele só assentiu educadamente. Eu ouvi, mas naquele momento não dei muita atenção. A festa ainda rolava lá embaixo. Voltamos para o quintal. Mais brinde, mais conversa, mais cliques. Por volta da uma da manhã as pessoas começaram a se despedir. Jairo continuou fotografando até o final: os últimos abraços, a gestora na porta se despedindo de cada um, o namorado ao lado dela. Quando o último convidado saiu, a casa ficou de repente silenciosa. Só restávamos nós quatro: eu, Jairo, a gestora e o namorado. A gestora tirou os sapatos, soltou o cabelo e suspirou, cansada e satisfeita. — Ficou ótimo. Obrigada de verdade. Jairo guardava a câmera na bolsa. Eu já sentia o cansaço, mas também uma curiosidade leve com aquela frase de antes — “fotos particulares”. Ainda não sabíamos o que vinha pela frente. A noite da festa tinha sido normal. Bonita, animada, profissional. Mas alguma coisa no ar já tinha mudado de temperatura.
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