Alberto morreu numa terça-feira de manhã, sem presságios. Levantou-se, tomou café, beijou a testa de Solange como sempre e saiu para o trabalho. Duas horas depois o telefone tocou. Um colega, voz trêmula, falando em enfarte. Solange ouviu, desligou e ficou parada no meio da sala, o pano de prato ainda na mão. Não chorou. Só sentiu um vazio frio no peito e, logo em seguida, uma pontada baixa na barriga, como se o corpo tivesse entendido antes da cabeça. O velório foi no mesmo dia, à noite, numa casa funerária de paredes amarelas e cheiro forte de formol e flores baratas. Alberto estava no caixão aberto, de terno azul-marinho, as mãos cruzadas sobre o peito, a boca um pouco entreaberta. Parecia menor. Mais pálido. O pau que Solange conhecera durante anos agora era só uma dobra morta sob o tecido da calça. Ela ficou sentada na primeira fileira, de preto, as pernas cruzadas. Recebia os pêsames com a face imóvel. “Meus pêsames.” “Força.” “Deus sabe o que faz.” As palavras escorriam sem deixar marca. Hélio chegou perto das nove, de camisa escura, o olhar baixo. Beijou o rosto dela demorado demais. A mão dele apertou a dela e ficou um segundo a mais. Solange sentiu o calor da pele dele e, pela primeira vez naquela noite, a buceta latejou. O velório foi longo. Pessoas entravam, olhavam o morto, abraçavam Solange e saíam. O cheiro de formol misturava-se com o perfume barato das coroas. Em determinado momento, quase meia-noite, a sala esvaziou um pouco. Só restavam parentes distantes e o funcionário da funerária cochilando perto da porta. Solange se levantou. Caminhou até o caixão. Ficou olhando o rosto de Alberto por um longo tempo. Depois, sem pensar muito, passou a mão pela testa fria dele. A pele estava gelada, um pouco úmida. Ela desceu a mão até o peito, sentiu a camisa engomada, e continuou descendo. Os dedos roçaram a fivela do cinto. Por um instante a tentação foi absurda: abrir a calça do morto, ver o pau pela última vez, ver se ainda tinha algum volume, algum resto de vida. Não fez. Mas a ideia ficou latejando entre as pernas. Hélio se aproximou por trás. Falou baixo, quase no ouvido: — Precisa de alguma coisa? Solange não se virou. Continuou olhando o marido morto. — Ele nunca me fodeu de verdade — murmurou. — Nunca. Hélio ficou em silêncio. Depois a mão dele pousou na cintura dela, por cima do vestido preto. Os dedos apertaram. Solange não se afastou. Pelo contrário: empurrou levemente o corpo para trás, sentindo o volume que já começava a crescer na calça do compadre. — Não aqui — ela disse, a voz rouca. — Então onde? Solange olhou uma última vez para o rosto de Alberto. Os olhos fechados. A boca entreaberta. O homem que dividira a cama com ela durante anos agora era só carne fria e formol. — No banheiro — respondeu. Os dois saíram sem chamar atenção. O banheiro da funerária era pequeno, de azulejo branco, cheiro de desinfetante. Hélio trancou a porta. Solange nem esperou. Puxou o vestido para cima, puxou a calcinha para o lado e se apoiou na pia. Hélio abriu a calça, tirou o pau já duro e meteu de uma vez. Solange soltou um gemido baixo, abafado. O espelho embaçou. O barulho da pele batendo era seco, rápido, urgente. Ela gozou olhando o próprio rosto no espelho, o vestido de luto erguido, o pau do compadre entrando e saindo. Hélio gozou dentro logo depois, com um gemido rouco, a testa colada nas costas dela. Quando terminaram, Solange puxou a calcinha de volta, ajeitou o vestido e saiu primeiro. Voltou para a sala do velório. Sentou-se de novo na primeira fileira. O sêmen de Hélio escorria devagar entre as coxas, molhando o tecido preto da calcinha. Alberto continuava imóvel no caixão, a boca entreaberta, alheio a tudo. Solange cruzou as pernas e sentiu o líquido quente. Pela primeira vez desde a notícia da morte, ela sorriu. Pequeno. Íntimo. Quase imperceptível. O velório continuou até o amanhecer. E ela, sentada diante do marido morto, já pensava no ônibus que pegaria no dia seguinte.
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