O enterro foi na manhã seguinte, sob um sol branco e sem sombra. O cemitério era o mesmo onde, meses depois, Solange voltaria para se sujar sobre a lápide. Naquele dia, porém, ainda havia um caixão sendo carregado. Quatro homens da funerária, o padre, parentes distantes, Hélio e a mulher, e Solange de preto, óculos escuros, o vestido justo demais para uma viúva recém-feita. O sêmen de Hélio da noite anterior ainda estava nela. Tinha escorrido durante a madrugada, manchado a calcinha, e ela não se lavara direito. Ao caminhar atrás do caixão, sentia o tecido úmido grudar na pele. Cada passo fazia lembrar o banheiro da funerária, a pia, o pau do compadre entrando com pressa enquanto o marido esfriava no caixão aberto. O padre falou palavras que ela não ouviu. Terra caiu sobre a madeira. O som era seco, definitivo. Solange permaneceu imóvel, as mãos cruzadas na frente do corpo. Por trás dos óculos escuros, os olhos estavam secos. Não havia lágrimas. Havia apenas uma estranha leveza e, mais embaixo, aquele latejar constante que não a abandonava desde a noite do velório. Hélio ficou ao lado dela o tempo todo. Perto demais. Quando a primeira pá de terra bateu no caixão, a mão dele tocou a dela por um segundo. Solange não retirou. Os dedos dele apertaram os dela com força, quase dolorida, e depois soltaram. O enterro terminou rápido. As pessoas começaram a se dispersar. Alguns ainda se aproximavam para dar o último pêsame. Solange agradecia com a cabeça, a voz baixa, educada. Por dentro, só queria que todos fossem embora. Quando o cemitério quase esvaziou, restaram apenas ela, Hélio e o coveiro que já começava a ajeitar a terra. A mulher de Hélio tinha ido na frente, alegando dor de cabeça. Os dois ficaram sozinhos perto da cova ainda aberta. Hélio falou baixo: — Você não chorou nenhuma vez. Solange tirou os óculos escuros. Os olhos estavam vermelhos, mas secos. — Não tenho mais choro — respondeu. — Só tenho vontade. Ele entendeu. Olhou em volta. O coveiro estava a uma distância segura, de costas, trabalhando. Hélio puxou Solange pelo braço, guiando-a para trás de um grande jazigo antigo, coberto de musgo. Ali, escondidos da vista do caminho principal, ele a empurrou contra o mármore frio. Solange não resistiu. Ergueu o vestido preto até a cintura. Não usava calcinha — tinha tirado no carro, no caminho, e deixado no banco. Hélio abriu a calça com pressa. O pau já estava duro. Entrou nela de uma vez, fundo, sem carinho. Solange mordeu o próprio braço para não gemer alto. O mármore gelado raspava as costas. O barulho da pá do coveiro chegava até eles, rítmico, distante. Hélio fodia com força, as mãos apertando a bunda dela, a respiração quente no pescoço. — Seu marido tá sendo enterrado a vinte metros daqui — rosnou baixo. — E você tá me engolindo inteiro. Solange gozou rápido, o corpo tremendo contra o jazigo, as pernas fraquejando. Hélio seguiu mais alguns segundos e gozou dentro, abafando o gemido no ombro dela. Ficou enterrado um instante, depois saiu. O sêmen escorreu imediatamente, descendo pela coxa de Solange e pingando na terra do cemitério. Ela baixou o vestido. Não limpou. Hélio ajeitou a calça. Os dois voltaram para perto da cova como se nada tivesse acontecido. O coveiro nem levantou a cabeça. Quando finalmente saíram do cemitério, Solange sentou no banco de trás do carro de Hélio. As pernas ainda trêmulas. O sêmen continuava escorrendo, manchando o tecido preto do vestido por dentro. Ela olhou pela janela o portão do cemitério se afastando e pensou, com uma clareza fria: Acabou. Alberto estava debaixo da terra. E ela, pela primeira vez em anos, estava completamente sozinha. E completamente livre. No caminho de volta, Hélio perguntou se ela queria que ele ficasse. Solange negou com a cabeça. — Prefiro sozinha hoje. Ele a deixou em casa. Solange entrou, fechou a porta, subiu até o quarto e se olhou no espelho. O vestido de luto amassado. As coxas sujas. O cheiro de sexo e terra misturado na pele. Tirou a roupa. Deitou nua na cama de casal, ainda quente do cheiro de Hélio, e se masturbou devagar, os dedos entrando com facilidade no caminho que o compadre acabara de usar. Gozeu olhando o teto, a boca aberta, o corpo inteiro em espasmo. Depois ficou quieta. Pela primeira vez desde a morte de Alberto, dormiu sem sonhar com o marido. Sonhou com o ônibus. Com mãos sujas. Com paus anônimos. E acordou molhada.
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