A DAMA DO LOTAÇÃO: O CORNO INDO SE QUEIXAR COM O PAI
Alberto aguardou quase uma semana depois de ter cheirado a calcinha pela primeira vez. A certeza já o corroía por dentro. O cheiro alheio, o jeito como Solange chegava em casa, as manchas, o sorriso discreto demais. Tudo apontava para a mesma direção. Mesmo assim, ele precisava falar com alguém. Não com amigos. Não com o compadre Hélio — especialmente não com ele. Foi até a casa do pai. O velho Alberto morava sozinho num sobrado antigo de Botafogo. Recebeu o filho na sala de sempre, a mesma poltrona de couro rachado, o mesmo cheiro de cigarro e mofo. Os dois ficaram em silêncio por um tempo. O pai, acostumado às visitas raras do filho, esperou. Alberto falou sem olhar nos olhos dele: — Eu acho que a Solange está me traindo. O velho não demonstrou surpresa. Apenas acendeu outro cigarro, puxou a fumaça com calma e perguntou: — Acha ou sabe? Alberto demorou a responder. — Sei. Tem cheiro de homem na roupa dela. Nas calcinhas. Ela chega tarde. Às vezes volta com a boca inchada. Tem dias que… que ainda está molhada de outro. O pai soltou a fumaça pela narina e ficou olhando o filho por um longo tempo. Depois falou, a voz rouca de quem fumou a vida inteira: — E o que você veio me perguntar, Alberto? Se deve bater nela? Se deve separar? Se deve fingir que não sabe? — Eu não sei o que fazer. O velho riu baixo, sem humor. — Você sempre foi fraco para mulher. Desde menino. Sua mãe fazia o que queria comigo e eu engolia. Sua irmã casou com um safado e você ficou calado. Agora a sua mulher está te pondo chifre e você vem me pedir conselho como se eu fosse padre. Alberto apertou as mãos nos joelhos. — O senhor acha que eu devo confrontar ela? — Confrontar? — o pai inclinou o corpo para a frente. — E depois? Ela vai negar. Ou vai confessar e rir da sua cara. Ou vai chorar e você vai perdoar. Eu conheço o tipo. Mulher que começa a gostar de pau de desconhecido não volta atrás fácil. Principalmente quando o marido é igual a você: quieto, educado, que pede licença até para gozar. Alberto sentiu o rosto esquentar. — Então o que eu faço? O velho apagou o cigarro no cinzeiro já cheio e falou com uma calma cruel: — Você tem três caminhos. O primeiro: faz vista grossa e engole. Continua comendo ela de noite e fingindo que o cheiro é só suor. O segundo: pega ela no flagra, quebra a cara do outro e depois a dela. O terceiro: separa e deixa ela virar puta aberta de vez. Porque, do jeito que você descreveu, meu filho… ela já está a meio caminho. Alberto baixou a cabeça. — Eu ainda gosto dela. — Pois é. Esse é o problema. — O pai se reclinou na poltrona. — Homem que gosta de mulher puta acaba viciado no veneno. Vai chegar um dia em que você vai cheirar a calcinha suja dela e gozar. Ou vai querer que ela conte o que o outro fez. Ou vai pedir para ela voltar com o cheiro do homem ainda quente. Eu já vi isso acontecer. Mais de uma vez. Alberto ficou em silêncio. O estômago revirava. Porque o pai tinha acertado em cheio. Já tinha acontecido. Já tinha cheirado. Já tinha gozado com o tecido sujo na mão. O velho continuou, quase em tom de conselho final: — Se for para ficar, fica de olho aberto. E aceita o que ela é. Se for para sair, sai antes que você vire cúmplice da própria corna. Porque tem homem que depois de um tempo até gosta. E aí não tem volta. Alberto se levantou. O pai não o acompanhou até a porta. Só falou mais uma coisa, quando o filho já estava quase saindo: — E Alberto… se for o Hélio, não se surpreenda. Esse desgraçado sempre olhou demais para a sua mulher. Alberto parou por um segundo. Não respondeu. Saiu de casa com a certeza ainda mais pesada e com uma pergunta nova queimando na cabeça: Será que o pai também já tinha cheirado calcinha de mulher alheia? No caminho de volta, Alberto só conseguia pensar no cheiro que encontraria na gaveta naquela noite. E no que faria quando encontrasse.
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