Tenho um paciente bem especial... Dante, oficialmente residente em Singapura, tem 42 anos e é fundador e único proprietário da Information Axial Society. Segundo a lista da Forbes, possui um patrimônio líquido estimado em 555,97 bilhões de dólares. Ocupa globalmente a 40ª posição no ranking e é o brasileiro mais rico da atualidade. Sua maior fonte de renda continua sendo a participação no Serviço Mundial de Inteligência. Contudo, na esfera pessoal, Dante passou a assumir um papel controverso: o de “proprietário” simbólico de mulheres marcadas por inseguranças financeiras, sociais e sexuais. Dante interessa-se por mulheres que enfrentam graves dificuldades financeiras, mas que compreendem e aceitam sua ajuda, ao mesmo tempo em que se dispõem a vivenciar suas fantasias mais obscuras. Quando atendia Dante, eu achava que ele era esquizofrênico. Não pelo modo como falava — falava com clareza —, mas pelo conteúdo. As histórias não poderiam ser reais. Eram completas demais, fechadas demais, sentidas demais. Ele não contava: ele lembrava. E lembrava com o corpo. Eu pensava que ele fantasiava e, como acontece com alguns, vivia a fantasia como se fosse memória. Tudo cabia. O tom, a coerência interna, a ausência de dúvida. Havia sofrimento, mas não havia fissura. Dante falava de posse. Usava essa palavra como quem não a escolhe, como quem apenas repete algo que já existia antes dele. Falava de marcas, de sinais que não eram simbólicos, mas práticos. Falava como quem descreve um procedimento. Eu escutava e anotava. E, intimamente, organizava tudo dentro de um nome conhecido. Até o dia em que uma paciente, sem saber de Dante, sentou-se à minha frente e começou a contar uma história que eu já conhecia. Não nos detalhes superficiais, mas na estrutura. As mesmas etapas. As mesmas palavras ditas em momentos semelhantes. O mesmo silêncio nos mesmos pontos. Quando terminei de ouvir, senti um desconforto difícil de explicar. Não era surpresa. Era reconhecimento. Ela então levantou a saia me mostrando sua virilha esquerda. Não o fez com dramatização, nem como denúncia. Foi um gesto simples, quase administrativo. E me mostrou a tatuagem. Naquele instante, algo saiu do lugar. Não pensei em Dante. Pensei em mim. Em pouco tempo, outra paciente. Depois outra. E mais outra. Histórias que não se encontravam fora dali, mas que dentro do consultório se encaixavam como peças de um mesmo objeto desmontado. Nenhuma falava da mesma forma. Nenhuma parecia ouvir vozes. Nenhuma parecia precisar convencer. Eu continuei atendendo. Continuei escutando. Mas já não anotava da mesma maneira. Não concluí nada. Não nomeei nada. Apenas passei a aceitar que há narrativas que não pedem crença nem descrença — pedem apenas que alguém suporte ouvi-las sem se proteger demais. Desde então, quando alguém fala de fantasia, eu escuto com cuidado. E quando alguém fala de realidade, escuto mais ainda. Algumas histórias não enlouquecem quem as conta. Elas apenas deslocam quem as escuta. Demorei para entender por que um homem com tantos recursos e tanto poder precisava de tratamento neuropsiquiátrico. Na época, isso me parecia um paradoxo quase banal: quem tudo pode, por que sofre? No início, pensei nas explicações usuais. Isolamento. Pressão. Excesso de controle. A solidão própria de quem manda. Mas essas respostas eram rasas demais. Serviam para qualquer biografia autorizada, não para aquele homem. Ele não vinha em busca de alívio. Vinha em busca de contenção. Havia nele uma inteligência afiada, estratégica, capaz de antecipar pessoas e situações com precisão desconfortável. O poder não o embriagava; ao contrário, parecia mantê-lo acordado demais. Como se não houvesse descanso possível quando tudo ao redor responde aos seus gestos. Com o tempo, comecei a perceber que o sofrimento não vinha da falta de limites, mas da ausência deles. Nada lhe era negado. E isso, longe de ser liberdade, funcionava como um campo aberto demais para impulsos que não encontravam resistência. O tratamento não era para torná-lo mais forte. Era para torná-lo menos absoluto. Havia pensamentos que não podiam ser compartilhados com subordinados, aliados ou amantes. Não por serem frágeis, mas por serem excessivamente eficazes. Ideias que, se seguidas até o fim, produziriam resultados — e resultados irreversíveis. Ele precisava de um espaço onde não fosse obedecido. Onde suas palavras não gerassem movimento imediato no mundo. Onde pensar não fosse já uma forma de agir. Foi então que compreendi: o tratamento não era sinal de falha, mas de lucidez tardia. Um último recurso para introduzir fricção onde tudo escorregava fácil demais. Alguns homens enlouquecem por não ter poder algum. Outros enlouquecem porque têm poder demais — e nenhuma instância interna que lhes diga “não”. Ele não buscava cura. Buscava atraso. Um intervalo mínimo entre o impulso e o ato. E talvez isso seja o máximo de sanidade possível para quem já ultrapassou todos os outros limites. **** Continua....
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