. 4.5 - O DONO

Ao entrar na sala,
Dante percebe o peso do silêncio. O telefone vermelho, sempre discreto, parecia quase gritante agora. O visor marcava 53 chamadas perdidas. Todas de Izi.
Ele não se senta de imediato. Permanece em pé por alguns segundos, olhando o aparelho como quem encara algo que já não pertence ao presente, mas insiste em reclamar espaço. Não há irritação em seu rosto, tampouco curiosidade. Há consciência.
Dante se senta lentamente, passa a mão pelo queixo e respira fundo. Izi não ligava assim por acaso. Nunca foi alguém de insistir sem motivo. Aquela quantidade de chamadas não era desejo — era urgência, talvez medo. Ou a dificuldade de aceitar que o eixo havia mudado.
Ele pega o telefone, não para retornar a ligação, mas para silenciá-lo definitivamente. Em seguida, chama o secretário.
— Se ela ligar novamente, diga que estou em reunião. E se insistir, marque para amanhã, no fim do dia.
O secretário hesita.
— Amanhã o senhor tem viagem com a Sra. Amanda…
Dante interrompe com suavidade, mas sem espaço para dúvida:
— Então cancele qualquer encaixe. O que for do passado não invade o que estou construindo.
Quando fica sozinho novamente, Dante se encosta na cadeira e fecha os olhos por um instante. Pela primeira vez, não sente o impulso de resolver, controlar ou salvar alguém imediatamente. Isso o surpreende — e o tranquiliza.
Izi havia sido importante. Representara um tempo, uma fase, uma versão dele mesmo. Mas agora havia algo diferente: limite. E esse limite não vinha do poder, vinha da escolha.
Ele pega o celular pessoal e vê uma mensagem de Amanda:
“Cheguei bem. Hero sentiu sua falta. Eu também.”
Dante sorri, um sorriso curto, sincero.
O telefone vermelho permanece mudo.
E, pela primeira vez, isso não lhe causa desconforto algum.
Antes que pudesse bloquear a linha, o telefone vermelho vibra outra vez. Dante olha para o visor. Izi.
Há um breve instante de hesitação — não por fraqueza, mas por respeito ao que foi. Então atende.
— Dante… — a voz dela vem trêmula, sem o controle que sempre teve. — Graças a Deus você atendeu.
Ele não responde de imediato. O silêncio do outro lado a denuncia ainda mais.
— Aconteceu alguma coisa? — pergunta, por fim, num tom neutro, firme.
— Eu… eu tentei falar com você de todas as formas. Disseram que você não estava. Eu sei que está evitando… — ela respira fundo — mas eu precisei ligar. Preciso de você.
Dante se recosta na cadeira. Não há dureza em seu rosto, tampouco condescendência. Apenas clareza.
— Izi, seja direta.
— Eu não estou bem — diz ela, quase num sussurro. — Achei que estava livre, que conseguiria seguir. Mas desde que você sumiu… desde que não voltou… tudo ficou fora do lugar.
Ele fecha os olhos por um segundo. Quando fala, sua voz é baixa, porém definitiva.
— Eu não sumi. Eu escolhi.
O silêncio agora é dela.
— Você prometeu que nunca me deixaria — responde, com um misto de dor e acusação.
— Eu prometi cuidar quando você precisava ser cuidada — corrige. — E cumpri. O que nunca prometi foi permanecer quando o vínculo deixasse de ser verdadeiro.
— Existe outra mulher… — diz ela, mais afirmando do que perguntando.
— Existe — admite Dante. — E, diferente de antes, não existe posse, dívida ou resgate. Existe escolha mútua.
Izi respira fundo, tentando se recompor.
— Então é isso? Tudo o que vivemos termina assim?
— Não termina — responde ele, com honestidade. — Se transforma em algo que precisa ficar no passado para que não se torne ferida no presente.
Há um choro contido do outro lado da linha.
— Eu só queria ouvir sua voz mais uma vez — confessa ela.
— Agora você ouviu — diz Dante, com gentileza. — E é por isso mesmo que esta ligação precisa ser a última.
Ele espera alguns segundos, como se lhe desse tempo para aceitar.
— Cuide de si, Izi. De verdade.
Dante desliga antes que ela responda. Não por frieza, mas por respeito ao limite que finalmente aprendeu a manter.
Em seguida, bloqueia o número.
O telefone vermelho silencia.
E Dante, ao se levantar, sente algo raro e novo: coerência entre quem foi e quem escolheu ser.
Contudo, a indiferença não se sustenta. Dante caminha alguns passos pela sala, para diante da janela, observa a cidade sem vê-la de fato. O silêncio pesa mais do que deveria. Ele sabe: não é saudade, é responsabilidade emocional mal resolvida — e isso, para ele, sempre foi imperdoável.
Ele desbloqueia o número. Disca.
Izi atende no primeiro toque, como se estivesse esperando com o telefone nas mãos.
— Dante… — a voz vem embargada, surpresa e alívio misturados. — Você disse que não ligaria.
— Eu disse que precisava encerrar — responde ele, com calma. — Não disse que precisava ser cruel.
Há um suspiro longo do outro lado.
— Eu não queria te prender — diz ela. — Só… fiquei sem chão.
— Eu sei — ele responde. — E é exatamente por isso que liguei. Para não deixar você imaginando coisas que não são verdade.
— Então me diga a verdade — pede Izi. — Toda.
Dante pensa por alguns segundos antes de falar.
— O que existiu entre nós foi intenso, necessário e real naquele tempo. Você não foi um erro. Mas também não é o meu futuro. E não porque faltou sentimento… mas porque, se eu continuasse, estaria repetindo um padrão que machuca. Você e a mim.
O silêncio que segue é diferente: menos caótico, mais atento.
— Ela te mudou — diz Izi, sem rancor.
— Mudou — admite ele. — Não me tornando melhor do que fui, mas mais honesto com o que sou capaz de sustentar.
— E eu? — pergunta ela, quase num fio de voz. — O que eu faço com tudo isso agora?
— Vive — responde Dante, firme. — Sem me transformar em referência, sem me esperar, sem me temer. Você não precisa mais provar nada a ninguém. Nem a mim.
Izi respira fundo. Quando fala, sua voz já não treme tanto.
— Eu acho que… no fundo, eu precisava ouvir isso de você. Não de um médico, não de um amigo. De você.
— Então agora ouviu — diz Dante. — E é por isso que essa ligação, diferente da anterior, não dói. Ela fecha.
Há uma pequena pausa.
— Adeus, Dante — diz ela, com serenidade inesperada.
— Adeus, Izi. E obrigado por ter sobrevivido a si mesma — responde ele.
A ligação se encerra.
Dante permanece alguns segundos imóvel, o telefone ainda na mão. Não há culpa, nem desejo de retorno. Apenas a certeza de que, pela primeira vez, ele não salvou ninguém às custas de si mesmo — e nem precisou ser dono para ser significativo.
Quando se afasta da janela, o peso em seu peito não é ausência.
É encerramento.
O telefone vibra outra vez na mão de Dante. Ele fecha os olhos por um instante antes de atender, como quem já sabe que não se trata de insistência — mas de necessidade.
— Um único pedido — diz Izi, sem rodeios. — Quero ouvir isso pessoalmente de você. Não porque eu duvide… mas para que fique absolutamente claro, aqui — ela pausa — na minha mente. O afastamento.
Dante não responde de imediato. Senta-se na poltrona, o olhar fixo em um ponto qualquer da sala.
— Você sabe que isso não é um convite para reaproximação — diz ele, por fim. — Nem para despedidas longas, nem para nostalgia.
— Eu sei — responde Izi, com firmeza surpreendente. — É exatamente por isso que estou pedindo. Se eu não ouvir de você, olhando nos meus olhos, uma parte minha continuará inventando histórias. E eu não quero mais viver de invenções.
Há algo novo na voz dela. Não é desespero. É lucidez conquistada com dor.
— Onde você está? — pergunta Dante.
— Em São Paulo. No mesmo lugar de sempre — responde ela. — Não preciso de muito tempo. Só da verdade, sem atalhos.
Dante respira fundo. Ele entende, talvez melhor do que gostaria, o que ela pede. Não é presença. É delimitação.
— Amanhã, às dez — diz ele. — Um café público. Sem seguranças por perto. Trinta minutos.
— Trinta são suficientes — responde Izi. — Obrigada por não fugir.
— Não é fuga — corrige Dante. — É responsabilidade. E dessa vez, com limites.
— É tudo o que eu preciso — diz ela, quase serena. — Até amanhã.
A ligação se encerra.
Dante permanece sentado, o telefone agora pousado ao lado. Não há ansiedade, tampouco arrependimento. Apenas a consciência de que alguns vínculos não se encerram com silêncio, mas com presença controlada.
Ele se levanta, caminha até o quarto e observa Amanda dormindo tranquilamente. Ali está o futuro que escolheu sustentar.
O encontro de amanhã não ameaça isso.
Ao contrário — é o que garante que nada fique em aberto para assombrar o que vem depois.
Dante pega o telefone novamente. Não liga. Escreve.
A mensagem é curta, direta, sem espaço para ambiguidades — como tudo o que ele decidira ser a partir dali:
“Lhe encontrarei no flat em que sempre nos encontrávamos.”
Ele observa a tela por alguns segundos antes de bloquear o aparelho. Não há tremor nas mãos, mas há peso na decisão. O local não é escolhido por conforto ou nostalgia, e sim por coerência: ali tudo começara, e ali deveria terminar — sem ruídos externos, sem encenação, sem testemunhas.
Do outro lado, Izi lê a mensagem em silêncio. Não sorri, não chora. Apenas fecha os olhos, como quem se prepara para atravessar algo definitivo. O flat não representa um convite; representa um marco. Um espaço onde nenhuma palavra poderá ser confundida com promessa.
Ambos sabem: aquele encontro não será sobre o que viveram, mas sobre o que não continuará existindo. E isso, paradoxalmente, exige mais coragem do que qualquer aproximação.
Dante se levanta, olha mais uma vez para o quarto onde Amanda dorme, e entende — com uma clareza que antes não possuía — que encerrar Izi com verdade é uma forma de preservar o que agora ama.
Não haverá posse.
Não haverá retorno.
Haverá apenas a dignidade de um fim dito em voz alta.
Dante chega ao flat no horário exato. Não antecipa, não atrasa. Para ele, pontualidade ali não é formalidade — é respeito.
Ao abrir a porta, percebe que Izi já está lá. Não está sentada, nem andando. Está em pé, próxima à janela, olhando a cidade como quem tenta memorizar algo antes de perder. O ambiente é o mesmo de sempre, mas parece menor, mais silencioso, quase deslocado do tempo.
Ela se vira devagar quando percebe sua presença. Não há reprovação no olhar, tampouco súplica. Há lucidez — e isso o desarma mais do que qualquer cobrança.
— Você veio — diz ela, com uma serenidade que não combina com a tempestade que carrega por dentro.
— Eu prometi — responde Dante, fechando a porta atrás de si.
Por alguns segundos, nenhum dos dois fala. Não é constrangimento. É reconhecimento. Ali não existem mais papéis a serem representados. Não há jogo, nem domínio, nem desejo em disputa. Só duas pessoas que sabem exatamente o que aquele encontro significa.
Izi quebra o silêncio, sem rodeios:
— Eu precisava ouvir de você. Não por dúvida… — pausa breve — mas para que não reste espaço para esperança onde ela não deve existir.
Dante se aproxima apenas o suficiente para que suas palavras não precisem ser elevadas.
— O que existiu entre nós foi real. Justamente por isso, não posso permitir que continue como sombra do que sou hoje.
Ela inspira fundo. O corpo permanece firme, mas os olhos denunciam o impacto.
— Então é isso — diz, quase para si mesma. — Não sou descartada… sou encerrada.
Ele assente lentamente.
— Com respeito. Com verdade. E sem mentiras que a mantenham presa a algo que já não posso oferecer.
Izi fecha os olhos por um instante. Quando os abre, há dor — mas também algo raro: dignidade intacta.
— Obrigada por não me poupar — diz ela. — A dor dita claramente dói menos do que o silêncio.
Não há abraço. Não há toque. Qualquer gesto físico ali confundiria o que precisa ser definitivo. Eles apenas se olham uma última vez, longamente, como quem reconhece a importância do que foi — sem tentar prolongar.
Dante caminha até a porta. Antes de sair, diz:
— Cuide de você. De verdade.
Izi responde com um leve aceno de cabeça.
Izi o observa por alguns segundos a mais do que seria necessário, como quem confirma algo que já sabia antes mesmo de vê-lo.
— Você está diferente… — diz enfim. — Mais forte. Mais bronzeado. Mudou o corte do cabelo… e a barba está mais curta.
Dante não responde de imediato. Não por vaidade, mas porque entende o que aquela observação realmente carrega. Não é sobre aparência — é sobre transformação.
— Algumas mudanças acontecem quando a gente escolhe um caminho — responde, com a voz baixa. — Outras acontecem porque o caminho nos exige isso.
Izi esboça um sorriso breve, quase irônico, que não chega aos olhos.
— Então é verdade — diz ela. — Você seguiu em frente. Não apenas decidiu… você seguiu.
Ela se aproxima um passo, respeitando uma distância que antes jamais existiria entre eles. Observa-o como quem olha uma fotografia antiga comparada à pessoa real à sua frente.
— Não dói porque você mudou — completa. — Dói porque mudou por alguém.
Dante sustenta o olhar dela, sem negar.
— Sim.
O silêncio volta a se instalar, mas agora é outro. Não é mais o silêncio da expectativa, e sim o da aceitação difícil. Izi respira fundo, endireita os ombros, como se reorganizasse algo dentro de si.
— Fico aliviada — diz, por fim. — Se fosse o mesmo homem, eu ainda estaria presa. Mas esse… — faz um gesto leve com a mão — esse não me pertence mais. E talvez nunca tenha pertencido.
Ela dá um passo para trás, como quem devolve algo invisível ao lugar de origem.
— Vá — diz, com firmeza serena. — Vá inteiro. Não deixe partes suas espalhadas por histórias inacabadas.
Dante assente. Pela primeira vez desde que entrou ali, sente que não está indo embora deixando alguém para trás — mas permitindo que ambos sigam.
Izi se volta para a janela novamente. Ele caminha até a porta.
Dante a observa com atenção, sem pressa, como se quisesse gravar aquele instante.
— Você também mudou — diz com suavidade. — Está mais linda… o cabelo mais curto lhe cai muito bem.
Izi solta um riso curto, defensivo, quase automático.
— Engordei muito.
Dante nega com a cabeça, firme, sem hesitar um segundo sequer.
— Engano seu. Você está com o corpo perfeito.
Ela o encara, surpresa não pelo elogio, mas pelo tom. Não há desejo, nem posse. Há verdade. E isso a desarma mais do que qualquer aproximação física jamais faria.
— Perfeito para quem? — pergunta, tentando manter a ironia.
— Para você — responde ele. — Para a mulher que sobreviveu, que mudou, que aprendeu a habitar o próprio corpo sem pedir licença.
Izi engole em seco. O comentário toca um ponto sensível, quase íntimo demais.
— Você sempre soube dizer as coisas certas… — murmura.
— Não — Dante corrige, com delicadeza. — Eu só aprendi a dizer quando não queria nada em troca.
Ela abaixa o olhar por um instante, respira fundo e volta a encará-lo, agora com um brilho diferente nos olhos — não de esperança, mas de reconhecimento.
— Obrigada — diz apenas.
E naquele agradecimento cabe tudo: o que foi vivido, o que doeu, o que não será retomado. Não há mais disputa entre passado e presente. Apenas dois adultos encerrando um capítulo com dignidade.
O silêncio que se segue não pesa. Ele liberta.
Dante: o que esta fazendo? Izi: tirando minha roupa. Pois você já me viu desnuda inúmeras vezes pode confirmar sua opinião se estou realmente bem.
Dante a observa sem se mover. Não há urgência no gesto dela, apenas uma decisão silenciosa.
— Izi… — diz com voz baixa. — Não é isso que estou fazendo aqui.
Ela para no meio do movimento, as mãos ainda segurando o tecido, e o encara.
— Então por que me chamou? — pergunta, sem desafio, apenas cansaço. — Você sempre soube exatamente o efeito que tem sobre mim.
Dante se aproxima um passo, mantendo a distância necessária para que as palavras cheguem antes de qualquer gesto.
— Justamente por isso. Porque, se eu permitir que você tire a roupa, tudo se confunde de novo. E eu não vim para confundir você… nem a mim.
Izi respira fundo. O gesto simples pesa mais do que qualquer nudez. Lentamente, deixa o vestido cair de volta ao lugar, não como derrota, mas como escolha.
— Você mudou — diz ela. — Antes, teria me parado com as mãos. Agora me para com a voz.
— Porque agora eu sei o que custa ir embora depois — responde ele. — E sei que você merece mais do que ser uma prova de saudade.
O olhar dela suaviza. Há dor, sim, mas também algo novo: compreensão.
— Então confirma sua opinião sem precisar me despir? — pergunta, quase num sussurro.
Dante sorri de leve, um sorriso triste e honesto.
— Confirmo. Você está bem. Inteira. E é exatamente por isso que preciso respeitar você… e seguir em frente.
O silêncio que se instala não é erótico nem vazio. É o som de duas pessoas aceitando que nem todo encontro precisa terminar em entrega para ser verdadeiro.
Izi: e se eu lhe fizer uma proposta... ou melhor um pedido, responda pensando em mim. Não quero que me delete, se não me quer como posse me tenha como amante.
Dante permanece em silêncio por alguns segundos. Não é indiferença — é cuidado. Ele a olha como quem mede o peso das próprias escolhas.
— Izi… — começa, com a voz firme, mas baixa — você sempre foi mais do que uma posse. Foi presença, foi impacto, foi verdade naquele momento da minha vida. Justamente por isso, não posso aceitar o que está me pedindo.
Ela sustenta o olhar, tentando não ceder.
— Não lhe apagar eu não apago — continua ele. — As pessoas que passam por nós de verdade não se apagam. Mas transformá-la em amante seria reduzir algo que foi inteiro a um intervalo escondido.
— Você escolheu alguém… — diz ela, mais como constatação do que acusação.
— Escolhi uma forma de estar no mundo que nunca consegui antes — responde. — E, pela primeira vez, isso inclui não possuir, não dividir, não negociar sentimentos.
Izi sente o impacto não como rejeição, mas como limite. E limites, ali, doem mais do que promessas vazias.
— Então é assim que termina? — pergunta.
— Não termina — ele diz com honestidade. — Se acomoda. Em outro lugar da memória. Sem mentira. Sem expectativa que machuca.
Ela fecha os olhos por um instante. Quando abre, há tristeza, mas também dignidade.
— Obrigada por não me usar para facilitar sua saudade — diz ela.
Dante inclina levemente a cabeça.
— Obrigado por ter me pedido a verdade, e não um disfarce.
Eles permanecem ali por mais alguns segundos. Não como amantes, não como passado — mas como duas pessoas que se reconheceram o suficiente para saber a hora de não atravessar uma linha.
Izi: só mais uma coisa: não tomemos decisões assim de imediato, vamos nos encontrar aqui na semana que vem e então decidiremos isso. eu não consigo me imaginar não estando em seu mundo Dante
Dante não responde de imediato. Ele caminha alguns passos pelo flat, como quem precisa de espaço para pensar, mas não para fugir. Quando volta a olhar para Izi, há algo novo em seu semblante: conflito real.
— Izi… — diz com suavidade — o que você está pedindo não é tempo. É esperança.
Ela engole em seco, mas não desvia o olhar.
— Não consigo simplesmente fechar uma porta como se nada tivesse existido — ela responde. — Eu vivi em seu mundo, Dante. Ele também me moldou. Me afastar assim, de uma vez, é como desaparecer de mim mesma.
Ele se aproxima, mas mantém a distância justa — aquela que respeita o que sente e o que decidiu.
— Eu entendo — diz. — E talvez por isso mesmo eu precise ser honesto agora, e não na semana que vem. Porque cada encontro adiado não é neutralidade… é prolongar uma dor que já começou.
— Você tem medo de me ver de novo? — ela pergunta, com a voz baixa.
— Tenho medo de não conseguir ser injusto comigo nem com você — responde. — E, sobretudo, de ser injusto com quem está ao meu lado hoje.
O silêncio pesa. Izi respira fundo, como quem aceita algo que não escolheu.
— Então eu continuo no seu mundo… — diz ela, quase sussurrando — mas não como antes.
— Continua — ele confirma. — Mas não no centro. E não como sombra. Em um lugar onde não precise implorar para existir.
Ela fecha os olhos por um instante. Quando os abre, há tristeza, mas também compreensão.
— Isso dói mais do que eu esperava — admite.
— Porque foi verdadeiro — Dante responde. — E o que é verdadeiro nunca sai sem deixar marca.
Eles não se tocam. Não se despedem com gestos. Apenas se olham, longamente, como quem entende que alguns vínculos não terminam — apenas mudam de forma, para que ninguém precise se perder completamente.
*
Izi foi, para Dante, aquilo que ele não planejou sentir.
Não foi posse, nem jogo, nem domínio. Izi foi espelho.
Com ela, Dante não exercia poder — ele era confrontado por ele. Ela o via não como mito ou salvador, mas como homem. E isso o desarmava.
Izi representou o limite emocional de Dante:
o ponto em que o controle já não protegia,
onde o prazer deixava de ser estratégia
e o vínculo passava a ter risco real.
Ela foi desejo, mas também foi culpa.
Foi saudade antes mesmo de ir embora.
Foi a mulher que ele precisou afastar justamente porque poderia ficar.
Enquanto muitas orbitavam Dante por dependência, Izi caminhava ao lado — e isso mudava tudo. Com ela, ele percebeu que não queria ser dono… mas também não sabia ainda como apenas ser.
Por isso, Izi não foi um capítulo.
Foi uma marca silenciosa:
a lembrança viva de quem ele era antes de escolher ser outro.
Se não fosse Amanda, Izi teria sido o destino emocional de Dante.
Izi não seria uma substituição, nem uma continuação do que ele já foi com outras mulheres. Ela teria sido a primeira relação não construída sobre poder, mas sobre escolha mútua — ainda que imperfeita.
Sem Amanda, Izi ocuparia o lugar da mulher que o ensinaria a permanecer.
Não como posse, não como fuga, mas como presença constante, exigente e viva.
Ela seria:
•        a mulher que não precisaria ser salva,
•        que não se ofereceria como moeda,
•        que o desejaria sem se anular,
•        e que o confrontaria quando ele tentasse dominar em vez de sentir.
Com Izi, Dante aprenderia o amor pela resistência, não pela entrega fácil.
Ela o faria errar, voltar atrás, hesitar.
E isso seria novo para ele.
Amanda, porém, representou algo diferente:
a paz depois da guerra interna,
o acolhimento onde não há jogo,
o amor que não exige provas.
Por isso, se Amanda não existisse, Izi não seria apenas “a que ficou”.
Ela seria a mulher que o transformaria lentamente, talvez com mais dor, mais conflitos — mas com a mesma profundidade.
Amanda foi a escolha consciente.
Izi teria sido o amor inevitável.
E Dante sabe disso.
É exatamente por isso que precisou deixá-la ir.
*
Dante chega antes do entardecer terminar. A casa ainda está silenciosa, como se aguardasse. Toma um banho demorado, não para limpar o corpo, mas para aquietar a mente. Deixa a água correr enquanto as imagens do dia insistem em voltar — Izi, Amanda, escolhas que não admitem retorno simples.
Depois, veste algo leve e vai para a varanda. Não se senta em cadeira alguma. Prefere o chão frio, as costas apoiadas na parede, os pés descalços. O mar à frente é amplo, constante, indiferente aos conflitos humanos. Hero se aproxima e se deita ao seu lado, encostando o corpo no dele, em silêncio absoluto, como se entendesse que aquele era um momento sem palavras.
Dante passa a mão distraidamente pelo pelo branco do labrador. O gesto é automático, quase infantil. Pela primeira vez em muito tempo, ele não está calculando, decidindo, controlando. Apenas está.
Ali, olhando o horizonte, percebe algo simples e desconcertante:
o poder que sempre dominou sua vida não lhe faz falta naquele instante.
O que pesa agora não é a ausência de Izi, nem o medo de escolhas erradas — é a responsabilidade de ter escolhido ficar.
Ele respira fundo. O mar responde com um som contínuo, quase um consolo.
Amanda ainda não chegou, mas Dante já sente que, quando ela atravessar aquela porta, não encontrará o homem que partiu pela manhã — e sim alguém mais silencioso, mais inteiro, talvez finalmente disposto a apenas pertencer, não possuir.
Hero suspira ao seu lado.
E, por alguns minutos raros, Dante permite que o mundo siga sem que ele precise comandá-lo.
Amanda para ao vê-lo sentado no chão da varanda, o olhar perdido no mar, Hero encostado a ele como um guardião silencioso. Não era uma cena comum. Havia ali uma quietude densa, diferente.
— Aconteceu alguma coisa? — pergunta, com cuidado, como quem pisa em terreno sensível.
Dante levanta o olhar devagar. Não sorri de imediato. Faz um gesto para que ela se aproxime e se sente ao lado dele. Quando começa a falar, não há teatralidade, apenas verdade.
Ele conta tudo.
A ligação insistente.
O encontro no flat.
O pedido de Izi.
A dificuldade em ser definitivo sem ser cruel.
E, sobretudo, o que sentiu ao perceber que ainda era capaz de afetar profundamente alguém — e o peso ético disso.
Amanda ouve em silêncio absoluto. Não interrompe, não reage impulsivamente. Apenas escuta, com os olhos atentos e o corpo levemente inclinado em direção a ele.
Quando Dante termina, o mar continua o mesmo. O silêncio também. Mas agora é compartilhado.
— Obrigada por me contar — ela diz, por fim. A voz é firme, não ferida. — Não pelo que aconteceu… mas por não esconder.
Ela respira fundo antes de continuar:
— Eu não tenho medo do seu passado, Dante. Tenho medo apenas de não ser suficiente para o seu presente. E hoje você me mostrou que escolheu estar aqui.
Ele abaixa a cabeça por um instante, como quem aceita um julgamento justo.
— Eu escolhi — responde. — E não foi fácil. Justamente porque foi verdadeiro.
Amanda estende a mão e toca a dele. Não para assegurar posse, mas para afirmar presença.
— Então fica — diz, com um meio sorriso. — Não como quem renuncia ao mundo, mas como quem encontrou um lugar para voltar.
Dante aperta a mão dela. Hero se levanta e deita a cabeça sobre os dois, quebrando a solenidade do momento.
Na varanda, diante do mar, não há vencedores nem perdas.
Há apenas duas pessoas que decidiram seguir adiante — conscientes de que amar, naquele nível, exige coragem diária.
Amanda se levanta primeiro e estende a mão para ele, não como convite, mas como cuidado.
— Venha, Dante — diz com doçura firme. — Não quero lhe deixar aqui sozinho.
Ele aceita a mão sem hesitar. O gesto é simples, mas carrega algo que antes lhe era estranho: não é condução, é amparo. Enquanto sobem, Dante percebe que, pela primeira vez em muito tempo, não está sendo seguido nem desejado — está sendo acolhido.
No quarto, a luz é suave. Amanda não fala mais nada. Apenas o envolve num abraço longo, silencioso, desses que não pedem explicações nem promessas. Ela encosta a cabeça em seu peito, escuta o ritmo da respiração dele, ainda irregular, ainda marcada pelo dia.
— Você não precisa ser forte aqui — ela diz baixo. — Nem dono. Nem resposta.
Dante fecha os olhos. O peso que carregava no corpo começa, enfim, a ceder. Ele a abraça de volta, não com urgência, mas com presença. Sente algo que jamais sentira com nenhuma outra mulher: a permissão de descansar emocionalmente sem perder quem é.
***
CONTINUA....

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Ficha do conto

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hunsaker

Nome do conto:
. 4.5 - O DONO

Codigo do conto:
252246

Categoria:
Heterosexual

Data da Publicação:
15/01/2026

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