ANALISANDO OS CASOS — A DISSOLUÇÃO DO OLHAR DE DANTE

Em determinado ponto da narrativa, Dante já não sabe definir com clareza nem sua visão pessoal, nem sua visão sexual em relação às suas posses. O que antes era sistema torna-se ruído; o que antes era método começa a falhar.
No início, tudo era organizado. As relações obedeciam a funções: contenção, reparação, uso, distância. Cada mulher ocupava um lugar compreensível dentro de um arranjo que lhe permitia circular sem se implicar demais. Dante não confundia desejo com afeto, nem posse com permanência. O controle era seu idioma.
Mas o acúmulo de casos produziu um efeito inesperado: a saturação do olhar.
Ao lidar com tantas narrativas femininas — submissão, idealização, dependência, autonomia ferida, desejo de pertencimento — Dante passou a perder a nitidez das categorias que criara. As posses deixaram de ser apenas posições; passaram a carregar histórias, expectativas e ecos que atravessavam suas defesas.
O problema não foi o envolvimento com uma mulher específica.
Foi o conjunto.
Cada caso exigia uma resposta distinta, e Dante, que sempre se orientara pela função, começou a perceber fissuras entre o que oferecia e o que era recebido. Algumas mulheres confundiam contenção com amor. Outras transformavam a posse em identidade. Outras ainda aceitavam o jogo sem pedir nada — e isso o desorganizava ainda mais.
A sexualidade de Dante, antes instrumental e clara, tornou-se ambígua. Já não sabia se desejava, se respondia, ou se apenas mantinha o funcionamento do sistema por inércia. O prazer deixou de ser bússola; passou a ser consequência irregular.
Do ponto de vista clinico, Dante entra numa zona crítica:
ele já não domina totalmente o que criou,
nem consegue abandoná-lo sem perder a si mesmo.
As posses, antes espelhos controláveis, passaram a refletir algo que ele evitara encarar: a própria fragmentação. Cada mulher devolvia uma imagem diferente de quem ele era — dominador, salvador, organizador, ausente, objeto de idealização — e nenhuma delas coincidia plenamente.
Essa multiplicidade corroeu sua narrativa interna.
Dante não perdeu o poder.
Perdeu a coerência simbólica.
E quando alguém deixa de saber se exerce domínio por desejo, por hábito ou por medo do vazio, a estrutura que sustenta tudo começa a vacilar. O risco não está em amar — está em continuar funcionando sem saber por quê.
Clinicamente, este é o ponto de inflexão do caso.
Dante já não é apenas o eixo dos casos.
Ele se torna um caso entre eles.
A pergunta que se impõe não é mais
quem são suas posses?
mas
o que resta de Dante quando o sistema deixa de explicá-lo?
E essa pergunta — ainda sem resposta —
é o verdadeiro núcleo do caso.
Quando Dante levou essa confusão à consulta, não buscava absolvição nem método novo. Buscava um limite — qualquer um.
Falou da perda de nitidez, da sensação de estar repetindo gestos sem reconhecer mais o impulso que os sustentava. Falou do cansaço de administrar vínculos que já não sabia nomear. Falou, sobretudo, do medo de estar funcionando por hábito.
O médico ouviu em silêncio. Não fez perguntas longas. Não interpretou em excesso.
Quando respondeu, foi direto:
— Você precisa sair do cenário que organiza tudo isso.
Dante ergueu os olhos.
— Viaje — continuou o médico. — Não para buscar respostas, mas para suspender estímulos. Afaste-se. Abstenha-se. Sem contatos, sem jogos, sem posições a sustentar. Apenas tempo e deslocamento.
Houve um breve incômodo.
— A abstinência não é punição — acrescentou. — É método. Sem ela, você só reorganiza o mesmo sistema com nomes.
Dante fez a viagem sem avisar ninguém.
Não houve despedidas, nem explicações preventivas, nem mensagens programadas. Ele simplesmente saiu do circuito. Cancelou compromissos, desligou aparelhos, deixou chaves e acessos onde sempre estiveram — como se nada precisasse ser encerrado formalmente para, de fato, cessar.
Foram quarenta e cinco dias.
O destino não importava. Não era fuga geográfica, mas suspensão de função. Pela primeira vez em muito tempo, Dante não ocupava posição alguma. Não organizava, não respondia, não sustentava expectativas. Não era dono, nem referência, nem ausência estratégica. Era apenas alguém deslocado de si mesmo.
Nos primeiros dias, o corpo reagiu. Havia inquietação, impulsos automáticos, uma necessidade quase física de verificar, de intervir, de saber se algo estava funcionando sem ele. Resistiu. A abstinência exigia isso: não confirmar a própria importância.
Depois, veio o silêncio real.
Sem histórias alheias para administrar, Dante começou a ouvir o próprio ruído interno. Percebeu o quanto sua identidade havia se construído na reação do outro. Sem espelhos, restava um contorno impreciso — desconfortável, mas honesto.
Os dias passaram a ter outra textura. Caminhadas longas, refeições simples, noites sem narrativa. O desejo não desapareceu, mas perdeu urgência. Tornou-se pensamento, não comando. Pela primeira vez, Dante pôde observar o impulso sem transformá-lo em gesto.
Em algum ponto da viagem, compreendeu algo essencial:
ele não sentia falta das pessoas —
sentia falta da função que exercia nelas.
Essa constatação não trouxe alívio imediato. Trouxe luto.
Ao final dos quarenta e cinco dias, Dante não retornou transformado no sentido espetacular. Retornou mais delimitado. Sabia o que não queria manter. Sabia que não poderia voltar ao mesmo arranjo sem custo.
A viagem não lhe deu respostas definitivas.
Deu algo mais raro:
a possibilidade de escolher conscientemente o próximo passo.
E isso mudava tudo.
Dante retornou com uma certeza e uma dúvida.
A certeza era silenciosa, quase corporal: não poderia retomar o que existia antes. O sistema que criara — eficiente, organizado, funcional — já não se sustentava sem custo psíquico. Continuar significaria repetir gestos vazios, administrar vínculos por inércia, transformar pessoas em procedimentos. Isso ele não aceitaria mais.
A dúvida era mais incômoda.
Ele ainda não sabia o que colocar no lugar.
Durante os quarenta e cinco dias, aprendera a reconhecer o impulso sem obedecê-lo. Aprendera que o desejo não desaparece quando não é exercido — apenas se revela em sua forma mais crua. O problema não era desejar. Era precisar desejar para existir.
Ao voltar, Dante percebeu que não sentia urgência. O telefone permanecia desligado por mais tempo do que antes. As mensagens, quando lidas, não exigiam resposta imediata. A ausência deixara de ser estratégia; tornara-se escolha.
A certeza dizia:
não serei mais eixo de múltiplas narrativas.
A dúvida perguntava:
sou capaz de sustentar apenas uma — inclusive a minha?
Ele compreendeu que reduzir não significava empobrecer. Significava assumir consequência. Mas ainda não sabia se estava pronto para aceitar o que isso implicava: perda de alcance, de poder simbólico, de multiplicidade.
Pela primeira vez, Dante não se via como organizador do desejo alheio. Via-se como alguém que precisava decidir onde permanecer.
A viagem lhe ensinara a parar.
O retorno lhe exigia escolher.
E essa escolha — diferente de todas as outras —
não poderia ser adiada, nem distribuída, nem compensada.
Ela teria nome.
Ou não seria feita.
A certeza já estava posta.
A dúvida ainda respirava.
E entre as duas,
Dante começava, enfim, a existir.
A certeza tinha nome: Amanda.
Dante a queria definitivamente. Não como escolha entre outras, mas como única. Com ela, não havia sistema a manter, nem funções a administrar. Havia permanência — e ele estava pronto para sustentá-la.
A dúvida também tinha nome: Izi.
Não por desejo, mas por responsabilidade. Izi era o vestígio de um vínculo que ele ajudara a construir e depois suspendera. Dante não sabia como encerrá-lo sem repetir a violência do abandono nem reativar a dependência que decidira extinguir. A dúvida não era afetiva; era ética.
Quanto às outras, a decisão foi clara: seriam deletadas.
Não por desprezo, mas por necessidade de corte. Mantê-las seria manter o sistema vivo. E o sistema já não lhe servia — nem a elas.
Dante compreendeu, enfim, que escolher Amanda exigia renunciar ao resto.
E que lidar com Izi exigiria tempo, limite e verdade.
O mais difícil não foi escolher quem ficar.
Foi aceitar quem não poderia mais permanecer.
E, pela primeira vez,
Dante não adiou o corte.

FIM DA TERCEIRA PARTE.


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Ficha do conto

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Nome do conto:
ANALISANDO OS CASOS — A DISSOLUÇÃO DO OLHAR DE DANTE

Codigo do conto:
251763

Categoria:
Heterosexual

Data da Publicação:
11/01/2026

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