Ao chegar em casa Dante encontra Amanda de banho tomado arrumando a mesa da varanda externa. Amanda diz: - Estou lhe esperando para lancharmos, tome logo seu banho. Dante corre para o banheiro. Dante sorri ao vê-la ali, já de banho tomado, leve, ocupando a varanda como se aquele espaço sempre tivesse sido dela. A mesa posta, o cheiro de café e pão quente misturado à brisa do mar criam uma cena doméstica que ainda o surpreende. — Já estou indo — responde, com um tom quase juvenil. Ele entra no banheiro apressado, como se temesse que aquele momento pudesse escapar. A água cai sobre seus ombros e, pela primeira vez em muito tempo, não há urgência em seus pensamentos — apenas a imagem de Amanda esperando, não exigindo, apenas presente. Quando volta, de cabelos ainda úmidos, ela o olha com um sorriso simples, desses que não pedem nada além de partilha. Sentam-se lado a lado. Não falam de trabalho, nem do passado, nem de decisões difíceis. Falam do sabor do café, do vento que mudou de direção, de Hero que dorme esticado perto da porta. E Dante percebe, com uma clareza silenciosa, que aquilo — o lanche na varanda, o banho apressado, o “estou te esperando” — é mais íntimo do que qualquer intensidade que já viveu. Não há espetáculo ali. Há vida acontecendo. Amanda se sente em casa — e isso a surpreende mais do que qualquer paixão. Há nela uma calma nova, quase delicada, que não nasce da ausência de medo, mas da confiança de que não precisa mais disputar espaço. Enquanto arruma a mesa e o espera, ela não está ansiosa, nem vigilante. Está inteira. Presente. Ela se sente escolhida sem ser exigida. Amada sem ser cobrada. Desejada sem ser reduzida a desejo. Ao vê-lo correr para o banho porque ela o chamou, Amanda percebe algo simples e profundo: Dante não foge mais do cotidiano. Ele volta para ele. E isso a faz sentir uma segurança que não vem de promessas, mas de gestos pequenos e repetidos. Há alegria nela, sim — mas uma alegria madura, silenciosa. Há também um leve assombro: nunca imaginou que amar pudesse ser assim, sem vertigem constante, sem guerra interna. Amanda se sente mulher, companheira, abrigo. Não troféu. Não exceção provisória. E, enquanto o espera na varanda, com o mar à frente e a mesa posta, ela entende que aquele momento banal é, na verdade, extraordinário: ela não está vivendo um sonho — está vivendo uma vida compartilhada. Dante espera silêncio interior. Não o silêncio da ausência de som, mas aquele em que nada o puxa, nada o exige, nada o fragmenta. Ao correr para o banho porque Amanda o chama, ele não o faz por obrigação ou urgência — faz porque quer voltar para aquele espaço onde não precisa ser personagem. Dante espera um momento simples, quase banal: sentar, comer algo leve, ouvir a voz dela, sentir o vento da varanda. E justamente por isso, espera algo raro para alguém como ele: descanso. Ele não espera confronto, nem explicações, nem pedidos. Não espera ser interrogado sobre quem foi ou quem poderia voltar a ser. O que ele espera é ser aceito no presente, como está naquele dia, naquele corpo, naquela história já cheia de sombras. Há também uma expectativa mais profunda, que ele talvez não formule em palavras: Dante espera que aquele instante confirme que é possível viver sem possuir, sem dominar, sem conduzir tudo. Que pode existir ao lado, e não acima. No fundo, Dante espera sentir algo que nunca foi seu território natural: permanência. Não como prisão. Mas como escolha renovada. E ao sair do banho, ele não volta apenas para a mesa posta — volta para a possibilidade de ser inteiro com uma única mulher, sem perder a si mesmo. Amanda quer dizer algo que ainda não encontrou forma definitiva — não por medo, mas porque é grande demais para ser dito de qualquer jeito. Ela quer dizer que sabe. Não de detalhes, não de nomes, não de histórias passadas — mas sabe quem ele é, com tudo o que isso carrega. Quer dizer que não está ingênua, nem iludida, nem cega. Está ali consciente. Ela quer dizer que o escolhe. Não apesar do que ele foi, mas sabendo do que ele foi. E isso é diferente de perdão ou concessão: é decisão. Há também algo mais delicado: Amanda quer dizer que não quer disputar fantasmas. Que não quer ser a mulher que vigia, cobra ou se compara. Quer ser a mulher que permanece porque é presença suficiente. Talvez queira dizer, sem usar essas palavras, que o ama de um jeito que não exige exclusividade como posse, mas lealdade como vínculo. Que não precisa ser a única mulher que passou por ele — precisa ser a mulher com quem ele fica quando tudo silencia. E no fundo, o que Amanda mais quer dizer é simples e assustador ao mesmo tempo: “Eu estou aqui. Inteira. Se você ficar, fique assim também.” Ela arrumou a mesa, tomou banho, esperou. Esses gestos dizem antes da fala: não é um acerto de contas que vem — é um convite à verdade. Dante: Vamos ter um filho? A pergunta cai entre eles como algo vivo. Não é leve, nem impulsiva — é densa. Dante não pergunta para preencher um silêncio; pergunta porque algo nele já mudou. Um filho, ali, não é continuidade biológica apenas. É âncora, é permanência, é aceitar que o futuro não será mais só um território de passagem. Amanda não responde de imediato. Ela sente o peso e a beleza da pergunta ao mesmo tempo. Um filho significaria mais do que formar uma família: significaria inscrever Dante no mundo comum, onde há rotina, fragilidade, espera, noites mal dormidas e um amor que não depende de desejo ou poder. Um amor que exige presença constante. Ela o olha e entende que aquela pergunta não vem do homem que possuía, controlava ou se movia acima dos outros — vem do homem que quer ficar. Talvez Amanda pense, antes de falar, que um filho não o prenderia a ela… mas o prenderia a si mesmo, à parte mais humana que ele sempre manteve à distância. E se responde, responde com a mesma honestidade com que arrumou a mesa e o esperou: Não como quem promete. Não como quem teme. Mas como quem diz, com o olhar antes das palavras: — Se for para trazer alguém ao mundo, que seja a partir da verdade. A nossa. Amanda não se manifesta com euforia nem com frases grandiosas. Ela o faz com serenidade, que é a forma mais profunda de um sim. Primeiro, aproxima-se. Não para encurtar distância física, mas para habitar o mesmo espaço emocional. Toca o rosto de Dante com cuidado — não como quem pede, mas como quem reconhece. Ela respira fundo. Não por dúvida, mas porque sabe que aquela resposta não pode ser leve. Então diz, em tom firme e doce ao mesmo tempo: — Eu penso nisso há mais tempo do que você imagina. Há um sorriso contido, quase tímido. Não o sorriso da fantasia, mas o da aceitação madura. Amanda não fala de sonhos idealizados; fala de disposição. — Não como um projeto… mas como uma consequência. — Se um filho vier, que venha porque somos verdadeiros um com o outro. Porque escolhemos ficar. Todos os dias. Ela não promete facilidade. Não romantiza. Mas se coloca inteira. E o gesto final é o mais revelador: Amanda encosta a testa na dele, fecha os olhos por um instante e completa: — Eu não teria medo. Com você, eu não teria medo. Esse é o sim de Amanda. Não dito como concessão. Mas como aliança. Marcarei uma consulta no centro de fertilização. Dante diz e lhe abraça. Beijando seu rosto. E iniciam o lanche falando pouco. O abraço de Dante não é apressado. Ele a envolve como quem assume algo — não apenas a decisão, mas o peso e a beleza dela. O beijo em seu rosto é breve, quase reverente, como se aquele gesto fosse mais importante do que qualquer palavra. Amanda encosta a cabeça em seu peito por um instante maior do que o necessário. Ali, ela escuta o coração dele, e isso a tranquiliza mais do que qualquer promessa. Sentam-se para o lanche. A mesa está simples, cuidadosamente posta. O mar à frente permanece o mesmo, mas eles não são. O silêncio que se instala não é constrangedor; é um silêncio cheio, amadurecido, onde não há urgência de preencher espaços com palavras. Amanda observa Dante enquanto ele come. Há algo diferente em seu olhar — não o homem que controla, que prevê, que domina situações, mas alguém que projeta o futuro sem saber exatamente como será. E isso, curiosamente, o torna mais humano. Dante, por sua vez, a observa de forma quase distraída, como se estivesse tentando memorizar aquele momento específico: a luz do fim de tarde, o jeito como ela segura a xícara, a calma que existe entre eles. Ele não diz nada, mas pensa que nunca havia chegado tão longe sem sentir necessidade de fugir. Amanda rompe o silêncio apenas uma vez, em voz baixa, quase casual: — Independentemente de qualquer resultado… obrigada por me escolher. Dante não responde com palavras. Apenas estende a mão sobre a mesa e entrelaça os dedos aos dela. E ali, naquele lanche simples, falado em poucas frases e muitos pensamentos, nasce algo silencioso e poderoso: não a ideia de um filho apenas, mas a confirmação de que já eram uma família em formação, mesmo antes de qualquer confirmação médica. Amanda está se sentindo inteira — e isso é novo. Não é a euforia de quem conquista algo, nem a ansiedade de quem espera garantias. O que existe nela é uma calma profunda, quase solene, como se tivesse finalmente pousado depois de uma vida inteira em movimento. Há amor, sim, mas não aquele amor inquieto que pede provas. É um amor seguro, que não disputa espaço com o medo. Pela primeira vez, Amanda não sente que precisa vigiar Dante, decifrá-lo ou se proteger dele. Ela o sente ao lado, não acima, não à frente. Dentro dela convivem emoções sutis: • Uma alegria contida, porque o que desejou começou a ganhar forma. • Um receio silencioso, não de perdê-lo, mas de não estar à altura da grandeza do que estão construindo. • Um orgulho sereno, por ter sido escolhida não como posse, mas como permanência. • Uma vulnerabilidade doce, aquela que só surge quando se aceita depender — não por fraqueza, mas por confiança. Amanda também se percebe diferente de todas as outras mulheres que passaram pela vida de Dante. Não sente inveja delas. Não sente competição. Há nela uma compreensão íntima de que o lugar que ocupa não poderia ser ocupado por ninguém mais, porque não foi conquistado — foi reconhecido. Enquanto o observa, ela pensa, sem formular em palavras: Se nada mais der certo, este momento já valeu a vida inteira. E isso a faz sorrir suavemente, com os olhos um pouco marejados, não de dúvida, mas de plenitude. Dante não se declara com pressa, nem com grandiloquência. Ele o faz como quem finalmente abaixa as armas. Ele a olha por alguns segundos em silêncio — não para escolher palavras, mas porque o que sente já não cabe nelas. Então se aproxima, segura o rosto de Amanda com as duas mãos, encostando a testa na dela, como se precisasse ancorar aquele instante. A voz sai baixa, firme, sem hesitação: — Eu passei a vida inteira achando que amar era controlar… proteger… decidir pelos outros. Achei que isso me fazia forte. Ele respira fundo. — Com você, eu descobri outra coisa. Descobri que força é permanecer. É escolher todos os dias. É aceitar não ser dono de nada — nem de você, nem do futuro — e ainda assim ficar. Dante afasta o rosto só o suficiente para olhá-la nos olhos. — Eu não quero te salvar, Amanda. Não quero te moldar, nem te conduzir. Eu quero andar ao seu lado. Quero errar com você, aprender com você, envelhecer com você. Quero ser o homem que volta para casa porque é ali que faz sentido estar. Há algo quase vulnerável — raro nele. — Se um dia você for embora, eu sobreviverei. Mas se ficar… — ele sorri de leve — eu serei inteiro. Pela primeira vez. Por fim, encosta a mão sobre o ventre dela, não como promessa, mas como esperança. — Eu te escolho. Não por necessidade, não por carência, não por desejo. Eu te escolho porque, quando estou com você, não preciso ser mais nada além de quem sou. E então, pela primeira vez em sua vida, Dante não pede nada. Apenas espera. Amanda se perde em um choro intenso porque, naquele instante, tudo o que ela foi aprendendo a suportar deixa de ser necessário. Ela chora porque passou a vida inteira acreditando que amor vinha acompanhado de medo: medo de não ser suficiente, de ser trocada, de ser apenas mais uma. Com Dante, ela entrou preparada para resistir, para se proteger, para não se entregar — e, ainda assim, foi sendo desarmada pouco a pouco. Quando ele se declara, não como dono, não como salvador, mas como homem que escolhe permanecer, algo dentro dela finalmente descansa. Ela chora porque: • nunca tinha sido escolhida sem condições; • nunca tinha sido amada sem precisar provar valor; • nunca tinha sido vista sem ser medida, comparada ou disputada; • nunca tinha sido desejada junto com respeito. O choro vem também do medo que se desfaz. Do peso que cai. Da vigilância constante que ela carregou a vida inteira e que, pela primeira vez, não é mais necessária. Ela chora porque entende, de forma dolorosamente bela, que não precisa mais lutar para ficar. Que não está sendo tolerada. Que não é um intervalo na vida de alguém. Amanda chora porque, ao ouvir Dante, percebe que não está diante de um homem que pode ir embora a qualquer momento — mas de alguém que já chegou. E naquele choro não há fragilidade. Há alívio. Há reconhecimento. Há amor finalmente seguro. Eles se abraçam em silêncio, um abraço longo, inteiro, daqueles que não pedem nada além de presença. Não há urgência, não há ansiedade — apenas a confirmação mútua de que aquele gesto basta. Sobem para o quarto lado a lado. O caminho parece diferente, como se a casa tivesse se reorganizado em torno deles. Não é um quarto de encontros, nem de expectativas; é um lugar de repouso. Amanda caminha sentindo o corpo leve, ainda com o coração acelerado, mas agora aquecido. Dante, por sua vez, carrega uma serenidade rara — não a de quem venceu, mas a de quem finalmente escolheu ficar. No quarto, a luz é suave. Eles se deitam juntos, sem pressa, sem palavras grandes. O silêncio ali não é vazio: é cúmplice. Um silêncio que guarda promessas que não precisam ser ditas. E pela primeira vez, ambos se deitam não pensando no que podem fazer, mas no que já encontraram. * CONTINUA....
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