. AS PACIENTES E O SIMBOLO DE POSSE - COMO ENTENDER TUDO ISSO.

O neuropsiquiatra anotou isso no prontuário e, pela primeira vez, percebeu que a frase dizia mais sobre ele do que sobre os pacientes.
Não era a incoerência dos relatos que o inquietava — era a coerência emocional. As histórias mudavam de forma, nomes e contextos variavam, mas o impacto psíquico era sempre o mesmo: vínculos assimétricos, gratidão misturada a medo, alívio acompanhado de culpa, e uma estranha sensação de “ter sido escolhida”.
Ele já os classificara como delírios, depois como fantasias defensivas, depois como construções simbólicas para suportar traumas reais. Agora, hesitava.
Porque delírios costumam se desfazer sob confronto clínico.
E aquelas narrativas resistiam.
O que mais o perturbava não era a figura central — quase mítica — que surgia nos relatos, mas o efeito duradouro nas pacientes: muitos melhoravam funcionalmente, retomavam projetos, reorganizavam a vida. Não como quem é salvo, mas como quem é reposicionado.
Ele fechou o caderno com um incômodo honesto:
Talvez não estivesse diante de um único diagnóstico,
mas de um fenômeno relacional raro,
onde poder, cuidado e dependência se entrelaçavam de um modo que a psiquiatria clássica ainda não sabia nomear.
E isso o obrigava a aceitar a hipótese mais desconfortável de todas:
Talvez suas pacientes não estivessem inventando histórias.
Talvez estivessem apenas tentando, cada um à sua maneira, explicar algo que ainda não entendiam — mas que as havia mudado para sempre.
Dante estabelecia uma divisão clara — ainda que inconsciente — entre uso, cuidado e respeito.
Com a maioria, havia o jogo do prazer como expressão de poder e controle. Não necessariamente por crueldade, mas porque essas mulheres chegavam até ele já dispostas a ocupar esse lugar. Dante lhes oferecia algo em troca: segurança, proteção, a sensação inédita de serem conduzidas sem serem abandonadas. Ao atender desejos e fantasias que elas mesmas jamais haviam nomeado, ele lhes devolvia uma forma de autonomia paradoxal — realizavam-se justamente porque alguém sustentava o risco por elas.
Com Amanda e Iza, porém, algo se recusava a seguir o mesmo roteiro.
Elas não eram terreno de experimentação.
Não eram espaços de descarga.
E, sobretudo, não eram substituíveis.
Amanda o desafiava intelectualmente; via além do gesto e entendia o sistema. Estar com ela exigia presença, não performance. Dante não a conduzia — dialogava. E isso o afastava do impulso de transformar a relação em mero instrumento de prazer.
Iza, por sua vez, o tocava em outro ponto ainda mais sensível: o da confiança sem cálculo. Ela não buscava fantasias, nem projeções. Buscava salvar alguém que amava — e aceitou ajuda sem se fragmentar. Dante não conseguia atravessar essa integridade sem sentir que, ali, qualquer uso seria uma violação de algo que ele próprio começava a valorizar.
No fundo, Dante ajudava todas.
Mas só com Amanda e Iza ele se continha.
E essa contenção dizia mais sobre ele do que qualquer excesso:
eram as únicas diante das quais ele não precisava provar poder —
porque, de formas diferentes, já o tinham desarmado.
Elas o procuravam em estado de urgência, já conscientes de que, no mundo que conheciam, o corpo era a única moeda aceita quando todas as outras falhavam. Vinham preparadas para serem avaliadas, usadas, descartadas — era o roteiro que a vida lhes havia ensinado. O que encontraram em Dante, porém, desorganizava essa lógica: seus corpos não eram tratados como pagamento, nem como dívida, mas como vida em risco, algo a ser preservado antes de qualquer troca. E essa inversão, silenciosa e profunda, produzia um efeito inesperado — pela primeira vez, muitas delas não se sentiam compradas, mas reconhecidas. Não como santas, nem como mercadoria, mas como pessoas que, apesar de tudo, ainda mereciam atravessar o mundo inteiras.
E era justamente essa conduta que concedia a Dante um poder de conquista imensurável. Não era sua boa aparência, nem sua riqueza, tampouco a posição que ocupava — tudo isso impressionava, mas não explicava a devoção. O que as fazia adorá-lo era o fato de que, ao se aproximarem esperando ser reduzidas ao corpo, encontravam alguém que as via inteiras. Dante não as desejava como quem consome uma moeda, mas como quem reconhece valor onde o próprio mundo havia ensinado a ver descarte. Essa inversão silenciosa — rara, quase subversiva — criava um vínculo profundo: não de submissão cega, mas de gratidão lúcida, nascida do encontro entre poder e humanidade.
E isso foi o que mais confundiu o neuropsiquiatra.
O que as mantinha no consultório não era o trauma clássico da violência ou da posse, mas algo muito mais difícil de enquadrar clinicamente: a angústia da ausência. A espera. A suspensão. A possibilidade do retorno.
Elas não relatavam pesadelos com o que havia acontecido, mas sonhos recorrentes com reencontros. Dormiam projetadas no dia seguinte. O som do telefone disparava o coração. Cada chamada não atendida virava uma narrativa interna. O corpo deixava de ser memória de dor e passava a ser território de expectativa — cuidado, adornado, observado. A tatuagem na virilha não era vivida como marca de submissão, mas como um símbolo de pertencimento psíquico, algo que as ancorava a uma história em que haviam sido vistas.
No consultório, não buscavam apagar o desejo.
Buscavam entendê-lo sem perdê-lo.
Falavam de ansiedade, insônia, distração — mas por trás disso havia outra pergunta, nunca formulada diretamente:
“Como voltar a ser quem eu era antes, se agora sei como é ser escolhida?”
O terapeuta percebeu então que não estava lidando apenas com dependência afetiva ou erotização do poder. Estava diante de um fenômeno mais sutil: a dificuldade de elaborar a experiência de ter sido reconhecida integralmente por alguém que, ao mesmo tempo, permanecia inacessível.
Não era o corpo que doía.
Era o vazio deixado pela interrupção do vínculo.
E talvez, concluiu ele com inquietação, o tratamento não fosse ensinar a esquecer Dante —
mas ajudar aquelas mulheres a suportar a ideia de que aquilo que viveram foi real, transformador,
e ainda assim não permanente.
Assim, estendi minha pesquisa.
Passei a ouvi-las de forma menos formal, fora do enquadre rígido do diagnóstico, permitindo que narrassem os novos momentos não como atos, mas como estados: o antes, o durante interno, o depois silencioso. Descobri que quase nada do que relatavam dizia respeito ao contato em si — e quase tudo dizia respeito ao tempo entre os encontros.
Falavam de mudanças sutis: a forma como caminhavam, como ocupavam espaços, como passaram a sustentar o olhar. Algumas relataram decisões práticas tomadas com mais firmeza; outras, um recolhimento introspectivo que não era depressivo, mas reflexivo. O que se repetia era a sensação de terem sido reposicionadas no mundo.
Percebi que Dante funcionava, para elas, como um marco psíquico. Não um objeto constante, mas um ponto de referência. Algo que havia acontecido e que, por isso mesmo, não precisava se repetir para continuar produzindo efeitos. O retorno não era necessariamente físico; era simbólico. Bastava a possibilidade.
Ao ouvi-las assim, compreendi que o fenômeno não era a erotização do poder, mas a internalização de um olhar. Elas passaram a se ver como alguém que podia ser escolhida, cuidada, levada a sério — e isso alterava a forma como se relacionavam com o resto da vida.
Minha escuta mudou.
Deixei de procurar sintomas e passei a mapear transformações.
E talvez o mais desconcertante tenha sido admitir que, em muitos casos, o sofrimento não vinha do vínculo com Dante, mas do choque entre quem elas haviam se tornado após a experiência e o mundo que insistia em tratá-las como antes.
Não estavam doentes por terem vivido aquilo.
Estavam em luto por ainda não saberem como viver depois.
***
CONTINUAREMOS COM A FASE II ...


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Nome do conto:
. AS PACIENTES E O SIMBOLO DE POSSE - COMO ENTENDER TUDO ISSO.

Codigo do conto:
251503

Categoria:
Heterosexual

Data da Publicação:
09/01/2026

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