. 14. O DONO - IZI VLACHOU (652.08)


. 14. O DONO - IZI VLACHOU (652.08)


O transplante cardíaco do pai de Izi fora um sucesso.
Quarenta e cinco dias de internação, vigilância constante, exames sucessivos. Quando recebeu alta, voltou para casa sob um sistema de Home Care rigoroso — enfermeiros, horários, protocolos. A vida havia retomado uma aparência de normalidade cuidadosamente monitorada.
Izi acreditava que aquela etapa estava encerrada.
Naquela quarta-feira, ao sair do trabalho e entrar na garagem do prédio, sentiu antes de ver. Uma presença fora do lugar. Um deslocamento no ar. Então percebeu.
Dante estava em pé ao lado do carro dela.
Não fazia nada além de observá-la.
O impulso foi imediato. Izi apressou o passo, quase correu em sua direção — o coração acelerado por uma mistura de alívio e urgência que não se deu ao trabalho de analisar.
Mas, ao se aproximar, algo mudou.
O corpo recuou antes da mente. Os passos desaceleraram. O rosto se recompôs. O olhar perdeu a intensidade. Izi ajustou o comportamento com a precisão de quem sabe exatamente onde está — e quem pode estar olhando.
Parou a uma distância socialmente aceitável.
— Oi — disse, em tom neutro demais para quem correra segundos antes.
Dante percebeu. Sempre percebia.
— Você parece diferente quando acredita que pode ser vista — comentou, sem ironia.
Izi sorriu, curto.
— Aqui não é lugar para conversa — respondeu. — As pessoas observam.
— E isso importa — disse ele, afirmando, não perguntando.
Ela assentiu levemente.
— Importa.
Houve um breve silêncio. Izi manteve as mãos ocupadas — a bolsa, a chave, o celular — qualquer coisa que justificasse não se aproximar mais.
— Meu pai está em casa agora — disse, como se prestasse contas. — Em recuperação.
— Eu sei — respondeu Dante.
Ela não perguntou como.
— Então você correu… — continuou ele — e depois lembrou quem é.
Izi respirou fundo.
— Não — corrigiu. — Lembrei onde estou.
Dante inclinou a cabeça, avaliando-a.
— Você aprendeu rápido — disse. — A dividir o que sente do que pode mostrar.
Izi o encarou por um instante mais longo do que pretendia. Depois deu um passo discreto para trás.
— Se precisar falar comigo — disse — não aqui.
Dante sorriu de leve.
— Eu não precisava falar — respondeu. — Só precisava que você me visse.
Dante não pergunta, porém abre a porta do carro e sem dizer nada ela entra.
- Eu tenho que ir para minha casa.
- Eu sei.
- Por favor, podemos marcar algum dia e hora, mas hoje preciso estar em casa.
- Eu sei.
- O que você sabe?
- Eu sei que você tem dormido com seu namorado diariamente em sua casa. E hoje ele está lhe esperando no trabalho para pegá-lo. Por isso veio com o carro dele.
Dante entra na garagem de um prédio para o carro, sai e abre a porta do carro para ela sair.
- Que lugar é este?
- Importar?
- Claro o que irá fazer comigo?
- Você esqueceu que me pertence? Que posso fazer contigo o que eu quiser, posso lhe comer ou fazer sexo ou amor ou lhe foder ou lhe penetrar pois a possuo desde aquele dia.
- Quer me comer, eu lhe dou, mas por favor pode ser outra hora. Hoje pode ser um dia muito importante em minha vida.
- Bem sei do que está falando. Hoje será pedida em casamento. Porém estão se aproveitando de sua instabilidade emocional para fazerem isso. Você não sabe na realidade quem esse Robson é. Se o que eu só quisesse fosse comer você, o teria feito do modo e na data que me interessasse. Mas o que eu quero é muito mais do que isso. Pegue um Uber e volte, pegue seu carro e se sujeite ao que quiser.
- Você não ira para de me ajudar, né? Meu pai precisa de tudo isso. Por favor.
- Quanto a isso não se preocupe.
Dante lhe vira as costa, fecha a porta e sai com seu carro. Izi fica pensando em tudo e principalmente na forma em que disse tudo aquilo. Ela pega o namorado e foram para casa, lá chegando após o jantar ele lhe oferece uma aliança lhe pedindo em casamento. Izi nega, alegando que não tem condições emocionais para isso.
O que realmente a paralisava não era Dante.
Era a possibilidade de perdê-lo.
Desde o transplante, tudo em sua vida passara a girar em torno de estabilidade. Medicamentos, horários, visitas, autorizações. O coração do pai batia porque alguém havia intercedido no momento certo — e Izi aprendera, talvez rápido demais, que ajuda não é infinita.
O medo não vinha em forma de pânico.
Vinha como cálculo.
E se ele se afastasse?
E se interpretasse o distanciamento como recusa?
E se entendesse o cuidado social como ingratidão?
Izi percebia, com desconforto crescente, que já não pensava apenas no que devia fazer — mas no que não podia se dar ao luxo de perder. A ajuda de Dante deixara de ser um apoio externo e passara a ocupar um espaço interno, sensível, quase vital.
Não era dependência declarada.
Era algo mais sutil.
A consciência de que, sem ele, tudo voltaria a ser incerto.
Na garagem, ao se comportar de forma contida, Izi acreditara estar se protegendo. Só depois compreendeu a contradição: ao tentar preservar sua imagem, quase colocara em risco aquilo que mais temia perder.
E foi ali que a pergunta se impôs, incômoda e inevitável:
Até que ponto o cuidado com o outro pode se transformar em submissão ao medo?
Izi sabia que ainda não tinha a resposta.
Mas também sabia que, a partir daquele momento, cada gesto seria atravessado por essa tensão silenciosa:
manter o controle —
sem afastar quem sustenta o equilíbrio.
***
CONTINUA....


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Ficha do conto

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Nome do conto:
. 14. O DONO - IZI VLACHOU (652.08)

Codigo do conto:
251572

Categoria:
Heterosexual

Data da Publicação:
09/01/2026

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