Dr. HUNSAKER O medo de amar não nasce do risco de perder o outro. Nasce do risco de se revelar inteiro. Amanda descobriu isso tarde. Sempre acreditara que o amor assustava por prometer demais — futuro, dependência, dor. Mas, diante de Dante, percebeu que o verdadeiro pavor estava em algo mais simples e mais cruel: amar exige abandonar o controle da própria narrativa. Amar é aceitar que alguém veja o que nem nós conseguimos organizar. Por isso, quando Dante disse que nunca levara nenhuma mulher para sua casa, o impacto não foi vaidade. Foi vertigem. Não se tratava de exclusividade como prêmio, mas de exposição. Entrar ali significava ocupar um lugar onde não havia máscaras, nem papéis intermediários, nem álibis sociais. O medo de amar, para Amanda, não era o medo de ser deixada. Era o medo de ficar. Ficar quando não há rituais que garantam distância. Ficar quando não há marcas visíveis que permitam negociar o vínculo. Ficar quando não se pode dizer “isso é apenas um jogo”. Por isso ela chorou. Não porque foi escolhida, mas porque entendeu que, ao ser acolhida, perdera a última desculpa para não sentir. O medo de amar não impede a entrega. Ele a adianta. Amanda não fugiu. Não porque fosse corajosa, mas porque percebeu algo decisivo: fugir também é uma forma de escolha — e, naquele instante, seria a mais covarde de todas. Amar, ali, não significava pertencer. Significava assumir a própria presença. E esse é o medo mais profundo: não o de ser possuída, mas o de não ter mais onde se esconder. O medo de Dante não era perder. Era permanecer. Durante muito tempo, ele acreditou que controlar vínculos o protegia do que mais temia: a exposição contínua. Organizar relações, classificar posições, delimitar acessos — tudo isso funcionava como arquitetura defensiva. Onde há estrutura, há distância. Onde há distância, há silêncio. E o silêncio, para ele, sempre foi abrigo. Dante não temia o desejo. Temia o que acontece depois. O depois exige repetição. Exige cuidado. Exige a presença que não se dissolve ao fechar a porta. Por isso as marcas. Por isso os rituais. Por isso as ausências calculadas. Cada gesto seu ensinava aos outros como permanecer sem exigir reciprocidade plena. Ele dava o suficiente para organizar o caos alheio, mas retirava-se antes que o vínculo lhe pedisse algo que não soubesse oferecer: continuidade emocional sem mediações. O medo de Dante não era o amor em si. Era o amor sem álibis. Amar, para ele, significava abdicar do papel de operador e aceitar o lugar de alguém que também pode falhar. Significava não poder explicar tudo como método, nem reduzir o afeto a função. Significava ser visto quando não está conduzindo. Por isso Amanda. Levá-la para casa não foi um gesto de poder. Foi um erro calculado — e, justamente por isso, o mais honesto que já cometera. Ao atravessar aquela porta com ela, Dante colocou em risco a única coisa que sempre soube preservar: a possibilidade de ir embora intacto. A casa não era território. Era exposição. E exposição não se controla — apenas se assume. O medo de Dante é simples e devastador: não saber quem será quando não estiver organizando o desejo do outro. Ele não teme perder o domínio. Teme perder a função. Porque, se amar é permanecer quando o jogo termina, Dante sabe que, pela primeira vez, não há estratégia que o salve — apenas a escolha de ficar ou recuar. E essa escolha, diferente de todas as outras, não pode ser delegada. Dante e Amanda já não sabiam como se comportar. Não havia mais roteiro possível. O que os aproximava deixara de ser sexo — que sempre encontrara forma — e deixara de ser segurança — que ambos aprenderam a administrar. O encontro agora nascia de um lugar menos nomeável. Procuravam-se sem saber exatamente o que buscavam. Não era desejo que faltava, nem medo que sobrava. Era a ausência de função. Nenhum dos dois ocupava mais o papel que os protegia. Dante não organizava. Amanda não negociava. Restava apenas a presença nua de dois sujeitos que haviam perdido a utilidade dos próprios mecanismos. O silêncio entre eles não era constrangimento. Era desorientação. A proximidade já não oferecia garantias, e o afastamento parecia impossível. Não havia gesto certo, nem palavra adequada. Cada movimento carregava o risco de dizer mais do que pretendiam — ou menos do que já sabiam. Eles se procuravam porque não sabiam mais ficar sozinhos naquele novo território que haviam aberto juntos. Um território onde não havia contrato, nem marca, nem promessa. Apenas a pergunta muda que nenhum dos dois ousava formular: o que resta quando não há mais função a cumprir? E talvez fosse ali, exatamente ali, que começava algo mais perigoso do que qualquer posse ou entrega anterior. Algo que não podia ser organizado. Nem evitado. Dante deixou isso bem claro: não a tatuou. Não foi uma concessão, nem um cuidado tardio. Foi um limite afirmado com a mesma firmeza com que, em outros momentos, marcara presenças. Com Amanda, a recusa era a própria linguagem. — Não — disse apenas. — Você não. A ausência da marca não significava ausência de vínculo. Significava outra coisa, mais arriscada. Sem tatuagem, não havia prova externa, nem ritual que organizasse o depois. Não havia símbolo que permitisse reduzir o que sentiam a um sistema conhecido. Para Dante, tatuar sempre fora uma forma de encerrar a ambiguidade. Um modo de garantir que algo permanecesse quando ele se retirasse. Com Amanda, a retirada já não era simples — e, justamente por isso, a marca se tornava impossível. Não tatuá-la era aceitar que nada ali poderia ser fixado. Amanda compreendeu. Não como privilégio, mas como responsabilidade. Sem marca, não havia álibi. Sem inscrição, tudo dependia do que fariam — ou deixariam de fazer — a partir dali. Entre eles, o não se tornou mais definitivo do que qualquer sim anterior. Porque a tatuagem encerraria a pergunta. E Dante, pela primeira vez, não queria encerrá-la. Preferia permanecer exposto ao risco de amar do que protegido pela certeza da posse. E Amanda ficou — não marcada, mas inteira. Em outras palavras, Dante não a queria mais possuir. Não precisava. Já a tinha em seu interior. Amanda não o tinha tatuado em sua pele, mas o tinha instalado em seu interior. Não como objeto, nem como marca de domínio, mas como presença contínua, silenciosa, impossível de remover sem dano. Possuir sempre fora, para ele, uma forma de garantir distância. Tê-la dentro de si eliminava essa defesa. Ela não era algo que pudesse ser deixado para trás. Era algo que o acompanhava. E talvez essa fosse a diferença fundamental: as outras ele podia perder, substituir ou classificar. Amanda, não. Porque aquilo que se carrega por dentro não se controla — se suporta, se cuida, ou se destrói. E Dante sabia disso. *** CONTINUA....
Faca o seu login para poder votar neste conto.
Faca o seu login para poder recomendar esse conto para seus amigos.
Faca o seu login para adicionar esse conto como seu favorito.
Denunciar esse conto
Utilize o formulario abaixo para DENUNCIAR ao administrador do contoseroticos.com se esse conto contem conteúdo ilegal.
Importante:Seus dados não serão fornecidos para o autor do conto denunciado.