O PSICÓLOGO, O MARIDO, A ESPOSA E O AMIGO.........
Ela sustentou meu olhar por alguns segundos. Ninguém disse mais nada. — Então disse, com um sorriso tranquilo. Acho que não precisamos mais conversar. O marido sorriu e permaneceu em silêncio. Ela olhou para nós dois e sorriu. — Agora, sim. Trocamos um último olhar de entendimento. Ela voltou os olhos para o marido. — Está tudo bem? Ele sorriu. — Sim. Então ela voltou-se para mim. — Durante muito tempo achei que esta noite existia por causa de uma fantasia dele. Fez uma breve pausa. — Agora percebo que ela só existe porque eu também a escolhi. O marido permaneceu onde estava, sem tentar conduzir a situação. Ela percebeu isso e sorriu para ele. — Obrigada por confiar em mim. — Sempre. Ela respirou fundo e voltou sua atenção para mim. Encontrei seu olhar. Naquele instante compreendi que algo havia mudado. A mulher com quem eu conversara durante toda a noite permanecia ali, mas agora reassumia, de forma serena e consciente, o papel que escolhera viver. Permaneceu imóvel por um breve instante, como se marcasse silenciosamente a passagem entre a conversa que acabáramos de ter e o momento seguinte. Então caminhou de mãos dadas com o marido até o centro do quarto. Parou diante dele. — Vá até a cozinha e traga a garrafa que deixei na geladeira. Traga também a sobremesa. Depois volte e permaneça aqui. Quero que apenas observe. — Sim, senhora. Ele inclinou discretamente a cabeça e saiu do quarto. O silêncio voltou a preencher o ambiente. Pouco depois, uma leve batida soou à porta. Ela ergueu os olhos. — Entre. A porta se abriu lentamente. O marido retornou vestindo novamente o uniforme de garçom. Equilibrava uma delicada bandeja de prata. Sobre ela repousavam uma pequena garrafa de espumante envolta em um discreto balde de gelo, duas taças de cristal e uma travessa de porcelana branca com seis morangos cobertos por uma fina camada de chocolate meio amargo. Caminhou até a mesa de cabeceira e depositou a bandeja com o cuidado de quem compreendia a importância daquele momento. Em seguida, deu um passo para trás. Ela observou tudo por alguns segundos e sorriu, satisfeita. — Perfeito. Obrigada. Ele apenas inclinou a cabeça. — Mais alguma coisa, senhora? Ela sustentou seu olhar antes de responder. — Não. Agora quero apenas que permaneça aqui. Sem dizer mais nada, ele dirigiu-se ao lugar que ela indicara e permaneceu em silêncio. Ela aproximou-se da bandeja. Passou os dedos pela borda da travessa e pegou delicadamente um dos morangos cobertos de chocolate. — Passei algum tempo pensando no que servir esta noite. Contemplou o morango por um instante. — Achei que algo doce combinaria melhor com lembranças que demoraram tantos anos para encontrar paz. Estendeu-o em minha direção. — Aceita? Sorri e o recebi de suas mãos. Ela serviu o espumante nas duas taças, entregou uma a mim e permaneceu alguns instantes em silêncio, como se permitisse que aquele pequeno ritual encontrasse seu lugar entre nós. Depois levou a própria taça aos lábios, bebeu um pequeno gole e voltou a pousá-la sobre a mesa. Sem dizer uma palavra, caminhou lentamente até o closet. Desapareceu por alguns instantes. Quando retornou, notei a expressão do marido mudar. Pelo brilho discreto em seus olhos, tive a impressão de que reconhecera imediatamente o conjunto. Era o presente que lhe dera meses antes, comprado com carinho e depois cuidadosamente guardado, sem jamais ser usado. Não havia extravagância. Ela vestia um sofisticado conjunto de lingerie composto por sutiã, calcinha, cinta-liga e meias de renda. Cada detalhe parecia escolhido para transmitir confiança, não ostentação. Ela percebeu nossa reação e sorriu. — Achei que, se esta noite marcaria um novo começo, eu deveria vestir algo que também representasse uma escolha nova. Voltou-se para o marido. — Você comprou isso acreditando que um dia eu me sentiria pronta. Hoje percebi que esse dia chegou. Ele permaneceu em silêncio, visivelmente emocionado. Ela caminhou até o centro do quarto com a serenidade de quem já não precisava provar nada a ninguém. Não era a roupa que transformava aquele instante. Era a decisão de finalmente usá-la por vontade própria.
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