O PSICÓLOGO, O MARIDO, A ESPOSA E O AMIGO...........
Então ela olhou para o marido e disse. — Espero que você esteja preparado, porque, a partir de agora, não há mais volta. O marido, ainda vestido com o uniforme de garçom, não respondeu de imediato. Apenas abaixou a cabeça, aceitando o peso daquelas palavras. Eu respirei fundo. Naquele instante, ficou claro para mim que nem ele nem eu conduziríamos o que aconteceria dali em diante. A iniciativa pertencia inteiramente a ela. Ela voltou-se para o marido. — Quero que você compreenda exatamente o lugar que escolheu ocupar nesta noite. Foi isso que você desejou. Agora aceite e curta a sua fantasia acontecendo. Ele permaneceu imóvel por alguns segundos, como se absorvesse não apenas a frase, mas tudo o que ela representava. — Sim respondeu, por fim. A resposta foi simples e firme. Seu olhar transmitia gratidão e serenidade, como quem finalmente via diante de si uma decisão amadurecida ao longo de muito tempo. Ela permaneceu de pé no meio do quarto, imóvel por alguns instantes. Aquele gesto simples carregava um significado maior, marcava a fronteira entre quem ela havia sido até aquele momento e quem decidia ser dali em diante. Ela olhou para nós dois e sorriu. — Vocês estão muito quietos. Sorri de leve. — Acho que estamos entendendo que isto é real. O marido apoiou uma das mãos na lateral da poltrona. — Fantasias são simples quando permanecem apenas na imaginação. Ela sustentou seu olhar. — E a realidade? Ele demorou um instante antes de responder. — A realidade exige coragem. Então, com absoluta tranquilidade, ela retirou a peça que repousava sobre seus ombros. O tecido deslizou suavemente, acompanhando o movimento de seu corpo até tocar o chão. Voltou-se para o marido. — Não se esqueça das minhas instruções. Recolha as peças que eu deixar no chão. Ele apenas inclinou a cabeça. — Sim. Sem qualquer precipitação, ela caminhou em direção à cama. O marido levantou-se da poltrona com a mesma discrição que demonstrara durante toda a noite. Aproximou-se, recolheu cuidadosamente o tecido do chão e o dobrou com o mesmo cuidado com que alguém preserva um objeto carregado de significado. Em seguida, voltou ao lugar que ela havia indicado e permaneceu em silêncio. Apenas observei a cena. Na expressão dele não havia euforia nem ansiedade. Havia reflexão. Enquanto seus olhos acompanhavam os movimentos da esposa, era impossível não imaginar o caminho que o trouxera até ali. Por um instante, eu acredito que passou por sua cabeça um filme. Recordou-se da primeira sessão no consultório deste Psicólogo. Naquela época, ele conseguia apenas descrever uma sensação persistente de vazio, tanto dentro de si quanto na relação que construíra ao longo dos anos com a mulher que amava. Não compreendia exatamente de onde vinha aquela inquietação, tampouco sabia como colocar em palavras sentimentos que pareciam contraditórios. As primeiras conversas foram difíceis. Havia assuntos que durante muito tempo permaneceram guardados, receios que nunca haviam sido compartilhados e perguntas que ambos evitavam fazer. Com o passar do tempo, porém, as sessões ganharam novos contornos. O Psicólogo conduziu o casal por um processo de reflexão no qual os dois passaram a enxergar a própria relação sob uma nova perspectiva. O objetivo deixou de ser encontrar respostas rápidas e passou a ser compreender melhor as necessidades, inseguranças e expectativas de cada um. A esposa, que inicialmente observava as inquietações do marido com cautela, passou a participar de maneira mais ativa daquele processo. Aos poucos, deixou de ser apenas alguém tentando compreender o que acontecia dentro dele e passou também a reconhecer seus próprios sentimentos, limites e escolhas. As conversas abriram espaço para uma relação mais honesta. O casal descobriu que a proximidade verdadeira não vinha de esconder pensamentos ou evitar temas delicados, mas da coragem de falar sobre eles com respeito e confiança. Com o tempo, aquilo que antes parecia uma distância entre os dois começou a se transformar em uma nova forma de conexão. Eles passaram a conhecer partes um do outro que, durante anos, permaneceram silenciosas. Agora, sentado novamente naquela poltrona, ele respirou fundo. Olhava para aquela noite não apenas como um acontecimento isolado, mas como o resultado de uma longa caminhada. Um caminho construído com conversas difíceis, descobertas pessoais e escolhas feitas pelos dois. Pela primeira vez em muito tempo, ele não sentia o mesmo vazio que o levara ao consultório. Sentia apenas a serenidade de alguém que compreendia a própria história e aceitava, conscientemente, o percurso que havia escolhido construir ao lado da esposa. E naquele instante percebeu que a maior transformação não estava em uma situação específica, mas na confiança que os dois haviam desenvolvido para enfrentar juntos aquilo que antes parecia impossível de dizer.
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