O PSICÓLOGO, O MARIDO, A ESPOSA E O AMIGO............. FINAL

Ela permaneceu alguns instantes olhando para mim, como se quisesse prolongar aquele momento em que o tempo parecia suspenso. Depois voltou o olhar para o marido, que ainda se ajeitava, procurando manter a postura do garçom.
Ele sorriu.
Ela retribuiu o sorriso.
— Garçom, será que poderia buscar uma toalha para nós dois?
Ele fez uma pequena reverência.
— Claro, madame. Alguma preferência?
— Apenas uma toalha macia. E não precisa ter pressa. Gostaria de ficar mais alguns minutos a sós com o amigo.
Ele assentiu com serenidade.
— Aproveitem esse tempo. Depois eu volto.
Sem dizer mais nada, caminhou em direção ao quarto.
Ela respirou fundo.
— Acho que ainda preciso de alguns minutos para entender tudo o que estou sentindo. Obrigada por respeitar isso.
Sorri.
— Nem tudo precisa ser compreendido imediatamente. Algumas coisas apenas precisam ser vividas.
Ela pareceu aliviar o peso que carregava.
— Depois de tudo o que aconteceu, sabe o que eu mais queria? Apenas conversar com você. É isso que sempre admirei. Você nunca tenta dizer o que eu devo sentir. Apenas me ajuda a enxergar aquilo que já existe dentro de mim.
Permanecemos em silêncio por alguns instantes, lado a lado.
Pouco depois, o marido reapareceu trazendo duas toalhas dobradas.
— Madame, as toalhas que a senhora pediu.
— Obrigada.
Ela as recebeu e sorriu.
— Agora prepare o quarto. Acho que vamos precisar trocar o forro da cama.
— Como desejar, madame.
Antes que ele se afastasse, acrescentou:
— E não tenha pressa. O amigo e eu vamos esperar aqui na cozinha. Ainda quero aproveitar um pouco destes morangos e dos chocolates.
— Tudo bem. Chamem quando quiserem voltar.
Assim que ele desapareceu pelo corredor, ela pegou um morango, mergulhou-o lentamente no chocolate e ficou observando por alguns segundos antes de falar.
— Sabe, acho que tudo começou muito antes desta noite.
Olhei para ela.
— Você foi ao meu consultório apenas porque eu pedi que participasse de uma sessão com seu marido.
Ela confirmou com a cabeça.
— Eu nunca teria procurado um psicólogo por iniciativa própria. Na época, não entendia por que você queria conversar comigo também.
— Porque eu conhecia apenas a versão dele da história. Para compreender um relacionamento, eu precisava ouvir vocês dois.
Ela sorriu.
— Hoje eu entendo isso. Naquela primeira sessão tive a sensação de que alguém enxergava algo que nós mesmos já não víamos. Estávamos casados, mas parecia existir um muro entre nós.
— Foi exatamente essa a impressão que tive. Havia carinho e respeito, mas também um silêncio muito grande.
Ela respirou fundo.
— Depois você fez uma pergunta que nunca esqueci. Quis saber havia quanto tempo não existia intimidade entre nós. Quando respondi, percebi que aquela distância dizia muito mais do que imaginava.
— A resposta não era o problema. Ela apenas mostrava que existiam questões mais profundas.
Ela concordou.
— Aos poucos entendemos que nosso casamento não havia esfriado por um único motivo. Eram anos de medos, inseguranças, falta de diálogo e desejos escondidos. Um desses desejos era o dele. Durante muito tempo ele preferiu escondê-los por medo de ser julgado.
— Muitas vezes o que destrói um relacionamento não é o desejo, mas o silêncio.
Ela sorriu.
— Foi essa a maior descoberta da nossa terapia. Quando finalmente começamos a conversar sem medo, percebemos que o verdadeiro problema nunca tinha sido o desejo, mas tudo aquilo que deixamos de dizer. Foi ali que nosso casamento começou a renascer.
Pegou outro morango.
— Depois que encerramos a terapia, passamos a conversar como nunca havíamos conversado. Pela primeira vez, deixamos de tentar adivinhar o que o outro sentia.
Sorri.
— Quando a comunicação volta, quase sempre o restante encontra um caminho.
— Mas havia uma coisa que eu nunca lhe contei.
Olhou diretamente para mim.
— Mesmo depois do fim da terapia, eu continuava lembrando das nossas conversas. Não pelas orientações que você dava, mas pela forma como eu me sentia sendo ouvida. Pela primeira vez em muito tempo eu não precisava representar nenhum papel. Foi quando comecei a perceber que sentia algo diferente por você.
Não respondi. Apenas permaneci ouvindo.
— Tentei ignorar aquilo durante muito tempo. Você fazia parte de uma fase importante da nossa vida e imaginei que tudo terminaria quando a terapia acabasse. Mas a vida resolveu escrever outro capítulo.
Olhei para ela.
— O encontro no elevador.
Ela sorriu.
— Exatamente.
Seu olhar se perdeu por alguns segundos na lembrança.
— Eu jamais imaginei encontrar você naquele prédio. Você havia acabado de sair do consultório da Dra. Helena, que já era a dentista da sua família, e eu estava deixando meu escritório de advocacia.
Sorri.
— Foi uma coincidência improvável.
— E foi ali que nossa história recomeçou. Convidei você para tomar um café. Até aquele momento eu conhecia apenas o Rob psicólogo. Naquela conversa conheci o homem por trás da profissão.
Ouviu atentamente enquanto eu lhe contava que, antes da Psicologia, havia dedicado grande parte da vida à Polícia Militar, encerrando minha carreira como coronel. Depois da aposentadoria, vieram os cursos de Educação Física e Psicologia. Foi durante o estágio em uma academia que conheci seu marido, e daquele encontro nasceu toda a história que acabaria aproximando nossas vidas.
Ela sorriu.
— Naquele café também descobri quem era Helena.
— Contei que a conhecia desde a época em que era diretor da maior Escola Militar do Estado. Ela era mãe de um dos alunos. Anos mais tarde, quando minha família se mudou para a capital, o destino nos aproximou novamente e ela se tornou nossa dentista.
Ela riu baixinho.
— Vou confessar uma coisa. Senti ciúmes.
Olhei para ela.
— Imaginei.
— Fiz questão de conhecê-la. Queria entender quem era aquela mulher de quem você falava com tanto respeito.
Ela apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Observei cada palavra, cada olhar. Tentei descobrir se havia existido algo entre vocês.
Sorri.
— E o que descobriu?
Ela respondeu sem hesitar.
— Descobri exatamente o que vocês dois me mostraram. Apenas uma amizade construída ao longo dos anos e muito respeito pela história que compartilharam. Naquele momento compreendi uma coisa.
— O quê?
Ela sorriu.
— Que todos nós somos feitos de muitas vidas. Existe o Rob coronel, o diretor da Escola Militar, o professor, o psicólogo e o homem que hoje está sentado aqui ao meu lado. E, curiosamente, todas essas versões continuam sendo a mesma pessoa.
Segurei sua mão.
— Talvez seja isso que a vida faça conosco. Ela não apaga os capítulos anteriores. Apenas escreve novos.
Ela apertou delicadamente meus dedos.
— E eu tenho a impressão de que este ainda está longe de ser o último.
Quando percebemos, o tempo havia passado muito mais rápido do que imaginávamos.
A conversa nos envolveu de tal maneira que perdemos a noção do tempo. Quando percebemos, muitos minutos haviam passado.
Ali estávamos nós dois, ainda próximos, cada um envolvido em sua própria toalha, como se aquela cozinha tivesse se transformado em um lugar onde o mundo lá fora havia deixado de existir por algum tempo.
Ela sorriu.
— Eu não vi a hora passar, Rob.
Sorri também.
— Eu também não, Fernanda.
Por alguns instantes permanecemos em silêncio, até que ela olhou em direção ao corredor.
— Venha. Vamos ver como ele está. Ele ficou sozinho por bastante tempo.
Caminhamos até o quarto.
Ao abrirmos a porta, encontramos tudo cuidadosamente organizado. A cama estava arrumada, os lençóis trocados, e sobre ela havia uma peça deixada de forma delicada: um baby-doll preto que ele havia comprado para aquela noite.
Ela olhou ao redor.
— Estranho onde ele está?
Procuramos pelo quarto, mas não havia ninguém.
Então ela pareceu compreender.
— Já sei.
Seguimos até outro cômodo do apartamento.
Ao abrir a porta, encontramos o marido dormindo profundamente.
Era um sono tranquilo, daqueles que revelam mais do que qualquer palavra. Seu rosto sereno mostrava o cansaço de quem havia vivido uma noite intensa, cheia de emoções, descobertas e realizações.
Fernanda permaneceu alguns instantes olhando para ele.
Havia algo diferente em seu olhar. Não era apenas carinho. Era a percepção de que algo importante havia acontecido entre eles.
Ele dormia com a tranquilidade de quem finalmente conseguira dividir aquilo que carregou por tanto tempo. Seus desejos, seus medos e suas fantasias deixaram de ser um peso guardado em silêncio e passaram a fazer parte de uma história compartilhada.
Ela sorriu.
— Acho que ele realmente precisava descansar.
— Sim.
Ela segurou minha mão delicadamente e olhou novamente em direção ao quarto.
— Venha comigo.
Seguimos pelo corredor em silêncio.
Ao entrarmos no quarto, ela voltou o olhar para a peça deixada sobre a cama. Por alguns segundos, apenas observou.
Havia naquele gesto uma mensagem que ela parecia compreender.
— Acho que isso também fazia parte do que ele imaginava para esta noite. Eu não quero decepcioná-lo. Não depois de tudo que conseguimos construir.
Ela deixou a toalha de lado e vestiu o baby-doll preto que havia sido colocado sobre a cama. Por alguns instantes, permaneceu diante do espelho, observando a própria imagem como se enxergasse uma versão de si mesma que havia ficado esquecida por muito tempo.
Não era apenas uma roupa. Era o símbolo de uma mudança. De uma mulher que havia reencontrado a própria confiança, a própria vontade e a capacidade de se permitir sentir.
Ela caminhou até a cama e olhou para mim.
— Apague a luz e feche a porta.
Fui até a porta, fechei-a lentamente e apaguei a luz.
Voltei em direção à cama, enquanto o silêncio preenchia novamente o quarto.
A nossa noite estava apenas começando, agora sem plateia e sem registro fotográfico.
Apenas nós dois, diante de tudo aquilo que havíamos vivido e de todas as emoções que ainda precisavam encontrar seu próprio significado.
E hoje?
Talvez, depois de acompanhar todos esses acontecimentos, exista uma pergunta passando pela mente de quem chegou até aqui.

"E hoje? O que aconteceu depois daquela noite? A história continuou?"
A resposta é simples.
Sim. Ela continuou. Mas talvez não da forma como muitos imaginariam.
Porque histórias verdadeiras não permanecem vivas apenas pelos grandes momentos. Permanecem nos pequenos detalhes que acontecem quando ninguém está olhando. No cuidado. Na confiança. Nas conversas que continuam mesmo quando a novidade do começo já deu lugar à tranquilidade da convivência.
O que começou em 2023 não nasceu de uma única noite. Foi uma construção. Foram conversas, reencontros, descobertas, dúvidas, medos superados e sentimentos que precisaram encontrar seu próprio lugar.
Foi em 2024 que aquilo que antes existia apenas como uma possibilidade encontrou o seu momento. E foi o tempo que revelou o verdadeiro significado daquela escolha.
Fernanda, o marido e eu continuamos escrevendo a nossa história.
Uma história que não ficou presa àquela noite, mas que ganhou novos significados a cada dia vivido depois dela.
Talvez, agora, outra pergunta esteja surgindo.
"Mas, Rob... você é casado. Tem filhos, netos, uma vida construída. Como tudo isso se encaixa?"
A resposta nunca esteve em escolher uma história e abandonar outra. Sempre esteve em compreender que a vida é maior do que os rótulos que costumamos lhe dar.
Sou marido.
Sou pai.
Sou avô.
Sou aposentado.
Sou amigo.
Sou instrutor.
Sou psicólogo.
Sou um homem que aprendeu, ao longo dos anos, que o amor, a amizade, o respeito e o afeto não competem entre si quando são vividos com honestidade.
Minha família continua sendo o alicerce da minha vida.
Fernanda e o marido continuam ocupando um lugar muito especial na minha história.
Uma coisa nunca precisou excluir a outra. Porque cada pessoa que DEUS coloca em nosso caminho deixa uma marca diferente. Algumas chegam para ensinar. Outras para serem cuidadas. Outras, simplesmente, para caminhar conosco por um longo trecho da estrada.
A vida nunca foi um único capítulo. Ela sempre foi um livro inteiro. E cada capítulo tem sua importância. Hoje, olhando para trás, percebo que aquela noite não foi um ponto final. Foi apenas o início de uma nova página. E essa página continua sendo escrita
E com a mesma certeza que tenho desde o começo desta história: “Alguns encontros acontecem exatamente quando a vida entende que estamos prontos para vivê-los”.


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Ficha do conto

Foto Perfil Conto Erotico rob025

Nome do conto:
O PSICÓLOGO, O MARIDO, A ESPOSA E O AMIGO............. FINAL

Codigo do conto:
268671

Categoria:
Heterosexual

Data da Publicação:
30/07/2026

Quant.de Votos:
4

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