Na manhã seguinte, acordei com uma sensação completamente diferente. Não havia arrependimento.
Eu gostei do que havia acontecido, e Aline também. O que existia entre nós não parecia ter sido um acidente ou uma simples brincadeira. Havia desejo dos dois lados.
A casa, entretanto, continuava seguindo sua rotina. Dona Norma cuidava dos afazeres. O juiz seguia seus compromissos. Eu continuava exercendo minha função.
A única diferença era que agora existia um segredo entre Aline e eu. Depois daquela noite, bastava surgir uma oportunidade. Um olhar no corredor. Um encontro rápido em algum cômodo.
Alguns minutos em que o juiz estivesse ocupado. Nós dois começamos a viver uma espécie de jogo silencioso.
Diante dos outros, tudo permanecia normal. Mas, quando aparecia uma oportunidade, Aline e eu nos encontrávamos escondidos pela casa. Era só ter uma oportunidade que nos pegávamos. Não tinha lugar, era só ter uma chance.
Não havia arrependimento de nenhum dos dois. Pelo contrário: a vontade de continuar parecia crescer.
Certa vez, Aline me disse:
— Rob, você percebeu que depois daquela noite a gente não consegue mais ficar longe?
Eu sorri.
— Percebi.
Ela balançou a cabeça.
— E eu quero você toda hora.
Eu também te desejo.
O que havia começado com uma dança e uma aproximação inesperada estava se transformando em uma relação clandestina. E a casa, que antes era apenas meu local de trabalho, passou a guardar um segredo que ninguém mais conhecia. Até que chegou o dia em que Aline decidiu que não queria mais guardar aquilo apenas entre nós.
A conversa
Naquele dia, chegamos do fórum no fim da tarde.
Assim que entramos na casa, Aline recebeu o marido como fazia normalmente. O juiz comentou alguma coisa sobre o dia de trabalho e, pouco depois, seguiu para o quarto.
Antes de desaparecer pelo corredor, Aline me lançou um olhar rápido.
Eu entendi imediatamente.
Alguns minutos depois, ela apareceu novamente.
— Rob, preciso falar com você.
— O que aconteceu?
Ela fechou a porta e respirou fundo.
— Eu não aguento mais essa situação.
Fiquei olhando para ela.
— Que situação?
— Nós dois. Esse segredo. Esses momentos escondidos. Essa coisa de ficar esperando uma oportunidade.
Ela se aproximou.
— Eu quero ficar com você todos os dias.
Fiquei surpreso.
— Aline, você está louca?
Ela sorriu.
— Sim. Estou muito louca.
Fez uma pequena pausa antes de completar:
— Eu fico completamente excitada toda vez que vejo você.
— Você sabe que eu vou me casar.
— Eu sei.
— Então por que está falando isso?
— Porque justamente por saber disso eu tenho medo de perder você.
Aquelas palavras mudaram o tom da conversa.
Até então, nós dois havíamos conseguido tratar tudo como uma aventura secreta.
Mas naquele momento Aline estava colocando seus sentimentos sobre a mesa.
— Rob, eu não quero continuar sendo apenas uma coisa escondida quando aparece uma oportunidade. Eu quero você por perto.
Fiquei em silêncio.
Ela continuou:
— Eu sei que tudo é complicado. Sei que você tem sua vida, sua noiva e seus planos. Mas não consigo fingir que não sinto nada.
— E o que você espera que eu faça?
Aline me encarou.
— Não sei. Talvez eu só precisasse que você soubesse.
Naquele momento, ouvi o barulho de uma porta se abrindo no quarto.
Nós dois nos afastamos imediatamente.
Aline respirou fundo e ajeitou a roupa.
Antes de sair, olhou para mim pela última vez.
— Depois a gente conversa.
Ela abriu a porta e voltou para a rotina da casa como se nada tivesse acontecido.
Eu permaneci alguns segundos sozinho.
Naquele dia, Aline decidiu conversar com o juiz.
A revelação
Mais tarde, a casa ficou completamente silenciosa.
As luzes já haviam sido apagadas quando ouvi passos vindo pelo jardim.
Primeiro pensei que fosse algum barulho qualquer, mas os passos se aproximaram cada vez mais.
Então ouvi três batidas na porta.
— Rob? Sou eu, macho.
Reconheci imediatamente a voz.
Abri a porta.
— O que você está fazendo aqui, sua doida?
Aline entrou e fechou a porta atrás de si.
— Eu disse que iria conversar com ele. E conversei.
Fiquei olhando para ela, sem entender.
— Conversou sobre o quê?
Ela me encarou.
— Sobre nós.
Por alguns segundos, fiquei sem reação.
— Puta que pariu, Aline.
Ela levantou a mão, pedindo calma.
— Calma, macho.
— Calma? Você falou com o juiz sobre nós?
— Falei.
— E o que ele disse?
Aline respirou fundo.
— Ele já sabia que havia alguma coisa diferente entre nós.
Aquilo me deixou ainda mais surpreso.
— Não acredito.
Ela se aproximou.
— Pode acreditar.
— Então ele sabe?
— Sabe.
Fiquei alguns segundos tentando organizar meus pensamentos.
Tudo aquilo que eu havia imaginado sobre aquela relação começou a ganhar outro significado.
Os olhares.
A maneira como o juiz reagia quando Aline se aproximava de mim.
A tranquilidade com que algumas situações aconteciam.
Talvez eu tenha interpretado tudo de maneira completamente diferente.
Aline percebeu minha expressão.
— Eu falei que você precisava ficar tranquilo.
— Como você conseguiu falar isso para ele?
— Falei a verdade.
— E ele?
Ela fez uma pausa.
— Disse que queria conversar com você também. Mas não hoje.
Aquilo me deixou ainda mais inquieto.
— Aline, você percebe o tamanho da confusão que isso pode causar?
— Percebo.
— Mas pelo menos agora não precisamos mais fingir que nada está acontecendo.
Aline se aproximou da porta. E depois a trancou.
— Hoje vou dormir aqui com você.
— E o juiz?
Ela sorriu discretamente.
— Amanhã ele conversa com você. Agora, vem me comer gostoso.
Naquela noite, Aline não foi embora. Ela permaneceu comigo no quarto. Depois de fazermos amor, ela adormeceu em meus braços.
Já de madrugada, Aline me acordou com um belo boquete. Fiquei em silêncio deixando ela fazer o que gostava. Enquanto ela me mamava, eu gozei forte na sua boca.
Descansamos e ela me olhou e disse.
— Rob, preciso contar uma coisa para você.
— O quê?
— É sobre ele.
— O juiz?
— Sim.
Esperei que continuasse.
Ela respirou fundo.
— Ele é gay, macho.
A revelação não me deixou tão surpreso quanto ela imaginava.
Talvez porque, desde o começo, eu já percebesse que havia alguma coisa diferente na relação dos dois.
— Eu já desconfiava de alguma coisa, respondi.
Aline sorriu.
— Eu sabia que você não ficaria tão surpreso.
Ela então explicou que o casamento dos dois possuía acordos e limites que eu desconhecia.
O juiz sabia sobre nós.
E queria conversar diretamente comigo.
A conversa com o juiz
Eram seis horas da manhã quando acordei.
Aline ainda estava ao meu lado.
Ela abriu os olhos e sorriu.
— Já acordou, Rob?
— Já. Está na hora de levantar.
Ela então fez um pedido inesperado.
— Quero que você me leve nos braços até a casa.
Pedido feito, pedido realizado.
Levei Aline nos braços até a casa.
Pouco depois, Dona Norma chegou para realizar os afazeres e colocar tudo em ordem.
Preparou o café da manhã para o juiz.
Depois de algum tempo, ele me chamou.
— Rob, quando terminar aqui, venha ao meu escritório. Precisamos conversar.
Fui até lá.
Bati na porta.
— Pode entrar.
Sentei-me diante dele.
O juiz ficou alguns segundos em silêncio.
— Rob, antes de qualquer coisa, quero que você entenda que não estou com raiva de você.
Aquilo me surpreendeu.
Ele explicou que Aline havia contado tudo e que não pretendia transformar aquilo em uma guerra.
— Nosso casamento não é exatamente como as pessoas imaginam.
Ele explicou que havia entre os dois uma relação baseada em confiança e acordos próprios.
Depois veio a parte que mais me surpreendeu.
— Aline fez um pedido.
— Que pedido?
— Ela quer dormir com você aqui dentro de casa.
Fiquei em silêncio.
— E o senhor aceitou?
Ele assentiu.
— Aceitei.
Explicou que não queria mentiras dentro daquela casa.
— Existe uma condição: respeito. Entre vocês e comigo.
Naquele momento, percebi que aquele casamento possuía uma dinâmica muito diferente daquela que eu havia imaginado.
O juiz deixou claro que, quando estivéssemos apenas nós três, não precisávamos fingir que aquela relação não existia.
Aline havia escolhido ficar próxima de mim. Ele sabia.
E havia aceitado aquela realidade dentro dos limites que os três estabelecemos.
Quando saí do escritório, encontrei Aline no corredor.
— Ele falou?
— Falou.
— E?
— Está tudo bem.
Ela sorriu.
— Eu sabia.
A partir daquele momento, nossa relação ganhou outra dimensão. Não era mais apenas um segredo entre Aline e eu. O juiz sabia.
E, de certa forma, havia estabelecido conosco uma nova dinâmica.
O tempo passou
Com o tempo, vieram novas viagens, compromissos profissionais e muitas ocasiões em que eu e Aline ficávamos cada vez mais próximos.
Minha vida profissional estava excelente.
Eu tinha conquistado a confiança do juiz e acumulava experiências que jamais imaginaria viver tão cedo na carreira.
Minha vida pessoal, entretanto, começava a ficar cada vez mais complicada.
Eu continuava noivo.
Até que minha noiva decidiu me visitar durante um fim de semana.
Quando ela chegou, Aline a tratou como sempre.
Não houve constrangimento.
As duas se abraçaram e começaram a conversar como amigas que se conheciam havia anos.
Aquilo, de certa forma, tornava tudo ainda mais estranho para mim.
Minha noiva não fazia ideia do que havia acontecido entre Aline e eu.
E Aline parecia perfeitamente confortável ao lado dela.
As duas conversavam, riam e comentavam coisas do dia a dia.
Eu apenas observava.
Em determinado momento, fiquei sozinho com o juiz.
Ele fez um breve comentário:
— Rob, tome cuidado.
— Cuidado com o quê, doutor?
Ele olhou discretamente para Aline.
— Se não, Aline vai dar em cima de você na frente da sua noiva e ela não vai nem notar.
Fiquei sem saber o que responder.
— Como assim, doutor?
Ele deu um pequeno sorriso.
— Aline, quando está amando, fica obcecada. Eu conheço aquela mulher como poucos.
Olhei novamente para ela.
Aline continuava conversando tranquilamente com minha noiva, como se nada estivesse acontecendo.
O juiz então completou:
— Ela foi minha primeira namorada. Eu fui o primeiro homem dela.
Aquilo me surpreendeu.
— Sério?
— Muito antes de tudo isso.
Ele fez uma pausa.
— Mas ela sempre soube que eu gostava de homens.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
— Então vocês dois tiveram uma história?
— Tivemos. Uma história importante.
Ele olhou para Aline com uma expressão quase nostálgica.
— É por isso que eu sei exatamente como ela funciona.
— E o senhor não se incomoda com o que existe entre nós?
O juiz demorou para responder.
— Eu me incomodaria se houvesse mentira.
— Mas não existe?
— Existe segredo. É diferente.
Ele me encarou.
— E você precisa tomar cuidado para não confundir liberdade com falta de responsabilidade.
A frase me fez pensar.
Enquanto isso, minha noiva chamou:
— Vida!
— Oi?
— Venha aqui. A Aline estava contando uma história sobre você.
Aline sorriu.
— Nada demais.
Aproximei-me das duas.
Minha noiva continuava sorrindo.
— Você sabia que ele é muito mais engraçado quando está à vontade?
— Eu sei, respondeu Aline.
As duas trocaram um olhar e riram.
Aquilo me deixou ainda mais desconcertado.
Porque, naquele momento, ficou claro que o que existia entre Aline e minha noiva era verdadeiro.
Não era uma competição.
Não era uma disputa.
Elas realmente gostavam uma da outra.
E talvez fosse justamente por isso que aquela situação fosse tão complicada.
Mais tarde, minha noiva decidiu que queria fazer um convite.
— Vida, pensei em uma coisa.
— O quê?
— Quero que Aline e o juiz sejam nossos padrinhos.
Fiquei olhando para ela, sem saber o que dizer.
— Tem certeza?
Ela sorriu.
— Absoluta. Eles foram muito importantes para nós. Quero os dois ao nosso lado nesse momento.
Aline estava por perto e ouviu.
Por alguns segundos, ficou sem reação.
Depois abriu um sorriso.
— Você está falando sério?
— Claro que estou.
Aline abraçou minha noiva.
— Vou adorar.
Para Aline, aquele convite tinha um significado muito maior do que minha noiva poderia imaginar.
Para ela, era quase como um troféu.
Não porque tivesse vencido alguém, mas porque continuava ocupando um lugar especial na minha vida.
Para o juiz, entretanto, aquilo parecia ter outro significado.
Ele recebeu o convite com tranquilidade.
— Será uma honra.
Depois olhou para mim e acrescentou, com aquele jeito irônico de sempre:
— E também será uma experiência interessante.
— Interessante?
Ele sorriu.
— Vamos seguir pelo caminho convencional, Rob.
Eu entendi perfeitamente a ironia.
Minha noiva, porém, não percebeu nada.
Ela estava feliz.
Durante todo o restante do fim de semana, as duas continuaram conversando como velhas amigas.
Quando chegou o momento de minha noiva ir embora, ela abraçou Aline demoradamente.
— Foi maravilhoso.
— Também adorei ter você aqui.
— Agora somos oficialmente família.
Aline sorriu.
— Parece que sim.
Minha noiva entrou no carro sem imaginar o quanto aquela frase carregava significado.
Quando cheguei da rodoviária.
O juiz colocou a mão no meu ombro.
— E agora?
Suspirei.
— Agora voltamos à nossa realidade.
Aline olhou para nós dois.
— Nossa realidade.
Ela sorriu.
— Gosto disso.
A casa voltou ao silêncio habitual.
Dona Norma retomou sua rotina.
O juiz voltou aos compromissos.
E eu voltei ao trabalho.
Por fora, nada havia mudado.
Por dentro, entretanto, alguma coisa havia mudado.
O convite para o casamento havia criado uma espécie de ligação permanente entre nós.
Aline seria minha madrinha.
O juiz seria meu padrinho.
E minha futura esposa estava completamente feliz com aquela escolha.
Minha noiva adorou aquele final de semana e foi embora com a impressão de que tudo estava acontecendo dentro do padrão.
Para ela, havia sido apenas um fim de semana agradável ao lado do homem com quem pretendia se casar e de um casal de amigos que agora ocuparia um lugar ainda mais importante em nossa vida.
Depois que ela se foi, a vida de nós três voltou à normalidade.
Ou, pelo menos, à nossa normalidade.
Voltei a dormir com a Aline.
As conversas continuaram.
A rotina também.
Mas havia uma diferença.
Agora o casamento estava no horizonte.
E, enquanto minha noiva começava a pensar nos preparativos, Aline e eu sabíamos que aquele segredo continuava existindo dentro de uma história que estava tomando um rumo cada vez mais inesperado.
O mais curioso era que, apesar de tudo, ninguém naquela casa parecia querer voltar atrás.
Nem eu.
Nem Aline.
Nem o juiz.
E, talvez por isso, aquela história ainda estivesse longe de terminar.
* meu compadre continua tirando as fotos da comadre, e enviando para mim.



rob025