Muito tempo havia passado desde aqueles acontecimentos.
A história que eu havia vivido com Aline pertencia ao passado. A vida seguirá seu curso, e muita coisa havia mudado desde então.
Aline e meu compadre, o juiz, são naturais do Nordeste. Desde o ano passado, porém, ele havia sido transferido para a Região Sul do país. Ainda não estava aposentado; aguardava o momento de encerrar oficialmente sua carreira.
Eu, por outro lado, já estava aposentado como Coronel da Polícia Militar.
Mesmo depois da aposentadoria, continuei trabalhando com aquilo que conhecia. Acrescentando mais dois cursos superiores ao currículo: Educação Física e Psicologia. Porém a experiência profissional me permite atuar como instrutor, ministrando cursos para forças de segurança.
Foi justamente por causa dessa experiência que eu estou neste momento na Região Sul do país, onde fui convidado para ministrar dois cursos para forças de segurança federais.
Grande parte dos conhecimentos e das oportunidades que me trouxeram até aqui também tinha relação com meu compadre. Ao longo dos anos, ele foi muito mais do que um amigo. Era meu compadre, parceiro de muitas histórias e uma das pessoas que mais confiavam no meu trabalho.
Antes de estar aqui no sul, em julho de 2026, havíamos passado as férias juntos.
Eu estava acompanhado da minha esposa e do meu neto, filho do meu filho do meio, que é afilhado de Aline e do juiz. Meu compadre também estava conosco, assim como Aline e o neto deles, filho da única filha do casal, que é nossa afilhada. As fotos que aparecem nos últimos dois contos anteriores de Aline foram tiradas pelo meu compadre.
Foram dias de convivência familiar, conversas e boas lembranças, às vezes dava tempo com a ajuda de meu compadre de dar uns pegas fortes em Aline.
Agora, porém, estamos novamente juntos agora no Sul.
Aline havia permanecido no Nordeste para acompanhar a mãe, que estava acamada e em estágio terminal. Por isso, meu compadre estava sozinho durante boa parte do tempo.
Foi então que ele me fez um convite:
— Fique lá em casa enquanto estiver ministrando o curso.
Aceitei.
Além de facilitar minha rotina, seria uma maneira de fazer companhia ao meu compadre enquanto Aline permanecia no Nordeste cuidando da mãe.
Eu cheguei em uma segunda-feira iniciando o curso na terça-feira.
Na quarta-feira, ele me convidou para acompanhá-lo a uma festa.
Dessa vez, porém, havia uma diferença.
Eu não estava ali como seu segurança.
— Hoje você não está de serviço, brincou ele.
— Ainda bem respondi, rindo.
A festa
O anfitrião da festa era um advogado, viúvo e bem-sucedido, conhecido no círculo de amizades do meu compadre. O lugar era realmente maravilhoso. O condomínio privado tinha dez casas de cada lado da rua e, no final dela, estava a praia.
A casa estava cheia.
Fui apresentado a várias pessoas ao longo da noite. Meu compadre parecia conhecer praticamente todo mundo e fazia questão de me apresentar aos seus conhecidos.
Eu o conhecia bem. Em determinado momento, percebi aquele olhar característico que ele fazia quando estava pensando em alguma coisa. Aquele olhar me lembrava algumas histórias do passado. Ele se aproximou de mim e falou:
— Vem. Quero que você conheça um casal.
Era um casal jovem. Ela muito bonita, especialmente de rosto. Estava muito bem vestida, elegante, e tinha uma presença que fazia com que fosse impossível não notá-la.
Olhei novamente para meu compadre.
— Compadre, ela é bem jovem.
Ele abriu aquele sorriso malicioso que eu já conhecia.
— Não esqueça da música: "Panela velha é que faz comida boa."
Comecei a rir.
— Ela é casada, compadre.
Ele me olhou como se eu tivesse dito algo completamente óbvio.
— Aline também era na época.
Fiquei olhando para ele.
Ele completou, rindo:
— E você comeu.
Também ri.
— Foi diferente.
Meu compadre aproximou-se um pouco e falou em tom mais baixo:
— Aqui é a mesma coisa. Ele gosta da mesma fruta que a esposa.
Olhei para ele, tentando entender.
— Como assim?
— Ele é gay.
Aquilo mudou imediatamente minha percepção sobre o casal. Meu compadre, porém, não me deu tempo para pensar muito.
Sheila e Marcelo
Quando chegamos perto do casal, meu compadre fez as apresentações:
— Boa noite, Dra. Sheila. Boa noite, Dr. Marcelo. Este é o meu compadre.
— Boa noite, juiz.
Cumprimentei os dois.
— Boa noite, Dra. Sheila e Dr. Marcelo. Muito prazer. Rob.
— Boa noite, Rob respondeu Sheila.
Meu compadre então explicou:
— O Rob é militar aposentado. Está aqui ministrando dois cursos para as forças de segurança federais.
Sheila demonstrou interesse imediatamente.
— Nossa, que legal! Eu adoro o meio militar.
Olhei para ela, curioso.
— Nossa, que surpresa. E por que essa admiração?
Ela sorriu.
— Meu avô era do Exército.
— Então está explicado. Parabéns.
Marcelo entrou na conversa:
— Em que área você ministra o curso, Rob?
— Defesa pessoal.
— Qual técnica?
— Krav Maga.
Ele pareceu interessado.
— Mas essa é uma técnica do Exército israelense?
— Sim. Inclusive, estive em Israel graças a esse homem aqui.
Coloquei a mão no ombro do meu compadre.
Ele sorriu.
— Foi a melhor segurança que eu poderia ter. E acabou se tornando meu melhor amigo.
Sheila então olhou para o marido.
— Marcelo faz jiu-jitsu.
Em seguida, ele comentou:
— Amor, o Krav Maga tem relação com a base do judô e do jiu-jitsu japonês.
Olhei para Marcelo.
— Agora vi que você é praticante de jiu-jitsu.
— Sou, sim respondeu ele.
A conversa continuou por alguns minutos.
Marcelo falava sobre o jiu-jitsu, enquanto eu comentava alguns aspectos relacionados à defesa pessoal e ao Krav Maga.
Mas, enquanto ele falava, percebi uma coisa. Sheila estava me olhando. Não era apenas aquele olhar educado de quem acabara de conhecer alguém. Ela me observava. Mesmo com a grande diferença de idade entre nós, havia alguma coisa naquele olhar que me chamou a atenção. Continuei conversando normalmente, sem demonstrar que havia percebido. Mas percebi.
Um passeio até a praia
Depois de algum tempo, saí da casa a convite do meu compadre para conhecer a praia.
O lugar era realmente maravilhoso. O condomínio privado tinha dez casas de cada lado da rua e, no final dela, estava a praia.
Tudo muito organizado, tranquilo e bonito.
Meu compadre olhou para mim e comentou:
— Muito bonito aqui, não é mesmo, Rob?
— Sim. Muito bonito.
Continuamos caminhando por alguns minutos, apreciando o lugar.
Foi quando, de repente, sem que percebêssemos, Marcelo e Sheila apareceram.
Marcelo carregava uma garrafa de vinho e duas taças.
— Estávamos procurando vocês, disse ele.
Sheila se aproximou e me ofereceu uma das taças.
Marcelo abriu a garrafa e serviu primeiro a mim. Depois fez o mesmo com meu compadre.
Peguei a taça e olhei para Sheila.
Ela sorriu.
Meu compadre então chamou Marcelo para conversar um pouco mais afastado, deixando Sheila e eu praticamente sozinhos.
Ela continuou me olhando. Havia novamente aquele mesmo olhar que eu havia percebido durante a festa.
Foi nesse momento que duas jovens saíram de uma das casas do condomínio. Elas estavam vestidas de maneira bastante descolada, com roupas de praia bem reduzidas, deixando boa parte do corpo à mostra. As duas passaram por nós conversando e rindo.
Sem perceber, acompanhei a passagem delas com os olhos. Quando voltei o olhar, Sheila estava me observando.
Ela segurou a taça e sorriu discretamente.
— Interessante…
Olhei para ela.
— O quê?
Sheila sustentou meu olhar por alguns segundos e perguntou:
— O senhor gosta?
Pensei por um instante.
— As solteiras são mais seguras.
— Mais seguras?
— Menos complicações.
— Mas dizem que as casadas são mais atrevidas.
— Talvez. Mas os maridos podem causar problemas.
— Eu sou casada e não trago.
Olhei para Sheila por alguns segundos.
— Você é muito bonita. Com certeza o Marcelo é muito ciumento.
— E se eu disser que ele não é?
— Não acredito nisso. Uma mulher linda e maravilhosa como você, eu duvido.
— Mesmo assim, ele não é. O meu, não.
— Tem certeza?
Sheila se aproximou um pouco e respondeu, em voz baixa:
— Ele só fica com ciúmes, quando ele não participa.
Fiquei olhando para ela. Depois de alguns segundos, perguntou:
— Posso fazer uma pergunta, Coronel?
— Pode. Diga.
Ela segurou a taça e manteve os olhos nos meus.
— Todo militar é safado?
Fiquei surpreso com a pergunta.
— De onde veio essa pergunta?
Ela sorriu discretamente.
— Me responde que eu te falo.
Pensei por um instante.
— Não sei.
Ela deu um pequeno gole no vinho.
— Eu queria saber.
Fez uma pausa, sem desviar o olhar.
— Você é realmente diferente, homem de verdade, Coronel.
— Como assim não entendi, perguntei.
— Você faz parte de uma raça em extinção.
Sorri.
— É mesmo?
— É.
Ela segurou a taça e continuou:
— Você é o homem que caça a sua presa.
— Não sei se colocaria dessa maneira.
— Eu colocaria.
— Você gosta de provocar, não é, Sheila?
— Talvez eu só goste de descobrir como as pessoas reagem.
— E o que você descobriu sobre mim?
Ela tomou mais um gole de vinho antes de responder:
— Ainda estou descobrindo.
— E pretende continuar?
Sheila sorriu.
— Se o senhor permitir, Coronel.
Balancei a cabeça, sorrindo.
— Você é perigosa.
— Não. Só sou curiosa.
— Curiosa demais, talvez.
Ela se aproximou um pouco e falou em tom mais baixo:
— Talvez eu tenha ficado curiosa desde a primeira vez que o vi.
Fiquei olhando para ela.
— Mesmo com toda essa diferença de idade entre nós?
— Talvez justamente por causa dela.
A resposta me pegou de surpresa. Ela percebeu e sorriu.
— Não precisa fazer essa cara. Eu apenas disse o que penso.
— Você sempre fala o que pensa?
— Quando encontro alguém que vale a pena conhecer, sim.
Sheila ficou alguns segundos em silêncio. Depois perguntou:
— E agora, Coronel?
— Agora o quê?
— Agora que você já sabe que eu sou curiosa, vai continuar fingindo que não percebeu?
Sorri.
— Não estou fingindo nada.
— Está, sim.
— E o que você acha que eu deveria fazer?
— Isso eu deixo para você decidir.
Foi quando ouvimos a voz do meu compadre ao longe:
— Rob!
Olhei na direção dele.
Sheila sorriu.
— Parece que nossa conversa vai ter que esperar.
— Talvez.
Ela ergueu a taça em minha direção.
— Até depois, Coronel.
— Até depois, Sheila.
Ela se afastou lentamente para encontrar Marcelo e meu compadre.Fiquei parado por alguns segundos, observando-a.
hora de ir embora
Olhei para o relógio e percebi que já estava na hora de ir embora. No dia seguinte, teria instruções às oito da manhã e precisava estar descansado.
Aproximei-me do meu compadre.
— Compadre, fica tranquilo, mas tenho que ir. Vou pegar um Uber.
Ele me olhou.
— Tem certeza?
— Tenho.
Ele então tirou uma chave do bolso e estendeu para mim.
— Tome. Fique com essa chave. Tenho outra no carro.
Peguei a chave.
— Obrigado, compadre.
Saí sem me despedir de mais ninguém e segui em direção à portaria do condomínio. Do lado de fora, fiquei aguardando o Uber.
Poucos minutos depois, um carro elétrico preto saiu do condomínio e parou do outro lado da rua. O vidro abaixou.
— Quer uma carona?
Reconheci imediatamente a voz. Era Marcelo. Olhei para o interior do carro e vi Sheila ao lado dele.
— Para onde você está indo? Perguntou ela.
— Para a casa do meu compadre.
Sheila sorriu.
— Nós moramos lá perto. Fica no norte da ilha.
— Não quero dar trabalho para vocês. De repente, um jovem casal ainda vai continuar na balada.
Marcelo riu.
— Não tem problema nenhum, Coronel.
Sheila completou:
— Entre. Não vamos deixar você esperando um Uber a essa hora.
— Tem certeza?
— Absoluta, respondeu Marcelo.
Abri a porta traseira e entrei.
Sheila olhou para trás e sorriu.
— Então vamos, Coronel.
O carro começou a seguir pela estrada.
Depois de alguns minutos, Marcelo perguntou:
— Gosta de um bom whisky, Coronel?
— Um Jack Daniel 's, por exemplo, eu disse.
Sheila olhou para o marido e sorriu.
— Olha, amor o Coronel conhece coisa boa.
Marcelo riu.
— Aceita uma dose, Coronel?
Olhei para os dois e sorri.
— Só se for agora.
Sheila pegou o copo e me entregou. Quando nossos dedos se tocaram, ela sustentou meu olhar por um instante a mais do que seria necessário.
Depois, tirou o cinto de segurança e se virou para o banco para falar comigo.
— Coronel.
— Pois não?
— Você aceitaria um último gole lá em casa?
Fiquei alguns segundos em silêncio. Olhei para Marcelo pelo retrovisor. Ele apenas dirige, tranquilo, como se aquele convite fosse a coisa mais natural do mundo. Voltei a olhar para Sheila.
— Um último gole?
Ela sorriu.
— Um último gole.
— Está bem, respondi.
Sheila voltou a se acomodar no banco.
O carro continuou seguindo pela estrada, e eu fiquei tentando imaginar o que me esperava naquela visita que, poucos minutos antes, sequer fazia parte dos meus planos.
Claro. Reuni o texto desde “Na casa de Marcelo e Sheila” até a continuação da tarde, retirando apenas repetições para que a narrativa fique fluida e contínua.
Na casa de Marcelo e Sheila
O carro deixou a avenida principal e entrou em uma rua mais tranquila. Eu observava o movimento pela janela enquanto Marcelo dirigia. Sheila permanecia no banco da frente, mas, de vez em quando, olhava para trás.
Depois de alguns minutos, Marcelo diminuiu a velocidade.
— É aqui, Coronel.
O carro entrou em um condomínio menor, igualmente tranquilo e muito bem cuidado. Parou diante de uma casa moderna, com uma iluminação discreta na entrada.
Marcelo entrou com o carro na garagem, onde percebi outros 2 carros, um novo e outro antigo.
— Chegamos.
Desci do veículo e esperei enquanto Sheila e Marcelo saíam. Ela se aproximou da porta e abriu.
— Entrem.
Passei pela sala e imediatamente percebi que a casa tinha o mesmo estilo dos dois. Elegante, organizada e sem excessos.
Marcelo foi até um pequeno bar.
— Então, Coronel, vamos cumprir a promessa.
Ele pegou uma garrafa de whisky e três copos.
— Um bom whisky para encerrar a noite.
— Agora você está falando a minha língua respondi, sorrindo.
Sheila riu.
— Eu sabia que você aceitaria.
Marcelo serviu os três copos e entregou um para mim.
— Saúde.
— Saúde.
Sheila ergueu o próprio copo.
— Às boas coincidências.
Olhei para ela.
— Coincidências?
Ela sorriu.
— A gente ter se encontrado novamente esta noite.
Bebi um pequeno gole.
— Realmente foi uma coincidência interessante.
Marcelo observava nossa conversa com um sorriso discreto.
— Minha esposa ficou bastante curiosa sobre o senhor.
Sheila olhou para ele.
— Marcelo.
— O quê? Estou mentindo?
Ela riu.
— Não.
Voltou o olhar para mim.
— É verdade. Você é diferente do que eu imaginava.
— E o que você imaginava?
Sheila pensou por alguns segundos.
— Alguém mais fechado. Mais distante.
— E agora?
Ela sorriu.
— Agora acho que estava enganada.
Marcelo então se sentou em uma poltrona.
— Rob, você ficará quanto aqui na ilha.
— Aproximadamente três semanas.
— Então teremos tempo para conversar bastante.
Olhei para ele.
— Sobre o quê?
Ele sorriu.
— Sobre muitas coisas. Jiu-jitsu, Krav Maga, carreira, experiências.
Sheila completou:
— E outras coisas que ainda vamos descobrir.
Olhei para ela. Sheila sorriu e sentou-se ao meu lado.
Percebi a proximidade e, brincando, falei:
— Cuidado, Sheila. Sentando tão perto de mim, o Marcelo vai ficar com ciúmes.
Ela sorriu, como se já esperasse aquela provocação.
— Coronel, como eu disse lá na praia, ele só fica com ciúmes quando...
Sheila olhou para o marido.
— Diga para ele, Marcelo.
Marcelo levantou os olhos e respondeu com a maior naturalidade:
— Eu só fico com ciúmes quando eu não participo.
Olhei para Sheila. Ela abriu um sorriso satisfeito.
— Viu? Eu te falei.
Estou começando a entender vocês dois.
Sheila então retirou o colete que usava e o deixou sobre o braço do sofá. Ficou apenas com uma blusa mais solta, aparentemente mais confortável, e bem mais transparente.
Ela voltou a se acomodar ao meu lado. Marcelo serviu mais um pouco de whisky nos copos. Olhei para os dois.
— Vocês realmente são um casal diferente.
Marcelo sorriu.
— Já ouvi isso algumas vezes.
Sheila completou:
— E ainda não viu nada, Coronel.
Ela ergueu o copo e sorriu para mim. Eu apenas sorri de volta. A conversa continuou por mais alguns minutos. Marcelo parecia cada vez mais à vontade, fazendo perguntas sobre minha carreira, sobre os cursos que eu ministrava e sobre algumas experiências que eu havia vivido ao longo dos anos.
Sheila, porém, parecia mais interessada em mim do que propriamente na conversa. De vez em quando, nossos olhares se encontravam. Eu percebia. Ela também sabia que eu percebia. Em determinado momento, Marcelo se levantou.
— Vou pegar mais gelo.
Ele caminhou até a cozinha, deixando Sheila e eu sozinhos por alguns instantes. Ela se virou para mim.
— Você está muito quieto, Coronel.
— Estou apenas observando.
— Observando o quê?
— Vocês dois.
Ela sorriu.
— E o que está achando?
— Que vocês realmente têm uma relação diferente.
— Diferente como?
— Ainda estou tentando entender.
— Talvez você não precise entender tudo hoje.
Antes que eu pudesse responder, Marcelo voltou com o gelo e colocou sobre a mesa.
— Então, Coronel, mais uma?
— Só mais uma.
Marcelo serviu os copos.
Continuamos conversando, Sheila falando sobre a sua profissão de médica e Marcelo falando da sua odontologia. Depois de algum tempo, percebi que já estava ficando tarde. Olhei para o relógio e lembrei que, no dia seguinte, teria compromisso cedo.
— Está ficando tarde. Amanhã preciso acordar cedo.
— Claro.
Agradeci pela recepção e me despedi dos dois.
— Foi um prazer conhecer vocês. Obrigado pela noite.
Sheila sorriu.
— Nós também gostamos muito de conhecer você, Coronel.
— Boa noite, Sheila.
— Boa noite.
— E obrigado pela carona e pela recepção.
— Não precisa agradecer.
Fiquei alguns segundos em silêncio. Só então me lembrei de um detalhe.
— Só tem um problema.
Marcelo me olhou.
— Qual?
— Eu vim com vocês. Então vou precisar de uma carona de volta para a casa do meu compadre.
Sheila riu discretamente.
— É verdade.
Marcelo pegou as chaves do carro que estavam sobre um móvel.
— Não tem problema nenhum. Nós levamos você.
— Não quero dar trabalho.
— Trabalho nenhum, Coronel respondeu Marcelo.
— Então está bem. Obrigado.
Caminhei em direção à porta, acompanhado pelos dois. Quando já estava na frente da porta de saída, Sheila me chamou.
— Coronel, preciso falar uma coisa com o senhor.
— Sim. Diga, Sheila.
Ela se aproximou alguns passos e me encarou diretamente.
— Gostaria de receber o senhor aqui em casa novamente.
— Isso é um convite, Dra.?
— Sim. Estou te convidando.
— Voltarei com o maior prazer.
— Você é diferente, Coronel. E isso mexeu comigo.
— Mexeu quanto, Sheila?
— O suficiente para eu fazer um convite mais explícito ao senhor.
— Qual?
— Durma aqui em casa hoje?
— E o Marcelo?
— Já te disse. Ele não vê problema nisso. É só deixar ele participar.
Fiquei olhando para os dois. Naquele momento, a intenção daquele convite já não deixava margem para dúvidas. Marcelo permaneceu tranquilo, como se aquela conversa fosse perfeitamente natural entre nós. Sheila então perguntou, em voz baixa:
— E então, Coronel?
Olhei para ela e sorri.
— Vocês realmente sabem como surpreender alguém.
Foi assim que tomei minha decisão. Não fui embora. Naquela noite, permaneci na casa de Sheila e Marcelo.
O que aconteceu entre nós ficou marcado pela cumplicidade dos três. Marcelo permaneceu presente, observando e registrando discretamente aqueles momentos, enquanto Sheila deixava cada vez mais claro que sua curiosidade sobre mim havia se transformado em algo muito maior.
Para mim, aquela noite representou uma mudança inesperada nos acontecimentos. Eu havia chegado à casa deles pensando que seria apenas uma visita rápida. Saí daquela noite sabendo que aquela história ainda teria muitos capítulos pela frente.





rob025