I — A boca
A primeira vez que ele a tocou foi num domingo à noite, depois do último amém. O templo inteiro deserto, os bancos de madeira ainda mornos dos corpos que tinham acabado de sair, o cheiro de suor e perfume barato pairando como uma fumaça invisível.
Gabriela guardava os hinários. Gostava desse momento. O silêncio depois das vozes. O eco dos próprios passos no piso frio. Sentia-se útil, necessária, quase dona do espaço vazio.
Quando ouviu os passos atrás dela, soube que era ele antes de ver. O peso da pisada, o ritmo pausado. Pastor Samuel não andava como os outros homens — andava como quem ocupa o mundo por direito divino.
— Gabriela.
Ela virou o rosto mas não o corpo. Os hinários contra o peito, como um escudo. Ele estava mais perto do que ela esperava. A barba aparada, os olhos escuros, um sorriso que não era exatamente um sorriso.
— Preciso falar com você.
A voz dele desceu um tom inteiro. Como se a porta do escritório dele tivesse se fechado mesmo estando os dois no meio do salão.
Ele a levou para a sala dos fundos. Onde guardavam os cabos, os projetores, as caixas de som empilhadas. Onde ninguém ia depois do culto. Onde o som das orações não alcançava.
Fechou a porta. O clic da lingueta encaixando foi o som mais nítido que ela ouviu em toda a vida.
— Você tem uma luz, Gabriela. O Espírito Santo me revelou que você está preparada para um chamado maior.
Ela sentiu o corpo inteiro formigar, como se cada poro tivesse acordado ao mesmo tempo. Um chamado. A palavra vibrou dentro dela como um glissando de órgão.
— O que eu preciso fazer?
Samuel não respondeu com palavras. Aproximou-se. O cheiro dele — alfazema, suor, algo mais profundo, terroso, masculino — ocupou o ar que ela respirava.
Ele pousou a mão no ombro dela. Um gesto pastoral. Ungido. Quantas vezes ela não vira ele impor as mãos sobre doentes, sobre endemoninhados, sobre irmãos em lágrimas? A mão dele tinha poder. Todos sabiam.
— O Pai te escolheu — ele murmurou, e começou a orar.
As palavras saíam em staccato, uma língua estranha, um êxtase controlado. Gabriela fechou os olhos. Tentou se concentrar nas palavras. No Espírito. No fogo do céu.
Mas a mão dele não parava no ombro. Desceu pela clavícula. Devagar. Como quem não tem pressa porque sabe que o tempo é servo.
Ela pensou em Abraão. No filho no altar. Na faca. Na obediência que não pergunta.
A mão encontrou o colo. Os dedos — grossos, quentes — deslizaram para dentro do decote da blusa de renda branca. Ela sentiu o contato da pele dele com a dela e um arrepio subiu da nuca até a raiz dos cabelos.
— Não tema — a voz dele estava rouca agora, ou ela estava ouvindo errado?