Não para a sala dos fundos. Para a casa dele.
— A irmã está em viagem — disse, referindo-se à esposa. — Venha às oito.
A casa do pastor ficava num bairro afastado, cercada por muros altos e uma porteira de ferro. Gabriela foi de ônibus, o coração batendo tão forte que ela achava que os outros passageiros ouviam. Vestia uma blusa preta de gola alta e uma saia mais justa que as que costumava usar. A mãe tinha perguntado onde ia. Estudo bíblico, respondeu. A primeira mentira dita em voz alta.
Ele a recebeu na porta. Em casa, sem a camisa social, sem o terno, ele era outro homem. Calça jeans, camiseta branca, os pés descalços. Parecia mais novo. Mais perigoso.
— Vem.
A casa era espaçosa. Sala com sofás de couro, TV grande, uma estante com livros teológicos e fotos da família. A esposa sorrindo no altar do casamento. Dois filhos pequenos num retrato de moldure dourada. Gabriela olhou para aqueles rostos e sentiu o estômago revirar.
— Não precisa olhar para eles — ele disse, parando atrás dela. — Olha para mim.
Ela virou.
Ele a beijou. O primeiro beijo na boca. Até então tinham sido apenas toques, penetrações, palavras murmuradas. Mas a boca dele na boca dela — a língua, o gosto de café, a pressão dos lábios — foi mais íntimo que qualquer coisa que tinham feito. Ela sentiu o beijo nos joelhos, na base da coluna, no útero.
Ele a levou para o quarto.
A cama de casal, colcha branca, um abajur aceso no criado-mudo. O ambiente era limpo, doméstico, quase sagrado na sua normalidade. Gabriela pensou na esposa dele dormindo ali, nos lençóis que ela trocava, no travesseiro onde o rosto dela descansava. A imagem deveria ter afastado o desejo. Em vez disso, o intensificou.
Ele a deitou na cama da esposa.
Tirou a roupa dela devagar, como quem desembrulha um presente que já conhece. Cada peça de roupa que saía era uma camada de história que se despia. A blusa preta. A saia justa. O sutiã branco — sempre branco, como se ela ainda tentasse manter alguma pureza simbólica. A calcinha — não mais de moça recatada, mas de renda fina, comprada numa loja do centro com dinheiro guardado do lanche.
— Você está diferente — ele disse, olhando o corpo nu dela na luz do abajur. — Mais mulher.
Ela não sabia se era elogio ou constatação.
Ele se deitou ao lado dela. Dessa vez não houje pressa. Ele a tocou com a ponta dos dedos, traçando linhas imaginárias da garganta ao umbigo, dos seios ao púbis. Gabriela sentia cada toque como uma marca de fogo. O corpo dela ardia onde ele passava.
— Quero que você me chame pelo nome — ele disse.
— Samuel.
A palavra estranha na boca dela. O pastor não tinha nome. Era "pastor", "irmão", "senhor". Samuel era um homem. Apenas um homem.
— De novo.
— Samuel.
Ele sorriu. Um sorriso que não era pastoral. Era o sorriso de um homem que sabe que possui alguma coisa.