Ele se levantou primeiro.
Gabriela viu ele se vestir. A calça subindo, o zíper subindo, a camisa sendo enfiada para dentro da calça com a mesma naturalidade de quem calça os sapatos depois de um culto. Ele parecia intacto. Como se nada tivesse acontecido.
Ela ficou no chão. Olhando a teia de aranha. A calcinha enrolada no tornozelo esquerdo. O líquido escorrendo pela coxa.
— Você pode se levantar — ele disse. Não era rude. Era prático.
Ela se levantou. As pernas tremiam. O corpo doía. A blusa branca estava amarrotada, a saia marcada, os cabelos desgrenhados.
— Você é especial — ele disse, abrindo a porta. — Isso fica entre nós e Deus.
Ela vestiu a calcinha com as mãos trêmulas. O tecido úmido encostou na pele dolorida e ela sentiu o arrepio do nojo e do desejo se misturarem no mesmo fio.
A porta se fechou. Os passos dele se afastaram.
Gabriela ficou sozinha no meio da sala, arrumando a blusa, alisando a saia, passando a mão nos cabelos. Olhou para o espelho sujo pendurado na parede.
A menina no espelho tinha os olhos de quem tinha visto alguma coisa. De quem tinha descoberto que o sagrado e o profano bebem no mesmo copo.
Ela saiu da sala. Trancou a porta dos fundos. Apagou as luzes.
Na semana seguinte, chegou mais cedo.