Olhou o teto da casa dele. A mesma laje, a mesma teia de aranha no canto — não, isso era na sala dos fundos. Aqui tudo era limpo, arrumado, certificado. A vida dele era uma superfície lisa. Ela era a rachadura que ninguém via.
Vestiu a roupa em silêncio. Ele não acordou.
Foi até a sala e parou diante dos retratos. A esposa. Os filhos. A família perfeita que existia porque Gabriela existia nas bordas, nos horários secretos, nos carpetes manchados, nas camas alheias.
Saiu sem fazer barulho.
No ponto de ônibus, as duas da manhã, ela sentou no banco de concreto e olhou para o céu. As nuvens passavam lentas sobre a lua. Ela sentiu o líquido dele escorrendo pela coxa, o corpo dolorido, o gosto de sal nos lábios.
E pensou: eu quero mais.
E pensou: eu quero que isso me destrua.
E pensou: talvez já esteja destruída.
O ônibus chegou. Ela entrou. Pagou a passagem com mãos trêmulas. Sentou no fundo, as pernas fechadas, o segredo latejando dentro dela como um segundo coração.
Na quarta-feira, ela chegou mais cedo de novo.
E na outra.
E na outra.
Até que não havia mais culto, nem oração, nem hino — só o corpo dela esperando na sala dos fundos, o corpo dele entrando, o ciclo recomeçando, a espiral descendo, o céu cada vez mais distante.
Ela não sabia mais se o que sentia era amor, vício, possessão ou fé.
Talvez fossem a mesma coisa.