Os dois dias seguintes na viagem foram um inferno e um paraíso. Um inferno de dúvidas e angústia, e um paraíso de revelações. Leticia e eles se encontraram no domingo. E a cena se repetiu. Com variações. Dessa vez, começaram na piscina dos fundos, nus, sob o sol da tarde. Eu assisti a ela ser fodida na beira da piscina, com a água batendo em seus corpos. Depois, no quarto, e naquela noite, outra madrugada silenciosa com a boca de Leticia no pênis de Mário. Na segunda-feira, não houve visita. Fiquei o dia inteiro em paz, o que me deixou mais ansioso ainda. O que significava? O ciclo tinha acabado? Ou era apenas uma pausa? Passei o dia revendo as gravações. Assistindo tudo de novo. Analisando cada detalhe. A familiaridade entre eles. A forma como Leticia olhava para Mário. Não era só o de um amante. Era algo mais. Respeito? Medo? Submissão? Um sentimento complexo que eu não conseguia decifrar. E a forma como Jorge agia. Ele era mais carinhoso, mais brincalhão. O parceiro divertido. O cúmplice. E Mário era a autoridade. O centro daquele universo. Na terça, eu voltava para casa. O avião pousou em São Paulo no início da tarde. Passei o caminho todo para casa em silêncio, com o celular desligado na bolsa. Não queria mais ver. Precisava sentir. Precisava entender. Precisava decidir o que fazer. Quando cheguei, a casa estava vazia. Leticia não estava. Deixei a mala na entrada e subi para o quarto. A cama estava arrumada. Perfeitamente. O lençol limpo, esticado, como se nada tivesse acontecido ali. Como se as noites de sexo selvagem tivessem sido um sonho meu. Mas eu sabia que não foi. Fiquei em pé no meio do quarto, olhando para a cama. E, pela primeira vez, vi a câmera. Pequena, discreta, no canto do teto. Ela olhava para a cama, para o local exato onde eu vi minha esposa ser desmembrada pelo prazer. Foi como se ela me zombasse. O olho que tudo viu, e que agora me acusava. Desci para a cozinha. Limpinha. Cheirava a limpeza. Nenhum vestígio do macarrão do sábado, do vinho, da transa na ilha. Nada. Eu me sentei na poltrona da sala, o mesmo sofá onde tudo começou, e esperei. Esperei por duas horas, sem ligar a TV, sem mexer no celular. Apenas pensando. Revivendo. Sentindo o gosto amargo da traição e o doce azedo da minha própria excitação covarde. Ouvi o carro na garagem. Minhas mãos começaram a suar. O coração bateu forte. A porta se abriu e ela entrou, sorrindo, com várias sacolas de compras. — Amooor! Você voltou! — disse ela, largando as sacolas no chão e correndo para me abraçar. O cheiro dela. O perfume dela. O corpo dela apertado no meu. Por um segundo, me senti em casa. Em paz. — Eu também te amo — disse eu, e a voz saiu mais rouca do que eu esperava. Ela se afastou um pouco, me olhando. — Tudo bem? Você está pálido. — É a viagem. Muito cansativo. Ela beijou meu rosto. — Pobre de você. Vou preparar um chá para a gente. Aí você me conta tudo. Ela foi para a cozinha, e eu a segui. A mesma cozinha. A mesma ilha onde eu a vi ser duplamente penetrada. Ela pegou a chaleira, a mesma. Encheu de água. Os mesmos movimentos graciosos. Dessa vez, porém, ela estava vestida com um vestido floral. — Alguma novidade boa por aí? — perguntou ela, sem se virar. — Não muito. Trabalho, trabalho, trabalho. E por aqui? A casa nova está tratando você bem? — Adorooo! — disse ela, virando com um sorriso largo. — Estou arrumando umas coisas na área. Quero começar a plantar no fim de semana. Ah, e a vizinhança é super tranquila. Conheci o casal da casa ao lado. O senhor Mário e o Jorge. Moram juntos há séculos. Homens adoráveis. Meu sangue gelou. O nome. A confirmação. Eles moravam ao lado. Eu estava vivendo ao lado dos amantes da minha esposa. — Ah, é? — consegui dizer. — Conhecidos seus? Ela hesitou por um milésimo de segundo. Um piscar de olhos que eu só consegui notar porque eu estava procurando por isso. — Não... bem. O Mário é pai de uma amiga do colégio. Eu já o conhecia de vista. Pequeno mundo, né? A mentira saiu tão naturalmente. Com um sorriso. Ela era boa. Muito boa. O chá ficou pronto. Sentamos na mesa. A mesma mesa onde eles comeram, beberam, riram. Eu não consegui olhar para ela. Fiquei olhando para a minha xícara, como se as folhas de chá pudessem me dar as respostas. — E... a vizinhança é boa mesmo? — perguntei de novo, tentando soar casual. — Ninguém estranho andando por aqui? Ela riu. — Não, meu amor. Ninguém estranho. Só vizinhos normais. A gente até marcou de ir jantar na casa deles sexta que vem. Pra gente se integrar, sabe? Acho que você vai gostar deles. Jantar na casa deles. Eu ia ter que sentar à mesa com eles. Sorrir. Fazer conversa. Agir como se eu não soubesse de nada. Eu não aguentava mais. A farsa. A mentira. O jogo dela. A minha covardia. — Leticia — disse eu, e minha voz estava firme, estranha. — Eu tenho uma coisa pra te dizer. Ela me olhou, o sorriso desaparecendo do rosto. Ela percebeu que a conversa tinha mudado de tom. — Eu instalei câmeras de segurança na casa antes da minha viagem. O silêncio que se seguiu foi pesado, denso. Ela ficou parada, a xícara na mão a meio caminho dos lábios. Seus olhos me encararam, e pela primeira vez, eu vi um pânico genuíno neles. — Câmeras? — disse ela, com a voz baixa. — Por quê? — Por segurança. Mas o motivo não importa agora. O que importa é que eu as deixei ligadas durante a minha viagem. E eu vi as notificações de movimento no meu celular. A cor do rosto dela desapareceu. Ficou branca como um papel. A mão dela tremia tanto que o chá derramou na mesa. — Que... que notificações? — perguntou ela, e a voz era um fio. — As notificações de sexta e de sábado. Quando o Mário e o Jorge estavam aqui. Ela fechou os olhos. Um suspiro longo e trêmulo escapou de seus lábios. Era o suspiro de alguém que foi pego. Que o jogo acabou. — Você viu... — começou ela, mas não conseguiu terminar a frase. — Eu vi tudo, Leticia. Tudo. Desde o café até o... ao resto. Ela abriu os olhos. Eles estavam cheios de lágrimas, mas nenhuma caiu. Ela olhou para mim, um longo olhar de desafio e medo. — Eu não sei o que dizer — disse ela, com a voz firme, apesar do tremor. — Acho que a única coisa que posso dizer é a verdade. Toda a verdade. Você merece isso. Mas não aqui. Não agora. Por favor, me dá um tempo. Pra mim organizar meus pensamentos. Pra você... pra você processar o que você viu. Ela se levantou, deixou a xícara na mesa e subiu para o quarto. Não olhou para trás. Eu fiquei sentado na cozinha, sozinho, no silêncio. O cheiro do chá se misturava com o cheiro da minha raiva e da minha dor. Eu esperava uma explosão. Choro, gritos, uma tentativa desesperada de mentir. Mas não. Ela pediu tempo. Para contar a verdade. Toda a verdade. O que eu tinha visto era apenas a ponta do iceberg. E eu, com minha sede de respostas, com meu coração em pedaços, concordei com a pausa. Porque, em meio à toda a dor, uma parte de mim, a parte que tinha se excitado ao vê-la com eles, ainda queria ouvir a história completa. *** Esperei uma hora. Uma eternidade. Eu não me movi da cadeira da cozinha. A casa estava em silêncio. Finalmente, ouvi passos no andar de cima. Ela descera. Tinha trocado o vestido floral por um robe de seda azul, que amarrava na cintura. O cabelo estava solto, caindo pelos ombros. Ela estava com o rosto limpo, sem maquiagem. Parecia mais jovem e mais velha ao mesmo tempo. Ela se sentou na cadeira à minha frente. Pousou as mãos sobre a mesa, abertas, em um gesto de rendição. — Ok — disse ela, com a voz calma. — Vamos falar. Onde você quer que eu comece? Onde eu queria que ela começasse? Não sabia. Tinha mil perguntas na minha cabeça, todas se atropelando. — Comece pelo começo — disse eu, com a voz seca. — Quem são eles? O que eles são pra você? Ela respirou fundo. — O Mário é advogado. Foi advogado do meu pai. E o Jorge... o Jorge é sócio dele. Mas não é só isso. Eles foram... eles foram meus tutores. — Tutores? — Sim. Depois que meu pai morreu, eu tinha dezoito anos. A mãe dele, minha avó, já tinha falecido. Minha mãe, aí... você sabe como ela é. Vive num mundo dela. Não teria como cuidar de mim. Das finanças, dos estudos. O Mário, que era executor do testamento do meu pai, se ofereceu pra ajudar. Ele e o Jorge me bancaram em tudo. A faculdade, o apartamento onde eu morei, tudo. A mente disparou. O pai dela. Eu sabia que ele havia morrido quando ela era jovem, mas ela nunca falava sobre isso. Era um assunto fechado. — E em troca de quê? — perguntei, e a pergunta saiu mais acusatória do que eu pretendia. Ela me olhou nos olhos, sem se intimidar. — Em troca de nada, no início. Eles eram amigos do meu pai. Fizeram isso por ele, e por mim. Só depois... a coisa mudou. Ela fez uma pausa, olhando para as próprias mãos. — Eu estava perdida. Meu pai era meu mundo. Quando ele se foi, eu me senti órfã, mesmo com a minha mãe por perto. O Mário e o Jorge me deram estrutura. Eles me ouviram. Eles me ensinaram. Eles me protegeram. A voz dela falhou um pouco. Ela engoliu em seco. — A proteção deles... era intensa. Controladora. Eles queriam saber onde eu estava, com quem eu estava. No começo, achei que era cuidado. Depois, comecei a sentir que era posse. Ela levantou o olhar para mim. — A primeira vez foi na noite da minha formatura. Eu fiquei bêbada. Eles me levaram para casa. Eles não... eles não me forçaram. Mas... não sei explicar. Foi como se a gente estivesse fluindo para aquilo há muito tempo. A intimidade que a gente tinha, a cumplicidade... era apenas o próximo passo. Foi confuso. Doloroso. E... bom. Num jeito doentio, foi bom sentir desejada, sentida, daquela forma. Eu fiquei em silêncio, deixando as palavras dela afundarem. História de posse, de manipulação disfarçada de cuidado. Uma garota de dezoito anos, perdida, caindo nos braços dos dois homens mais velhos que a "protegiam". — E você continuou? — perguntei. — Continuei — respondeu ela, com a voz baixa. — Por anos. Eles eram a minha família. A minha segurança. E o meu pecado. A gente tinha esse acordo. Um pacto secreto. Eu era a deles. E eles eram... eles eram o meu porto seguro. Eles me davam tudo o que eu precisava, emocionalmente, financeiramente. E em troca, eu me entregava. Era uma troca. Doentia, mas era a minha verdade. Eu senti um nó na garganta. Pude imaginar a jovem Leticia, presa numa teia de dependência e prazer confusos. — E quando você me conheceu? — perguntei, e a pergunta saiu como um sopro. — O que aconteceu aí? O rosto dela se abriu num sorriso triste. — Quando eu te conheci, foi... a salvação. Você era doce. Normal. Você não me queria possuir. Você me amava de um jeito limpo, de verdade. Eu pensei que aquela era a minha chance de escapar. De construir uma vida nova. De ser normal. Eu me apaixonei por você, de verdade. As lágrimas finalmente começaram a cair, devagar, pelos rostos dela. — Eu nao terminei com eles. eu nem tentei. Eu disse que eu ia me casar. Que eu tinha encontrado alguém. O Mário... o Mário aceitou bem. Ele disse que a vida era só minha. Que eu tinha que voar. Eu acreditava nisso. Ela limpou as lágrimas com as costas da mão. — Eles me deixaram em paz por um tempo. Mas quando a gente decidiu vir morar aqui, eu escolhi porque é perto deles e eu adoro essa sensação. Eu não sei. Eu acho que eu queria provar pra mim mesma que eu podia conviver com eles, sem que... aquilo acontecesse de novo. Mas eu estava errada. A respiração dela falhou. — Na semana da mudança, eles vieram dar os parabéns. E... a coisa aconteceu de novo. Foi diferente. Eu não era mais aquela garota assustada de dezoito anos. Eu era mulher. Eu era sua esposa. E eu... eu queria. Eu senti saudades daquela loucura, daquele poder que só aquela situação me dava. E eu cedi. Ela levantou o rosto e me encarou de novo. — A verdade é que eu sou duas pessoas, amor. A Leticia que você ama, essa aqui. E a Leticia que eles conhecem. A que se entrega sem regras. E eu não sei como viver sem as duas. Mas eu também não sei como viver com as duas e te perder. Houve um silêncio longo e pesado. Eu a olhava, a mulher que eu amava, e via uma estranha. Uma mulher cheia de segredos e de um desejo que eu não compreendia. O ciúme doía, mas a dor maior era a da mentira. Do abismo que se abriu entre nós. A verdade dela não trouxe paz. Trouxe mais perguntas. Quem era essa outra Leticia? E quem era eu, agora, nesse novo e perturbador mapa do nosso casamento? *** Ela me contou tudo. Em detalhes. Me falou da primeira vez, do prazer confuso. Me falou dos anos que se seguiram, do pacto secreto. Me falou do poder que ela sentia, de ser o centro de desejo daqueles dois homens. E, por fim, me falou de mim. — Você foi a minha esperança — disse ela, com as mãos apertadas as minhas sobre a mesa. — O meu pedaço de mundo normal. O amor que eu nunca pensei que merecesse. E eu te amo. Por isso que eu te contei tudo agora. Eu fiquei em silêncio. O que dizer? 'Perdôo'? Como perdoar algo que eu nem entendo totalmente? 'Te deixo'? Como deixar a mulher que eu amo, mesmo sabendo que ela tem um lado que me aterroriza? — Eles te amam? — perguntei, e a pergunta me surpreendeu. Ela hesitou. — Eles me amam do jeito deles. O Mário tem um amor gosta de saber que eu sou dele. O Jorge... o Jorge é mais carinhoso. Ele gosta do meu prazer, de me ver feliz. É um amor mais fácil. Mas nenhum dos dois é o nosso amor. O que a gente tem é diferente. É limpo. 'Mas não era mais', pensei comigo. A limpeza tinha sido manchada. A mentira tinha sujado tudo. Eu me levantei e fui até a janela da cozinha. O quintal dos fundos era escuro, mas eu conseguia ver o contorno da piscina. Da área onde ela mentiu dizendo que queria plantar temperos. — O que a gente faz agora, Leticia? — perguntei, sem me virar. Não houve resposta imediata. Ouvia apenas o som da respiração dela. — Eu não sei — disse ela, finalmente, com a voz fraca. — Eu entendo se você quiser me deixar. Se você não conseguir mais me olhar da mesma forma. Mas eu te peço uma coisa. Eu me virei. Ela estava de pé, com o robe azul escorrendo pelo corpo. — Não vá agora. Fique aqui hoje. Na nossa cama. Tentemos... tentemos dormir. E amanhã a gente decide. Eu olhei para ela. Para a mulher que eu amei, que eu traí ao espiá-la, que me traí ao viver uma vida paralela. E concordei. Fui para o quarto, e ela me seguiu. Deitamos na cama, de costas um para o outro, com um abismo de lençóis entre nós. O silêncio era pesado. Eu podia ouvir a respiração dela. Eu fechei os olhos e vi as cenas outra vez. Mário entrando nela com força. Jorge enchendo a boca dela. Os gemidos dela. O gozo dela. E aquela parte de mim, a parte escura, reagiu de novo. Um calor no baixo ventre, uma ereção dolorida. O silêncio do quarto era denso, um peso sólido sobre nós. Cada respiração soava alta demais, cada movimento dos lençóis, um estrondo. De costas para ela, eu sentia o calor do seu corpo a poucos centímetros, uma ilha de proximidade num oceano de distância. E o vídeo, as imagens, os sons... eles se recusavam a sair da minha cabeça. Repetiam-se em loop, projetados nas telhas escuras do meu teto. Eu me virei. Acho que ela não estava dormindo. O suspiro dela foi rápido quando meu corpo encostou no dela. Minha mão encontrou a cintura dela, sob o robe de seda. A pele estava quente. Macia. Pus meu rosto no cabelo dela, inalei o cheiro do shampoo, do perfume dela. O cheiro da minha mulher. Ela se virou lentamente na minha direção. No brilho fraco da luz da rua que entrava pela janela, eu via o brilho das lágrimas nos olhos dela. — Me diga o que você está pensando — sussurrou ela, a voz trêmula. O que eu estava pensando? Eu estava pensando no poder. Na entrega dela. No prazer selvagem e proibido que eu testemunhei. E eu estava pensando que uma parte de mim, uma parte que eu odiava e temia, queria aquilo. Queria ver de perto. Queria... participar. — Leticia... — comecei, e a voz falhou. — Quando eu vi você com eles... eu fiquei com raiva. E com nojo. Ela engoliu em seco, esperando a facada. — Mas também... também fiquei excitado. Ela não recuou. Não pareceu chocada. Ela apenas me olhou, com uma intensidade que perfurou a escuridão. — Eu sei — disse ela, e a voz estava calma, surpreendentemente calma. — Eu sabia que você ia ver. Quando você instalou as câmeras. Eu fiquei paralisado. — O quê? — Eu vi a câmera do quarto, amor. No sexta, quando eu voltei sozinha depois que eles foram embora. Vi o reflexo da lente no teto. E eu soube. Eu soube que você viu. E mesmo assim, no sábado... eu fiz de novo. Talvez... talvez eu quisesse que você visse. Que você soubesse quem eu era de verdade. A confissão dela me atingiu como um soco. Não era uma traição acidental. Era um convite. Um teste. Ela me beijou. Um beijo diferente. Molhado, de gosto de sal e de verdade. A mão dela desceu pelo meu peito, até a barriga, até a barra do pijama. Parou ali. — Você queria ver — sussurrou ela contra meus lábios. — E agora... você quer participar? O coração disparou. A cabeça gritava "não", mas o corpo, o pênis duro e latejando, gritava "sim". Ela não esperou a resposta. Abriu o nó do robe, e o tecido escorregou, expondo o corpo dela. O corpo que eu agora conhecia de um jeito novo. Ela se sentou na cama, a nudez pálida brilhando na penumbra. — Eles vêm sempre que eu chamo — disse ela, e a voz era firme, cheia de um poder que eu nunca tinha visto nela. — Eles gostam de mim. Eles gostam de te ver como um idiota que não percebe nada. Eles vão adorar saber que a gente sabe. Que a gente vai... compartilhar. Ela pegou o celular da cama de cabeceira. Dedos ágeis, sem hesitação. Abriu os contatos e ligou para o Mário. Colocou no viva-voz. O telefone tocou duas vezes antes de uma voz sonolenta e autoritária atender. — Leticia? O que foi, meu bem? Aconteceu algo? A voz dele fez meu estômago revirar. Era a voz do homem que fodera minha esposa no meu sofá. — Mário — disse ela, e a voz dela era mel, pura provocação. — Desperte o Jorge. E venham para cá. Para a nossa casa. Agora. Houve uma pausa do outro lado da linha. Eu podia imaginá-lo, sentado na cama, processando o pedido. — Agora? E o seu marido...? — Meu marido está aqui — disse Leticia, e seus olhos me encontraram no escuro, cheios de um desafio flamejante. — E ele quer te conhecer. E ao Jorge. Direito. Outro silêncio. Mais longo. E depois, uma risada baixa. Uma risada de entendimento, de predador que vê a porta da jaula se abrir. — A gente aí em cinco minutos, meu bem. A ligação cortou. O silêncio voltou a reinar, mas agora era um silêncio carregado de eletricidade. De antecipação. O pacto havia sido selado. A linha havia sido cruzada. — Aconteça o que acontecer, eu te amo — disse Leticia, e pela primeira vez, eu acreditei que aquela era a verdade completa. O amor dela, e o desejo dela, e todas as suas verdades. Não tive tempo de responder. Ouvimos o porta da garagem se abrir. Passos no chão de cimento lá fora. Ela pegou minha mão e a apertou. — Eles estão aqui. A porta da frente se abriu. Eles não bateram. Entraram como quem entra num quarto de hotel com uma chave. Mário e Jorge, ambos vestindo robes similares ao dela, como se saíssem de algum spa secreto onde pessoas como eles se reuniam. A sala ficou pequena. A energia deles preencheu o espaço. Eles pararam na porta do quarto, olhando para nós na cama. Para Leticia, nua e serena entre os lençóis. Para mim, sentado, vestido com o pijama que agora parecia uma fantasia de ingenuidade. O sorriso de Mário era de pura vitória. Ele olhou para mim, depois para Leticia. "Bem feito", o olhar dizia. "Ela é minha, afinal". Jorge, por outro lado, parecia mais curioso. Intrigado. Ele olhou para mim, e por um segundo, vi uma ponta de empatia nos olhos dele. Ou talvez fosse apenas a avaliação de um novo jogador no tabuleiro. — Então o menino descobriu nosso segredinho — disse Mário, com a voz debochada, dando um passo para dentro do quarto. — Ele não só descobriu — respondeu Leticia, sentando-se mais, os seios firmes à mostra. — Ele quer jogar. Mário parou. Jorge franziu a testa, surpreso. O silêncio foi total. O poder no quarto havia mudado de mãos. Não era mais deles. Era dela. E, por extensão, era meu. Ela se virou para mim, a mão subindo pela minha coxa, até a ereção óbvia que eu não conseguia mais esconder. — Ele tá pronto — disse ela para eles, e a mão dela apertou meu pênis através do tecido do pijama. Aquilo quebrou o feitiço. Mário deu uma risada, uma risada genuína dessa vez, de pura diversão. Ele desfez o nó do robe e o deixou cair no chão. Sua rola já estava dura, apontando para nós. — Bem-vindo ao clube, garoto — disse ele. Jorge também se despiu, com um sorriso mais contido. Seu corpo era mais enrugado, mas forte, com um pênis grosso e já ereto. Eles se aproximaram da cama. O cheiro deles, um cheiro de homem mais velho, de poder, de sabedoria, me envolveu. Eu estava com o coração na garganta, com medo e com uma fome que nunca tinha sentido. Leticia se mexeu, fazendo espaço entre nós. Ela puxou meu pijama, e eu me deixei fazer. Fiquei nu ali, na frente deles, com minha rola dura e pulsando, exposta e vulnerável. Mário sentou-se na minha cama. E Leticia, com uma graça de sacerdotisa, se ajoelhou na frente dele. Sem dizer uma palavra, ela pegou a rola dele e a levou à boca. Eu vi de perto agora. Vi a língua dela, a forma como seus lábios se fechavam em volta da glande dele. O gemido baixo de Mário. Ela o chupava com uma dedicação que era ao mesmo tempo um presente para ele e um espetáculo para nós. Para mim. E para Jorge, eu me ajoelhei atrás dela, passando as mãos pelas costas dela, pelo bumbum, mergulhando os dedos na umidade dela. — A gente tem que dar as boas-vindas ao seu marido, Leticia — disse Mário, com a voz rouca, passando a mão pelo cabelo dela. Ela tirou a boca da rola dele e se virou para mim. Os olhos dela brilhavam. Ela não disse nada. Apenas me beijou. Um beijo com o gosto do Mário ainda nos lábios dela. Depois, com a mão, ela me guiou. Empurrou minha cabeça para baixo, em direção a sua bunda. Entendi. Com o coração martelando, eu me abaixei. O cheiro dela, a visão dela de perto... Eu entrei com a língua. Pela primeira vez, provei a minha esposa daquela forma. A Leticia que eles conheciam. Ela gemeu, um som profundo, de satisfação. Ela voltou para a rola de Mário, e a cena se repetiu, mas agora eu era parte dela. Jorge se ajoelhou ao meu lado. Ele também queria ver. Ele também queria provar. Ele passou a mão nas minhas costas, um toque estranho, de cumplicidade. — Deixa ela gozar na sua boca, garoto — sussurrou ele no meu ouvido. E eu fiz. Eu lbei e chupei a buceta dela até sentir o corpo dela tremer, até ouvir os gritos abafados dela no pênis de Mário. — Agora você — disse Mário, olhando para mim. Ele se levantou e me puxou. Ele me deitou na cama, onde ele estava. Minha cabeça girava. Leticia me olhou, com um sorriso. Com uma habilidade que só a prática dá, ela me montou. Enfiou minha rola nela de uma só vez. O calor, a umidade, o aperto dela... aquele cuzinho agora estava cheio de mim. Ela começou a se mover, e eu me perdi. — Chupa o Mário de novo — ordenou Jorge, que estava de pé, observando tudo. Leticia se inclinou para frente, sem parar de me cavalgar, e pegou a rola de Mário com a boca. E nós três nos movemos juntos. Eu dentro dela, ela em mim, e a boca dela nele. Foi um caos de sensações. A visão da mulher que eu amava fodendo comigo enquanto chupava outro homem. A mão de Jorge na bunda dela, tocando a base do meu pênis enquanto ele se preparava. A voz de Mário, incentivando, comandando. — Entra nela, Jorge. Deixa o menino sentir como é a verdadeira Leticia. Jorge obedeceu. Ele ajoelhou-se na frente dela. Eu senti a pressão dele. Ela gemeu alto, com a rola de Mário ainda na boca. E aí eu senti. Eu senti a rola dele entrando nela, ao lado da minha. O calor, a fricção. Eu senti o corpo dela se abrir para nos dois. — Fode com ela — disse Mário para nós. E nós fodemos. Um ritmo lento no começo, estranho. Depois mais rápido. Mais forte. Leticia gritava, louca de prazer. As mãos dela se agarravam nos peitos de Mário. Nós três nos conectados. Fodendo a minha esposa juntos. levantamos com ela no colo e continuamos a socar nela de frente, vendo o rosto de tesão dela. Ela se agarrava em nós, gemendo. — Fode minha buceta — pedia ela. — Encham ela. Ela foi a primeira a gozar. Um grito que abafou a casa. O corpo dela tensionou inteiro, um espasmo que me apertou e apertou a rola de Jorge. E isso nos levou ao limite. Eu senti o orgasmo subindo, impossível de segurar. — Dentro dela — grunhi. — Dentro. — Eu também — gritou Jorge. E nós gozamos juntos. Dentro dela. Duas rolas gozando ao mesmo tempo na minha esposa, enchendo ela de porra. O prazer foi doloroso. Intenso. Humilhante e glorioso. Ficamos assim por um tempo. Depois, nos separamos. Leticia caiu na cama, entre nós, exausta. Jorge se deitou do outro lado. Mário ficou sentado na beira da cama, olhando para nós. — Bem-vindo ao clube, garoto — repetiu ele, com um sorriso satisfeito. Eu olhei para Leticia. Ela me olhou de volta. E pela primeira vez, eu vi as duas Leticias se fundirem numa só. A mulher que eu amava e a mulher que se entregava. E no meu peito, em meio ao nojo e à exaustão, nasceu um sentimento novo e aterrorizante. Eu queria fazer aquilo de novo. Eu queria mais. A respiração na sala era um entrelaçado de ofegantes, uma sinfonia pós-clímax de quatro corpos exaustos. O cheiro era denso, uma mistura animalística de suor, sexo e o perfume de Leticia, agora tingido com o odor dos outros três homens. A luz fraca do amanhecer começava a se infiltrar pelas persianas, desenhando listras cinzentas sobre o caos de membros na cama. Eu estava flutuando. Não em paz, mas em um vácuo. O mundo que eu conhecera tinha implodido, e dos escombros nascera essa nova, aterrorizante realidade. O nojo ainda estava lá, como uma náusea no fundo da minha garganta, mas era amortecido pelo eco do prazer que ainda vibrava em cada fibra do meu ser. Mário se levantou primeiro. Ele se moveu com uma autoridade calma, como se o próprio quarto lhe pertencesse. Foi até o banheiro e eu ouvi o som do chuveiro. Ele não fechou a porta. Jorge roncou baixinho, virando de lado, de costas para nós. Seu corpo relaxado contradizia a fúria que ele demonstrara minutos antes. Fui Leticia quem quebrou o silêncio. Ela se virou de lado para me encarar. Seus olhos estavam vermelhos, mas não de tristeza. Eles brilhavam de um alerta que eu nunca tinha visto, uma consciência afiada. — E aí? — sussurrou ela, a voz rouca. — Ainda me ama? A pergunta me atingiu como um chute no estômago. Era direta, cruel e necessária. Eu não consegui responder imediatamente. Eu olhei para ela. Para os seios marcados, a pele vermelha de mordidas, a bunda avermelhada. Minha mulher. A puta dos meus vizinhos. Minha salvação. Minha ruína. — Eu não sei quem você é — disse eu, e a verdade das palavras me doeu. — Mas... acho que eu ainda te amo. Acho que eu te amo mais. Ou odeio mais. Não sei a diferença agora. Um sorriso triste e satisfeito tocou os lábios dela. — É o começo. Ela se aproximou e me beijou sentando de frente para mim encaixando sua buceta umida de semem de outro. Um beijo diferente. Não era o beijo de antes, carinhoso e reconhecível. Era o beijo de agora. Compartilhado. Saboroso com o gosto dela, meu, e o resquício dos outros. — Você fez bem em me entregar — disse ela contra meus lábios. — Isso muda tudo. Mário voltou do banheiro, com uma toalha amarrada na cintura. Seu cabelo estava molhado, e ele parecia rejuvenescido, energizado pelo poder. — A gente tem que ir — disse ele, olhando para o relógio que não estava no seu pulso. — O dia de trabalho espera. A vida real, sabe como é. Ele foi até a cama, mas não olhou para mim. Ele olhou para Leticia. Ajeitou o cabelo dela, um gesto de posse surpreendentemente terno. — querem mais hoje a noite? — Acho que sim — disse Leticia, olhando para mim, a decisão sendo tomada por nós três. — Acho que a gente ainda tem muita coisa pra... conversar. Mário sorriu. Um sorriso de dono. — Pode deixar. A gente volta à noite. E dessa vez, a gente traz presentes. Ele se virou e acordou Jorge com um empurrão no ombro. — Levanta, preguiçoso. Volta pra casa. Jorge bocejou e se esticou. Ele olhou para nós, para Leticia e para mim, e piscou, como se estivesse se acostumando com a nova configuração do quarto. — Foi... um dia, hein, rapaz — disse ele para mim, com um tom de camaradagem que me deixou desconfortável. Eles se vestiram. Não falaram mais. Saíram do quarto, e eu ouvi a porta da frente se fechar com um clique suave, deixando um silêncio retumbante para trás. Fomos nós dois de novo. Na nossa cama. No meio da bagunça. Leticia se sentou, puxando o lençol para cobrir os seios, como se a modéstia tivesse voltado de repente. — E agora? — perguntei, e minha voz era um sussurro. — Agora a gente vive — disse ela, com uma surpreendente normalidade. Ela se levantou e foi para o banheiro. Eu ouvi o chuveiro ligar de novo. Fiquei na cama, olhando para o teto, para a câmera. O olho que viu tudo. E que agora veria tudo de outro jeito. Ele me disse. Eu não podia sair correndo. Não podia gritar. Não podia chorar. Eu tinha que entrar. Me tornar parte daquela história, ou ela me devoraria. Eu tinha que entender. O poder. A entrega. O porquê. Leticia voltou do banheiro, envolta numa toalha. O cabelo molhado caía sobre os ombros. Ela parecia limpa, lavada. — Você precisa aceitar quem eu sou — disse ela, parando na porta do banheiro. — Não só a Leticia que você ama, mas a outra também. A que eu gosto de ser. A que você... a que você gosta de ver. Ela estava certa. Eu gostava. Odiava, mas gostava. A dualidade me destruía e me excitava. — Como eu faço isso? — perguntei, e a pergunta era um pedido de ajuda. — Senta — disse ela, indicando a cadeira do canto do quarto, a mesma cadeira onde Jorge tinha sentado para assistir. Eu obedeceu, me sentando nu, vulnerável. Ela soltou a toalha. O corpo dela, sob a luz do dia que agora entrava mais forte, ainda tinha as marcas da noite. Pequenas hematomas roxas na pele dos seios e das coxas. A pele avermelhada em volta do bumbum. Ela não se envergonhou. Ela se exibiu. Girou lentamente, me mostrando cada parte. — Esta é a minha pele — disse ela. — E estes são os vestígios do meu prazer. Você precisa aprender a olhar para eles e não sentir nojo, mas... curiosidade. Ou até orgulho. Pride. Ela se aproximou, ajoelhou-se na minha frente. — Mário não só fode comigo — disse ela, com a voz baixa e confidencial. — Ele me ensina. Ele me ensina sobre poder. Sobre controlar e ser controlada. Ele me dá a dor que se transforma em prazer. — E o Jorge... o Jorge é a carícia. O riso. Ele me lembra que o sexo pode ser divertido, leve. Ele me ama com o corpo, sem perguntas. Ela se levantou. — E você... você é o meu coração. O meu porto seguro. O amor que eu pensei que teria que abandonar para ser feliz. O amor que eu quero, mesmo agora. Ela se ajoelhou de novo e pegou minha mão, levando-a ao seio dela. A pele estava macia. — Toque — sussurrou ela. — Sinta. Eu toquei. Senti a maciez, o bico duro. E senti a leve depressão da mordida de Jorge. — Isso não é uma traição — disse ela. — É uma memória. É uma parte de mim. Uma parte que, se você aceitar, pode ser uma parte da gente. Ela me beijou. Um beijo lento, profundo. Enquanto nos beijávamos, ela passou a mão no meu pênis, que estava mole, inerte. — Ele não está com medo? — perguntou ela, com um sorriso. Ela me beijou de novo, e dessa vez, eu comecei a responder. O pênis começou a latejar, a acordar sob o toque dela. — É isso — sussurrou ela. — Deixe ele sentir. Ela me chupou ali. Na frente da cadeira. Com uma calma, uma devocão. Ela não estava tentando me fazer gozar. Ela estava me reivindicando. Restaurando a ordem. Mostrando a mim e a ela quem mandava ali, no centro daquele novo universo. Quando eu estava duro, ela parou. Ela se levantou, me ofereceu a mão. Eu a segurei e me levantei. Ela me levou de volta para a cama. — Deita-se — disse ela. Eu me deitei e ela se ajoelhou entre minhas pernas. Ela pegou minha rola e começou a se masturbar com ela, esfregando a ponta na sua xoxota, no seu clitóris. Ela fechou os olhos. — Assim — gemeu ela. — Assim a gente se reconecta. Ela montou em mim, devagar. Olhou nos meus olhos enquanto eu entrava nela. — É só meu — disse eu, e a voz saiu como um grunhido possessivo. Ela sorriu. — É só seu — mentiu ela. — E dele. E dele. E meu. Ela começou a se mover. E eu a segurei. Eu a segurei com força. Bati nela. A fodi com uma raiva que eu não sabia que tinha. A raiva de ter sido traído. A raiva de ter gostado. Ela gemeu mais alto, pediu mais. — Diz que você é meu — grunhi. — Sou seu — gemeu ela. — Sou sua. Enche meu cuzinho com sua porra. E aí eu gozei. Gozei dentro dela com um grito. Um grito de raiva e de paixão. Depois do gozo, caímos na cama exaustos. O silêncio retornou, mas agora era um silêncio diferente. Era o silêncio da rendição. Minha rendição. — Agora, você está um pouco mais perto de entender — disse ela, com a voz suave. — Agora, você sabe como é. O poder. A entrega. O prazer de perder o controle. Eu não respondi. Eu olhei para o teto. E pela primeira vez, eu não vi as cenas. Eu não vi as traições. Eu vi apenas a mulher que eu amava. E a mulher que eu queria destruir. E eu não sabia qual delas era mais real. *** Naquela manhã, fomos para o trabalho. Eu, para o escritório. Ela, para o salão de beleza . Fomos juntos no meu carro. O silêncio no trajeto era diferente. Não era mais um silêncio pesado, carregado de acusações não ditas. Era um silêncio de entendimento. Um silêncio conspiratório.
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