O Corno No ano de 1784, em uma casa discreta nos arredores de Versalhes, o senhor de Montclair acreditava-se feliz. Tinha trinta e oito anos, uma esposa de vinte e quatro chamada Hélène, e a certeza de que a virtude conjugal era o único bem que a fortuna ainda não lhe roubara. Montclair era homem de hábitos regulares, de orações matinais e de uma fé tímida na ordem das coisas. Hélène, ao contrário, possuía olhos que nunca baixavam por pudor, apenas por cálculo. Certa noite, depois de um jantar em que o vinho circulou mais do que o costume, Hélène sentou-se no colo do marido e beijou-lhe a testa com doçura teatral. — Meu caro, — murmurou — a natureza detesta a monotonia. E o casamento, quando se torna rotina, é a mais cruel das prisões. Montclair sorriu, acreditando tratar-se de brincadeira. Não viu o olhar que ela trocou com o jovem secretário do vizinho, um tal de Julien, de vinte e seis anos, corpo firme e mãos que nunca haviam conhecido o trabalho pesado. Mais tarde, quando as luzes se apagaram, Hélène conduziu o marido até o quarto. Pediu-lhe que se deitasse de costas, os pulsos amarrados com faixas de seda “por diversão”. Montclair aceitou, lisonjeado. Foi então que a porta se abriu e Julien entrou, já sem casaco, o pau semi-erecto sob a camisa aberta. — O que é isto? — gaguejou Montclair. Hélène, ajoelhada entre as pernas do marido, respondeu com a calma de quem recita um catecismo invertido: — Isto, meu amor, é a verdade. Você é corno. E vai assistir. Julien aproximou-se. Hélène abriu as coxas sobre o rosto do marido, oferecendo-lhe a visão íntima da própria vagina já úmida. Depois, com gestos precisos, guiou o membro de Julien até a entrada. O jovem penetrou-a de uma só vez, fundo, enquanto Montclair, imobilizado, sentia as gotas quentes do prazer da mulher caírem sobre seus lábios. — Olhe bem — ordenou Hélène, gemendo. — Este é o pau que me fode de verdade. O seu apenas enche o vazio quando não há outro. A natureza prefere a força, a juventude, a insolência. Você oferece segurança. Ele oferece desejo. Julien a fodia com ritmo brutal, as mãos apertando os seios de Hélène, os quadris batendo contra a carne macia. Cada estocada fazia o corpo dela tremer sobre o rosto do marido. Montclair tentava fechar os olhos, mas Hélène puxava-lhe os cabelos. — Não desvie o olhar, corno. Aprenda. A virtude que você venera é apenas o medo de perder o que nunca possuiu de verdade. Eu nunca fui sua. Fui apenas emprestada à sua vaidade. Quando Hélène gozou, o líquido escorreu sobre a boca de Montclair. Julien retirou-se, ainda duro, e a obrigou a ajoelhar-se. Ela chupou o pau do amante com voracidade, enquanto o marido, amarrado, via a própria esposa engolir o sêmen alheio com um gemido de satisfação. Depois, ainda não satisfeita, Hélène sentou-se novamente sobre o rosto de Montclair e mandou Julien fodê-la de novo, desta vez pelo cu. O jovem obedeceu. O marido sentiu o peso, o cheiro, o movimento, e ouviu as palavras finais da mulher: — Agora você compreende. O corno não é aquele que é traído. É aquele que, mesmo vendo, continua a acreditar que o casamento é sagrado. Eu te liberto, Montclair. Da ilusão. Quando enfim o sol raiou, Julien vestiu-se e saiu sem uma palavra. Hélène desamarrou o marido, beijou-lhe a testa manchada e sussurrou: — Amanhã à noite, trarei outro. A natureza não se cansa. Montclair permaneceu imóvel na cama. Pela primeira vez em anos, não rezou. Apenas olhou para o teto e, num sussurro quase inaudível, admitiu a única verdade que restava: — Eu sou o corno. E, no fundo daquela confissão, algo se libertou. — Fim —
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