A DAMA DO LOTAÇÃO: PEGANDO O ÔNIBUS A PRIMEIRA VEZ COMO VIÚVA
Três dias depois do enterro, Solange saiu de casa pela primeira vez como viúva. Não havia mais ninguém. A empregada só vinha de manhã. Hélio mandara mensagem perguntando se precisava de alguma coisa; ela respondera apenas “não”. O vestido preto ainda cheirava a terra e a sêmen seco. Ela tirou-o, colocou uma saia justa cinza e uma blusa simples. Sem calcinha. Sem sutiã. O corpo ainda marcado pelos acontecimentos dos últimos dias, mas já inquieto. Pegou o 474 no ponto de sempre. O ônibus veio pela metade. Solange subiu, pagou a passagem com a mão um pouco trêmula e foi até o fundo. Sentou-se no banco junto à janela, o mesmo de sempre. A saia subiu ao sentar. A pele nua das coxas tocou o tecido áspero do banco. Ela cruzou as pernas e sentiu o atrito direto no clitóris. Uma pontada de prazer subiu pela barriga. Fechou os olhos por um segundo. Alberto estava morto. A casa estava vazia. E ela estava ali, de novo, no ônibus, sem calcinha, sentindo o balanço do veículo entre as pernas. O ônibus foi enchendo. No ponto da Central subiu um homem de uns quarenta anos, camisa social amarrotada, pasta na mão. Olhou o fundo, viu o lugar ao lado de Solange e veio. Sentou-se. A coxa dele tocou a dela. Solange não se afastou. O homem ajeitou o corpo, abriu um pouco mais as pernas. O joelho dele pressionou o dela. Solange abriu as próprias pernas um centímetro. Depois outro. O homem percebeu. A respiração dele mudou. A mão direita desceu devagar e pousou no próprio joelho. Os dedos se mexeram. Depois subiram pela calça, fingindo ajeitar o tecido. Solange continuou olhando pela janela, o coração batendo forte no peito. A mão dele escorregou e tocou a pele nua sob a saia. Os dedos quentes, um pouco úmidos de suor. Solange prendeu a respiração e abriu mais as pernas. Ele enfiou dois dedos de uma vez. Solange mordeu o lábio inferior. Os dedos entraram com facilidade — ela já estava molhada desde que saíra de casa. O homem masturbou-a ali mesmo, no meio do ônibus, com movimentos curtos e discretos. O polegar encontrou o clitóris e começou a esfregar. Solange manteve o rosto voltado para a janela, os olhos semicerrados, a boca entreaberta. O ônibus balançava. Cada solavanco fazia os dedos entrarem mais fundo. Ela gozou em silêncio. O corpo tremeu leve, as coxas apertaram a mão do homem, o líquido escorreu pelos dedos dele e molhou o banco. O homem tirou a mão devagar, olhou para os dedos brilhantes e, sem disfarce, levou-os ao nariz e cheirou. Depois limpou na própria calça. Solange continuou olhando pela janela. As pernas ainda tremiam. No próximo ponto o homem se levantou e desceu sem dizer uma palavra. Solange ficou sentada. A saia úmida entre as coxas. O cheiro do próprio gozo subindo. O coração ainda acelerado. Pela primeira vez desde a morte de Alberto ela sentia algo parecido com paz — uma paz suja, molhada, anônima. Quando o ônibus chegou ao ponto final, ela não desceu logo. Ficou mais alguns minutos no banco vazio, as pernas abertas, a mão descendo por baixo da saia, terminando o que o desconhecido começara. Gozeu de novo, sozinha, no fundo do ônibus parado, a testa apoiada no vidro sujo. Depois se levantou, ajeitou a saia e desceu. No caminho de casa, sentia o líquido escorrer pela coxa a cada passo. As pessoas passavam. Ninguém olhava duas vezes. Solange sorriu pela primeira vez desde o enterro — um sorriso pequeno, íntimo, quase secreto. Chegou em casa. Tirou a saia molhada. Deitou nua na cama de casal, ainda quente do sol da tarde, e se masturbou mais uma vez, os dedos cheirando ao homem do ônibus. Gozeu olhando o teto, a boca aberta, o nome de Alberto atravessando a cabeça sem deixar dor. Só deixando espaço. Espaço para o próximo ônibus. Para a próxima mão. Para o próximo pau anônimo. Alberto estava debaixo da terra. E ela, finalmente, começava a viver.
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