BONITINHA, MAS ORDINÁRIA: O PAI E A MÃE DESCOBRINDO
A manhã seguinte começou com o cheiro. Maria Cecília dormiu até quase as dez, nua, as pernas ainda abertas sobre o lençol manchado. O sêmen tinha secado em crostas brancas na coxa e na bunda. O vestido rasgado jazia no chão, junto com o que restava da calcinha. Quando a empregada bateu na porta perguntando se ela queria café, Maria Cecília apenas murmurou que não e pediu que a deixassem quieta. O pai foi o primeiro a notar alguma coisa errada. Desceu para a garagem por volta das onze. Precisava do carro. Ao abrir a porta do motorista, o cheiro bateu nele como um tapa: sexo seco, suor masculino, terra. O banco de couro estava manchado. Havia marcas esbranquiçadas no estofado, perto do assento. Ele ficou parado olhando. Passou o dedo na mancha. O tecido estava áspero, pegajoso. O coração começou a bater mais fundo. Subiu as escadas sem fazer barulho. Parou na porta do quarto da filha. Bateu uma vez. Não esperou resposta. Abriu. Maria Cecília ainda dormia de bruços, o lençol caindo até a cintura. A bunda estava à mostra. As marcas de tapa, vermelhas e roxas, eram claras sob a luz do dia. O pai parou na soleira. A respiração sumiu. Os olhos desceram para o chão: o vestido rasgado, a calcinha destruída, o cheiro forte de sexo impregnado no quarto. Ele entrou. Fechou a porta atrás de si. — Maria Cecília. Ela se mexeu, ainda sonolenta. Virou o rosto. Quando viu o pai parado ali, os olhos baixos na bunda marcada, não se cobriu. Apenas se levantou devagar, nua, e sentou-se na beira da cama. As coxas se abriram um pouco. O pai viu o ressecado entre as pernas, a buceta ainda inchada, as crostas brancas. — O que foi que você fez? — a voz dele saiu baixa, rouca, quase sem força. Maria Cecília olhou para ele sem baixar a cabeça. — O carro quebrou. Na estrada. — E esses homens? Ela não mentiu. — Foram três. Negros. Me pegaram no mato. Me comeram. Os três. O pai deu um passo à frente. A mão tremeu. Por um segundo pareceu que ia bater. Não bateu. Só ficou olhando o corpo da filha: as marcas, o sêmen seco, o jeito como ela não tentava se esconder. — Você… deixou? Maria Cecília segurou o olhar dele. — Não gritei o suficiente. E depois… eu gozei. O silêncio que se seguiu foi pior do que qualquer grito. O pai abriu a boca, fechou, abriu de novo. O rosto passou de vermelho a pálido. Ele olhou para o lençol manchado, para o vestido no chão, para a filha nua e marcada na cama que ele mesmo tinha comprado quando ela era menina. — Vista uma roupa — conseguiu dizer, a voz falhando. — Agora. Maria Cecília se levantou. Não se apressou. Passou por ele nua, pegou uma camisola no armário e vestiu devagar, sem se virar de costas. O tecido fino ainda deixava as marcas da bunda à mostra. O pai desviou o olhar, mas tarde demais. Na porta, antes de sair, ele falou sem se virar: — Ninguém pode saber. Ninguém. Maria Cecília respondeu com a voz calma, quase doce: — Já sabe o senhor. O pai saiu e bateu a porta. Maria Cecília ouviu os passos pesados descendo a escada. Depois o barulho de um copo quebrando na sala. Depois o silêncio. Ela voltou até a cama, deitou de novo sobre o lençol sujo e passou a mão entre as pernas. Ainda doía. Ainda latejava. E, enquanto o pai destroçava alguma coisa lá embaixo, ela se masturbou devagar, lembrando dos três homens, dos tapas, do pau no cu, e gozou em silêncio com o cheiro do pai ainda impregnado no corredor. A casa nunca mais seria a mesma. E ela sabia. O pai encontrou a mulher na sala. Ela estava sentada no sofá, o terço na mão, os olhos vermelhos de quem já desconfiava de alguma coisa desde a véspera. Quando viu o rosto do marido, soube na hora. A cor desapareceu da face. — O que foi? — perguntou, a voz já falhando. Ele ficou de pé no meio da sala, as mãos tremendo. Demorou a falar. Quando falou, a voz saiu baixa, como se cada palavra doesse: — A Maria Cecília. A mãe apertou o terço. — O que aconteceu com ela? — O carro quebrou. Ontem à noite. Na estrada. Silêncio. — E? O pai engoliu em seco. Os olhos estavam úmidos de raiva e de outra coisa que ele não queria nomear. — Três homens. Negros. Ela… eles pegaram ela. No mato. A mãe abriu a boca, mas nenhum som saiu. O terço caiu no colo. As mãos foram ao rosto. — Meu Deus… — Ela não gritou o suficiente — continuou o pai, a voz agora mais dura. — E depois… ela disse que gozou. A mãe soltou um gemido abafado, como se tivesse levado um soco. Levantou-se de súbito, cambaleando. — Isso é mentira. Minha filha não… — Eu vi as marcas — cortou ele. — Vi o sêmen seco nela. Vi o vestido rasgado. Vi a cama. Ela me contou. Olhando na minha cara. Sem chorar. A mãe deu um passo atrás e caiu de novo no sofá. As mãos tremiam tanto que o terço escorregou para o chão. Ela começou a rezar baixo, palavras embaralhadas, os olhos fechados com força. O pai caminhou até a janela. Ficou olhando a rua sem ver nada. — Ninguém pode saber — disse, de costas. — Ninguém. Se isso vazar, estamos acabados. O nome. A casa. Tudo. A mãe abriu os olhos. A voz saiu rouca, quase um sussurro: — E ela? O que vamos fazer com ela? — Vamos trancar. Vamos dizer que está doente. Vamos impedir que saia. E vamos rezar para que isso nunca mais se repita. A mãe balançou a cabeça devagar, as lágrimas escorrendo agora sem controle. — Ela está perdida, José. Nossa filha está perdida. O pai não respondeu. Continuou olhando a rua. Lá em cima, no quarto, o barulho da cama rangendo baixinho chegou até eles — um ritmo lento, constante, inconfundível. Maria Cecília estava se masturbando de novo. Os dois ouviram. Nenhum dos dois subiu. A mãe apertou o terço com força até os nós dos dedos ficarem brancos. O pai fechou a janela com um estrondo. E a casa inteira ficou em silêncio, exceto pelo barulho vindo do quarto de cima.
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