BONITINHA, MAS ORDINÁRIA: A CONVERSA ENTRE OS PAIS...
O pai encontrou a mulher na sala. Ela estava sentada no sofá, o terço na mão, os olhos vermelhos de quem já desconfiava de alguma coisa desde a véspera. Quando viu o rosto do marido, soube na hora. A cor desapareceu da face. — O que foi? — perguntou, a voz já falhando. Ele ficou de pé no meio da sala, as mãos tremendo. Demorou a falar. Quando falou, a voz saiu baixa, como se cada palavra doesse: — A Maria Cecília. A mãe apertou o terço. — O que aconteceu com ela? — O carro quebrou. Ontem à noite. Na estrada. Silêncio. — E? O pai engoliu em seco. Os olhos estavam úmidos de raiva e de outra coisa que ele não queria nomear. — Três homens. Negros. Ela… eles pegaram ela. No mato. A mãe abriu a boca, mas nenhum som saiu. O terço caiu no colo. As mãos foram ao rosto. — Meu Deus… — Ela não gritou o suficiente — continuou o pai, a voz agora mais dura. — E depois… ela disse que gozou. A mãe soltou um gemido abafado, como se tivesse levado um soco. Levantou-se de súbito, cambaleando. — Isso é mentira. Minha filha não… — Eu vi as marcas — cortou ele. — Vi o sêmen seco nela. Vi o vestido rasgado. Vi a cama. Ela me contou. Olhando na minha cara. Sem chorar. A mãe deu um passo atrás e caiu de novo no sofá. As mãos tremiam tanto que o terço escorregou para o chão. Ela começou a rezar baixo, palavras embaralhadas, os olhos fechados com força. O pai caminhou até a janela. Ficou olhando a rua sem ver nada. — Ninguém pode saber — disse, de costas. — Ninguém. Se isso vazar, estamos acabados. O nome. A casa. Tudo. A mãe abriu os olhos. A voz saiu rouca, quase um sussurro: — E ela? O que vamos fazer com ela? — Vamos trancar. Vamos dizer que está doente. Vamos impedir que saia. E vamos rezar para que isso nunca mais se repita. A mãe balançou a cabeça devagar, as lágrimas escorrendo agora sem controle. — Ela está perdida, José. Nossa filha está perdida. O pai não respondeu. Continuou olhando a rua. Lá em cima, no quarto, o barulho da cama rangendo baixinho chegou até eles — um ritmo lento, constante, inconfundível. Maria Cecília estava se masturbando de novo. Os dois ouviram. Nenhum dos dois subiu. A mãe apertou o terço com força até os nós dos dedos ficarem brancos. O pai fechou a janela com um estrondo. E a casa inteira ficou em silêncio, exceto pelo barulho vindo do quarto de cima.
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