Adriana acordou antes do despertador tocar. Sempre acordava. O corpo dela já sabia que aquele dia era diferente, mesmo antes de o cérebro lembrar. Ficou deitada alguns segundos olhando o teto de gesso do quarto, sentindo o coração bater meio rápido demais, e então o celular vibrou em cima do criado-mudo.
Era o grupo das amigas
"Adri acorda!!!"
"Vamo meninas, faltam 40 min"
"Tá meia hora, corre"
"Ela tá atrasadaaaaa"
"Adri, se você furar a gente te mata"
Era a Bia, a Carol, a Larissa e a Juliana. As cinco juntas desde a sexta série. As cinco inseparáveis. As cinco que, por algum milagre ou por algum capricho do destino, eram também as cinco mais bonitas do colégio — coisa que ninguém falava em voz alta, mas que todo mundo comentava baixinho no portão da escola.
Adriana sorriu, jogou o cobertor pro lado e digitou:
"Tô acordada, calma. Já vou."
Só que "já vou" era mentira. Ela passou os dez minutos seguintes parada na frente do espelho do banheiro, Nunca tinha desfilado. Nunca. Ela era boa na escola, boa nas provas, mas quando se tratava de ficar na frente de gente, o corpo travava. E ali, no desfile, ela não ia ficar no meio da fila, escondida atrás das outras. Não. Ela ia ficar na frente. As cinco iam ficar na frente.
O treinador se chamava Sandro. Trinta e poucos anos, sorriso fácil, jeito de quem conhece gente, jeito de quem sabe exatamente o que faz e — diziam — sabe exatamente o que quer. A fanfarra do colégio tinha sido dele durante três anos, e em três anos ele tinha transformado aquela coisa murcha de banda escolar numa apresentação que a cidade inteira ia ver.
Esperto de um jeito que assustava um pouco. Ele sabia onde pisar, quando elogiar, quando apertar o ombro de uma aluna e dizer "tá quase perfeito". Sabia também que a cidade ia parar na avenida naquele sábado, que as arquibancadas iam ficar cheias, e que ele, Sandro, seria o cara que assinou aquilo tudo.
E ele queria que fosse top. Não um desfilezinho. Um espetáculo. Com teatro, com surpresa, com as meninas certas nos lugares certos.
Ele tinha escolhido as cinco. E as cinco tinham dito sim.
O figurino tinha sido ideia dele, claro. "Fanfarra moderna", ele chamou. Cada uma ia vestir saia curta de pregas azul-marinho, que parava bem acima do joelho — bem acima —, blusa azul-clara de botões dourados, tipo uniforme de banda, com dragonas nos ombros e um boné branco com pluma. Botas brancas curtas de cano baixo. E, por baixo, a peça que ele tinha feito questão de insistir:
calcinha branca, fininha, quase transparente.
Ele tinha olhado pra elas no ensaio e dito, com um sorriso meio de canto:
— É parte da apresentação. Confia em mim.
Adriana se vestiu no quarto, o boné na cabeça, a blusa fechada, a saia caindo leve nas pernas. Olhou-se de novo no espelho e sentiu o peito encher. Ela estava linda. Não era vaidade, era fato. O azul fazia o olho dela brilhar, o cabelo castanho caía em ondas pelo ombro, e o corpo dela tinha um jeito de se mover que fazia a saia balançar sozinha. Ela tirou uma foto no espelho e mandou pro grupo.
"Prontas?"
Responderam em três segundos:
Sete e meia da manhã, elas já estavam todas juntas na esquina do mercado, e o caminhão chegou — não um carro alegórico bonitinho, mas um caminhão de verdade, com a caçamba forrada de azul, uma pequena escada na traseira e uma lona amarrada no alto pra dar sombra. Era de lá que a apresentação ia começar.
Sandro subiu primeiro, estendeu a mão pra cada uma.
O caminhão foi rodando devagar pela avenida, e as pessoas já se aglomeravam nas calçadas. Adriana olhou por cima da borda e sentiu o estômago afundar. Gente. Muita gente. A avenida inteira tomada, arquibancada montada em frente ao coreto, crianças no ombro dos pais, velhos em cadeiras de plástico. A cidade toda tinha ido ver.
— Ai que medo — murmurou a Bia, do lado dela.
— Respira — disse a Carol, que já estava respirando errado também.
A fanfarra atrás delas começou a tocar. E aí veio a parte que Sandro tinha ensaiado mil vezes: elas desceram do caminhão em movimento, como se fosse entrada de teatro, cada uma por um ponto diferente da escada, os braços abertos, a saia girando. Era dançar. Era entrar em cena. Elas iam fazer um trecho de coreografia na frente do caminhão, depois voltar pra trás dele, e seguir assim até o coreto — onde ficava a segunda parte, a tal da surpresa.
As cinco entraram em cena como ele tinha pedido. E a avenida aplaudiu.
Mas Adriana mal registrou o aplauso. Porque, no meio daquilo tudo, as cinco tinham que trocar de roupa. Ali, na caçamba, correndo, entre um trecho e outro. Fazia parte. "É dinâmico", ele tinha dito. "Troca de figurino no meio, ninguém espera." E pra trocar de roupa dentro de um caminhão em movimento, com a lona dando só meia-sombra, elas precisavam de um lugar — e o lugar era dentro, atrás da lona.
Só que o Sandro... também ficava lá dentro.
— É rápido, meninas — ele disse, puxando a lona pra fechar a parte de trás. — Troca, tira, veste. Dois minutos.
E ficou ali. Dentro. Com elas.
A caçamba ficou na meia-luz, abafada, o motor tremendo embaixo dos pés, a fanfarra tocando do lado de fora. As cinco se entreolharam. Não dava pra sair, não dava pra reclamar. Tiraram a blusa, tiraram a saia, cada uma tentando não esbarrar na outra, o caminhão balançando. Adriana puxou a saia pro lado e ficou só de calcinha branca fininha, a blusa na mão, o boné torto na cabeça.
E o Sandro, encostado na lateral, olhando. Não disfarçando muito. Olhando.
— Tá todo mundo pronta? — perguntou ele, com aquela voz calma.
Adriana ia dizer "tô também". Mas aí o Sandro falou:
— antes de vestir a roupa nova... tem uma coisa.
E tirou da mochila uma sacola. Abriu. E de dentro saiu uma coisa que as cinco não entenderam de primeira — cinco volumes, redondos na base, compridos, lisos, num tom rosado. Dildos. De silicone, maleáveis, com base larga. Cada um com uns vinte centímetros.
Silêncio dentro da caçamba.
— Que isso, Sandro? — perguntou a Carol, os olhos arregalados.
— É a surpresa da apresentação.
E aí ele explicou. Rápido, porque o caminhão não parava. A saia era curta. A calcinha era fininha. Se elas entrassem no coreto assim, com a saia voando, ia ficar tudo certo — mas ele queria mais. Queria que a apresentação fosse inesquecível. E a base larga daquele objeto, presa por baixo do tecido fino da calcinha, deixava tudo no lugar, firme, e ainda dava um relevo na frente que... bom, ele achava que ficava um espetáculo.
— Vinte centímetros? — perguntou a Bia, incrédula.
— Médio. — Ele deu de ombros, como se fosse óbvio. — Vocês são lindas, não vai dar problema.
— Sandro, vinte centímetros — repetiu a Juliana.
Ele só sorriu.
O caminhão ia chegar no coreto em menos de dois minutos. Não tinha tempo pra discutir. Ou era aquilo, ou era aquilo.
— Vocês têm duas opções — disse ele, já pegando o primeiro. — Entram na pista com, ou não entram. Não tem meio termo.
— Como assim "não tem meio termo"? — perguntou Adriana.
— Porque eu vou colocar agora, e a calcinha vai segurar. Se vocês tirarem depois, o efeito some, e a saia curta mostra tudo. Se ficar, segura. — Ele levantou o primeiro volume. — Adri, vem cá.
E ela foi. Não sabe por que foi, mas foi. O coração dela, que já estava rápido desde a manhã, agora parecia ter mudado de ritmo — mais forte, mais fundo, batendo até no ouvido. Ela ficou de frente pra ele, só de calcinha, a blusa ainda na mão.
— Abre um pouquinho — ele disse.
Adriana abriu. E o Sandro aproximou aquele objeto rosado, encostou na base dela, e empurrou devagar. Sem pressa, sem forçar. O bico entrou macio, liso, o silicone cedeu e voltou, e a coisa foi descendo até a base larga ficar colada, encaixada, presa por baixo do tecido fino da calcinha branca. Ele puxou a calcinha um pouquinho pra ajustar, passou o dedo na borda pra ajeitar, e se afastou pra olhar.
— Pronto.
E aí Adriana sentiu. Sentiu tudo. Aquele peso dentro dela, aquela coisa comprida ocupando um espaço que ela nem sabia que tinha, a base larga pressionando por fora, segurando a calcinha no lugar. Quando ela mexia o quadril, sentia. Quando respirava fundo, sentia.
E tinha uma parte — a base — que ficava ali pra fora, fazendo um volume claro, redondo, na frente da calcinha, bem no meio, do jeito que não dava pra não ver.
— Ai — disse ela, baixinho.
— Tá doendo?
— Não... — ela respondeu, sincera. — Tá estranho.
— Vai passar. — Ele já estava pegando o segundo.
— Bia, sua vez.
E uma por uma. Bia, Carol, Larissa, Juliana. Cada uma de frente pra ele, cada uma abrindo, cada uma sentindo o mesmo empurrãozinho macio, cada uma com a mesma cara de espanto depois. A caçamba ia ficando cheia de garotas paradas, meio duras, meio rígidas, olhando pra baixo com as pernas um pouco abertas, tipo pinguins, todas com aquela cara de quem descobriu uma coisa nova e não sabe se gostou ou não.
— Sandro — disse a Carol, com a voz meio fina. — eu sinto o dildo aqui.
— É onde tem que sentir. na xota mesmo.
— Tá muito grande.
— É médio — ele repetiu, e ninguém teve força pra discutir.
Adriana olhou pras amigas e quase riu. Cinco meninas, as cinco mais bonitas do colégio, ali dentro de um caminhão tremendo, de calcinha, com a mesma coisa dentro delas, as cinco com a mesma cara. As cinco com vergonha. As cinco com medo de se mexer.
E o caminhão começou a reduzir.
— Veste agora — disse o Sandro, sério de novo. — Veste e sobe no coreto. Já vai chegar.
Elas vestiram. A saia curta, a blusa azul, o boné. E quando a primeira — foi a Adri — se mexeu pra pegar a saia, sentiu a coisa inteira deslizar um pouquinho dentro dela, e teve que segurar um gemido.
— Ai.
— Anda, Adri — disse a Bia.
Adriana subiu na saia, fechou a blusa, ajeitou o boné. E olhou pro próprio corpo no reflexo da caçamba.
As cinco ficaram iguais. O tecido fino da calcinha segurava a base daquilo tudo, e por baixo da saia curta dava pra ver — não tudo, mas o suficiente. Um volume redondo, firme, que empurrava o tecido branco pra fora. E cada passo, cada mexida de quadril, cada balançada da saia, fazia aquilo dentro delas mexer de novo. Vinte centímetros dentro de meninas que nunca tinham feito aquilo, andando de salto baixo branco, com a saia balançando.
O caminhão parou. O coreto estava na frente. A fanfarra tocou a nota que marcava a entrada.
— Vão — disse o Sandro, atrás delas, na boca da caçamba, com um sorriso que elas não viram mas que ele deixou bem aberto. — Mostrem pra cidade.
E as cinco desceram.
E aí aconteceu a coisa que elas não esperavam: não doía. No começo, com o nervosismo, elas mal tinham sentido. Mas agora, na pista, com o corpo solto, andando e dançando e virando, aquilo dentro delas virou uma presença viva. Cada passo acertava. Cada giro da coreografia — e tinha muito giro — empurrava a base e mexia tudo por dentro. Adriana tentou se concentrar na coreografia, tentou contar os tempos, tentou olhar pro público, mas o corpo dela estava dividido em dois: uma parte dançando, e outra parte inteira sentindo.
A saia curta subia e descia. As cinco na frente. As cinco girando em sincronia, os bonés brancos, as botas brancas, a blusa azul. E o público não sabia — não sabia — o que tinha embaixo daquilo. Só via cinco meninas lindas dançando na frente do coreto, o rosto corado, o sorriso meio aberto, o jeito do corpo um pouco mais rígido que o normal.
Só o Sandro sabia.
E o Sandro, parado no canto do coreto, braços cruzados, acompanhando o tempo com a cabeça, olhava pra elas com aquela cara de quem tinha acabado de assinar a melhor apresentação da cidade.
Adriana fez o último giro, o braço no ar, a saia voando em roda. Sentiu tudo dentro dela girar junto, a coisa comprida acompanhar o movimento, e por um segundo — só um segundo — fechou os olhos.
E quando abriu, a avenida inteira estava aplaudindo de pé.
Terminou. A apresentação terminou, o desfile acabou, e as cinco desceram do coreto pra trás, ofegantes, com o rosto vermelho, o boné torto, o coração batendo de nervoso e de outra coisa que nenhuma delas sabia nomear. Ninguém tirou nada. Ninguém quis tirar. Só ficaram ali, encostadas na parede de trás do coreto, olhando uma pra outra, rindo meio sem motivo.
— Vocês sentiram? — perguntou a Larissa, baixinho.
— Senti tudo — respondeu a Bia.
— Eu quase caí no giro — disse a Carol, e as cinco riram.
O Sandro apareceu, o sorriso dele, as mãos no bolso.
— Foi a melhor que a gente já fez — disse ele. — Sinceramente. Vocês foram perfeitas.
E ficou ali, olhando as cinco, parado, como se estivesse pensando em dizer mais alguma coisa. Não disse. Só olhou — o olhar passeando de uma pra outra, demorando um pouco mais do que precisava em cada uma, descendo devagar até a barra da saia.
Adriana pegou o olhar dele e sustentou por um instante.
— Sandro — ela chamou.
— Fala, Adri.
tem mais uma hora de desfile
O problema é que não acabou ali.
Desfile de cidade pequena não tem hora pra terminar — tem programa. Depois do coreto vinha o trecho da rua de trás, depois a praça da matriz, depois a frente do palanque de novo, porque o prefeito queria ver a fanfarra passar uma segunda vez, "com a luz do dia melhor". Mais uma hora. Uma hora inteira de avenida, de giro, de saia curta e de vinte centímetros dentro delas.
E uma hora depois, as cinco estavam destruídas.
Não de cansaço de verdade — era outro cansaço. Um cansaço lento, mole, que fazia elas andarem mais devagar do que deviam, os passos mais curtos, o quadril mais solto, o corpo mais pesado. A coreografia já não saía tão firme. Elas dançavam, sim, mas dançavam como quem está carregando alguma coisa. E carregavam.
Adriana sentia as pernas fracas. Sentia cada passo acertar lá dentro, e já não era um estranhamento — era outra coisa, mais fundo, mais quente. A calcinha branca já não estava branca de verdade: estava molhada por fora, e o tecido fino tinha ficado meio translúcido, colado na base daquele objeto, escorregando a cada mexida. Ela sentia o líquido descer pela parte de dentro da coxa e parar na dobra da perna, e sentia a base da coisa escorregar um pouquinho mais a cada passo.
Ela não era a única. A Bia andava com o joelho meio duro. A Carol tinha o rosto vermelho até o pescoço. A Larissa ria sozinha de vez em quando, sem motivo. A Juliana olhava pra baixo no meio da coreografia, como se quisesse conferir que aquilo ainda estava lá.
Estava. Nas cinco.
E o público começou a notar.
Na beira da calçada, encostada no poste, uma adolescente chamada Sofia acompanhava o desfile com a mãe, a dona Neusa, as duas de chinelo, as duas com um saco de pipoca na mão. Sofia tinha uns quinze anos, era amiga de escola da Juliana, e conhecia as cinco de vista — todo mundo conhecia.
Ela ficou olhando. Olhou muito. Olhou demais, do jeito que adolescente olha quando alguma coisa não fecha.
— Mãe.
— Que é.
— Olha as meninas ali, na frente.
Dona Neusa olhou. Olhou um tempo, mastigando a pipoca, sem entender o que a filha queria.
— Tão bonitas. Tão arrumadas.
— Não, mãe. — Sofia apertou o braço dela. — Olha a frente delas. Olha a saia.
Dona Neusa olhou de novo. E aí viu.
Porque quando a Adriana virou no giro, a saia subiu, e a luz do sol entrou por trás do tecido fino da calcinha, e dava pra ver — não tudo, mas o contorno. Um volume redondo, firme, empurrando o branco pra fora. Um relevo que não era do corpo. Um relevo que tinha forma própria.
— Mãe — sussurrou Sofia, com os olhos arregalados. — Tem alguma coisa nas calcinhas delas. Ou é impressão minha?
Dona Neusa ficou parada. Levou um segundo. Depois falou, baixinho, como quem confirma uma suspeita:
— Não é impressão.
— O que é aquilo?
— Eu não sei, filha. Mas aquilo esta dentro da calcinha. — Ela apertou os olhos. — Tá em todas as cinco. Olha bem.
Estava. As cinco passaram na frente delas, e nas cinco dava pra ver o mesmo relevo, o mesmo volume, o mesmo jeitinho duro de quem anda com alguma coisa presa embaixo do tecido. E as cinco passaram mais devagar do que deviam, com o rosto vermelho, o olhar meio perdido, e o corpo balançando de um jeito que dona Neusa — que já tinha sido moça — reconheceu na hora.
— Sofia.
— Que é, mãe.
— Vai lá. Chama a Adriana na beirada.
Adriana quase pulou quando sentiu a mão no braço dela. Era a Sofia, puxando ela pra fora da fila, pro canto da calçada, atrás do poste, onde a fanfarra não cobria o som da voz.
— Adri, Adri. Vem cá um segundo.
— Sofia? Tô desfilando, menina—
— Eu sei, é rapidinho. — A Sofia olhou pro lado, depois pra ela, e foi direto, do jeito que adolescente é direto. — Adri. Você tá com alguma coisa na calcinha?
Adriana travou. O rosto dela subiu de vermelho pra vermelho-escuro em meio segundo.
— O quê?
— Você. Tá. Com alguma coisa. — Sofia apontou pro meio dela, sem tocar. — A minha mãe viu. Eu vi. Tá aparecendo, Adri. Nas cinco. Que é aquilo?
Adriana abriu a boca. Fechou. Olhou pra trás, pra fila que continuava sem ela, e pra Sofia de novo, e por um segundo pensou em mentir. Aí lembrou que a Sofia era amiga da Juliana, que a dona Neusa era a maior fofoqueira carinhosa do bairro, e que mentir ia dar mais trabalho que a verdade.
Então ela contou.
Contou baixinho, rápido, olhando pro chão. Contou do treinador, da surpresa, da sacola, dos vinte centímetros, da "parte da apresentação", do caminhão, da lona. Contou que não tinha tirado. Contou que já estava lá dentro desde a primeira entrada, desde antes do coreto, e que agora já tinha passado quase duas horas.
Sofia ficou muda. Absolutamente muda, de olho arregalado.
— Vinte centímetros?
— Médio — disse Adriana, e nem percebeu que estava repetindo o Sandro.
— Adriana, isso é um—
— Eu sei.
— E você tá andando com isso?
— Tô andando, dançando, girando — respondeu ela, e riu, meio sem graça. — Olha, Sofia, eu preciso voltar. Não conta pra ninguém ainda, tá?
— Não conto — disse Sofia. E contou pra mãe antes do poste acabar a esquina.
A fanfarra entrou no último trecho, o da frente do palanque do prefeito. A coreografia final era a mais difícil: as cinco na frente, giro completo, saia rodada, braços abertos, e uma reverência final pro palanque. Sandro tinha ensaiado aquilo vinte vezes. Era a marca da apresentação.
Só que ninguém tinha ensaiado com aquilo dentro.
A Juliana foi a primeira. No terceiro giro, ela sentiu a base escorregar — escorregou de verdade, desceu meio centímetro, e o tecido fino da calcinha, que já estava encharcado, já não segurava direito. Ela tentou prender com a coxa, tentou apertar, mas o giro seguinte foi mais forte, e a saia rodou, e a base larga daquele objeto passou por baixo da calcinha e escorregou pra fora.
Caiu no chão da avenida com um som molhado, um ploc abafado que a fanfarra quase cobriu. Um objeto rosado, comprido, liso, de vinte centímetros, rolando no asfalto quente da avenida, na frente do palanque do prefeito, na frente da cidade inteira.
O desfile parou.
— Ai — gritou a Juliana.
E aí foi o alvoroço.
As outras quatro, no susto, perderam o tempo. A Carol parou no meio do giro. A Bia tentou pegar o objeto e quase caiu. A Larissa ficou parada olhando pro chão, incrédula. E a Juliana, sem pensar, abaixou e tentou pegar aquilo de volta — com a saia curta, na frente de todo mundo, agachando no meio da avenida.
O objeto estava molhado. Todo molhado. Escorregava da mão dela, girava, caía de novo, e ela tentava pegar e não conseguia, e a cada tentativa a coisa escorregava mais, e o povo na arquibancada começou a rir, a apontar, a comentar. Alguns entenderam de primeira. Outros não entenderam nada. E uma senhora lá no fundo gritou, alto, pra cidade toda ouvir:
— garotas, o que é isso que caiu?
A Juliana pegou finalmente. Segurou na mão, apertou, e olhou pro objeto brilhando na luz do sol — liso, rosado, escorrendo.
Porque a Juliana tinha gozado. Gozado muito, no meio do desfile, sem perceber, no meio de um giro — e a coisa tinha saído dela toda molhada, escorregadia, cheia daquele líquido claro e viscoso que escorria pelos dedos dela agora, na frente do prefeito, na frente da cidade, pingando no asfalto.
— murmurou dona Neusa, no poste. — A garota molhou o chão.
Sofia não conseguia nem falar. Só olhava.
O prefeito era um homem de uns cinquenta, barrigudinho, bigode aparado, terno claro de verão e um sorriso que raramente fechava. Ele tinha visto tudo. Tudo. Da primeira fileira do palanque, com os cotovelos no corrimão, ele tinha visto o giro, tinha visto a queda, tinha visto a menina agachada tentando pegar aquilo do chão, e tinha visto — porque o sol estava naquela direção — o brilho molhado na mão dela.
E o prefeito, que era um safadão de cidade pequena, adorou.
Ele levantou, aplaudiu, chamou o resto do palanque pra aplaudir junto. Depois virou pro assessor e disse, baixinho, com aquele jeito de quem já tinha decidido:
— Me traz aquelas cinco. E o treinador delas. Ali no salão do palanque. Agora.
As cinco foram levadas. Vermelhas. Ofegantes. A Juliana com o objeto na mão, sem saber se guardava ou se segurava, e no fim segurando mesmo, porque enfiar de volta na calcinha na frente da cidade era demais. Adriana foi atrás, o coração batendo forte de novo. E o Sandro — o Sandro foi por último, calmo, com as mãos no bolso, como se aquilo tudo fosse exatamente o que ele tinha planejado.
Era. Mais ou menos.
O salão era pequeno: uma sala com ar-condicionado, uma mesa de plástico, cadeiras empilhadas num canto e um sofá velho de dois lugares. O prefeito fechou a porta. A fanfarra continuou tocando lá fora, abafada, mas o desfile já não importava mais pra ninguém ali dentro.
Ele sentou na cadeira, cruzou as pernas, olhou pras cinco meninas paradas de pé na frente dele, e depois olhou pro Sandro.
— Treinador.
— Prefeito.
— Me explica essa apresentação.
E aí o Sandro explicou. Com calma. Com aquela calma dele. Falou do figurino, da ideia, do efeito, da "surpresa cênica", do "relevo estético". Falou como se fosse tudo muito técnico. O prefeito ouviu tudo, com o queixo apoiado na mão, e no fim fez uma pergunta só:
— E elas andaram assim quanto tempo?
— Duas horas, mais ou menos.
O prefeito levantou a sobrancelha. Olhou pras cinco.
— Duas horas.
disse a Bia, baixinho.
— E ninguém de dentro tirou?
— Ninguém — respondeu a Adriana.
O prefeito ficou um tempo quieto. Depois se inclinou pra frente, os cotovelos nos joelhos, e falou com aquela voz macia de quem está se divertindo muito:
— Meninas, eu preciso entender uma coisa. — Ele apontou pra Juliana, que ainda segurava o objeto na mão. — Aquele ali saiu de dentro de você?
— Sim — disse ela, com a voz fininha.
— Caiu no chão da avenida, na frente de todo mundo.
— Caiu.
— E a senhora ali de trás perguntou o que era, e ninguém soube responder. — Ele riu, balançando a cabeça. — Pois é. Eu também quero saber.
E aí veio a parte que elas não esperavam.
— Tira — disse ele.
— Tirar? — repetiu a Carol.
— de vocês todas. Aqui. Pro prefeito ver.
Ninguém discutiu. Naquele ponto, ninguém tinha força pra discutir.
O Sandro ficou encostado na parede, com o braço cruzado, olhando. O prefeito ficou na cadeira, virado pra elas, com aquela atenção de quem não queria perder um detalhe.
A primeira foi a Juliana, porque ela já tinha tirado, e foi só mostrar. Levantou o objeto na mão, ainda brilhando, e o prefeito se aproximou um pouco, os olhos apertados.
— Esse aqui é o que caiu?
— É.
— Vinte centímetros?
— Vinte — disse o Sandro, da parede.
O prefeito assobiou baixinho.
— E cabe?
— Cabia — respondeu a Juliana, e as outras riram, e ela ficou vermelha.
— Bota a mão, deixa eu ver o tamanho.
Ela esticou o braço. O prefeito mediu com a mão, do pulso até o meio do antebraço, e ficou olhando, e depois soltou o braço dela e apontou pra Adriana.
— Você. Tira.
Adriana travou por um segundo. Olhou pro Sandro — o Sandro só fez um aceno mínimo com a cabeça. Ela respirou, virou de lado, e enfiou a mão por baixo da saia.
Sentiu o tecido fino, encharcado, colado na pele. Sentiu a base daquela coisa ali, presa, quente. Encaixou os dedos na borda da calcinha e puxou pra baixo — devagar, porque depois de duas horas aquilo já estava no lugar, já estava acostumado, já fazia parte dela. A calcinha desceu pela perna, e o objeto veio junto, escorregando, e quando saiu ela sentiu o vazio de repente, aquele espaço todo ficando vazio de uma vez, e teve que segurar a perna pra não tremer.
Saiu molhado. Muito molhado. A coisa estava toda coberta, escorregadia, brilhando sob a luz do salão, e escorreu na mão dela, e pingou no chão. Ela esticou pro prefeito, sem graça, e o prefeito pegou.
Pegou com dois dedos, virou de um lado, virou do outro, olhou a base, olhou o corpo, olhou a ponta. Levantou os olhos pra ela.
— Esse aqui estava dentro de você, minha flor
— Estava.
— Molhadinho assim.
— É...
— Adriana engoliu. — É porrinha da gente.
— Saiu muito ne
— repetiu o prefeito, devagar, e atento
— escorre muito?
O Sandro riu, baixinho, da parede.
— Sai, prefeito — disse a Larissa, e muito, e todo mundo olhou pra ela, e ela completou:
— Sai muito. A gente não controla.
O prefeito olhou pra ela. Depois olhou pro objeto na mão. Depois pras cinco, uma por uma — a Adriana com a calcinha na mão, a Juliana de mãos vazias, a Larissa com aquela cara de quem acabou de contar um segredo, a Bia e a Carol paradas com a saia ainda no lugar.
E ele falou, com uma calma que só quem está se divertindo tem:
— garotas vem cá. Todas. — Bateu com a mão na mesa de plástico. — Põe aqui em cima. Uma por uma.
Quero ver de perto.
Em cima da mesa
E foi assim que a mesa do salão do palanque ficou cheia.
Cinco objetos rosados, compridos, lisos, todos de vinte centímetros, enfileirados na mesa de plástico, todos brilhando, todos molhados de meninas diferentes, cada um com o seu próprio brilho, cada um com a sua própria umidade. Parecia exposição. Parecia mostruário.
O prefeito andou de um lado pro outro, mãos nas costas, olhando. Parou no primeiro. Tocou. Virou. Cheirou, até.
— Esse aqui é de quem?
— Meu — disse a Carol, quase num sussurro.
— Tá mais molhado que os outros.
— Tá.
safadinha voce ne
A Carol abriu a boca e não achou palavra. Foi a Bia que respondeu, com aquela sinceridade de amiga:
— Porque ela é a mais nervosa. A Carol chora, ri e goza com a mesma facilidade.
O prefeito soltou uma gargalhada que fez a sala toda rir. A Carol enfiou a cara nas mãos. A Larissa bateu no ombro dela. A Juliana riu tão alto que teve que se apoiar na mesa.
E o Sandro, encostado na parede, olhando tudo, com o sorriso mais aberto do dia, o sorriso de quem tinha entrado na avenida com uma ideia e saído com uma lenda de cidade pequena.
O prefeito virou pra ele, ainda rindo.
— No ano que vem, eu quero dez garotas.
O Sandro olhou pras cinco na frente dele — as cinco mais bonitas do colégio, de saia curta, com a calcinha na mão, o rosto vermelho, o corpo tremendo de cansaço e de outra coisa — e respondeu, com toda a calma do mundo:
— Prefeito, ano que vem eu trago mais garotas pro desfile.
fim