Seis dias de trabalho: reuniões, apresentações, jantares com clientes e aquele cansaço específico de quem dorme em hotel e acorda já pensando no próximo horário. Meu noivo ligava todo dia à noite. Eu respondia com voz cansada, falava que estava tudo bem, que a viagem estava corrida, e desligava sentindo aquele vazio familiar entre as pernas.
Na primeira noite eu pedi um Uber do aeroporto para o hotel. O motorista era um homem negro, por volta dos cinquenta, cabelo curto com fios grisalhos, barba bem aparada, voz grave e calma. Chamava-se Antônio. Não falou muito. Só confirmou o endereço, ligou o ar-condicionado e dirigiu com a tranquilidade de quem já fez aquele trajeto centenas de vezes.
No segundo dia ele apareceu de novo.
Eu tinha pedido o carro para ir do hotel até o centro de convenções. Quando vi o nome e a foto no aplicativo, reconheci. Antonio. Ele desceu o vidro, me olhou pelo retrovisor e deu um sorriso curto, educado.
— De novo, hein? — comentou, enquanto eu entrava.
— Parece que o aplicativo gosta de você — respondi.
Ele soltou uma risada baixa.
— Ou você que está pedindo sempre no mesmo horário.
A conversa ficou nisso. No caminho de volta, no final da tarde, foi ele de novo. Dessa vez o trânsito estava pior. Ficamos parados alguns minutos. Eu estava de blazer e saia lápis, o cabelo preso, o corpo cansado. Antônio olhou pelo retrovisor e perguntou, sem pressa:
— Primeira vez nessa cidade?
— Segunda. Mas a primeira foi há anos.
— Gosta?
— Do trabalho, mais ou menos. Da cidade… ainda não tive tempo de sentir.
Ele assentiu, como se entendesse exatamente o que eu queria dizer. Ficamos em silêncio o resto do caminho. Quando chegamos ao hotel, ele disse só:
— Se precisar de novo, é só chamar. Eu costumo pegar corridas por aqui até umas onze.
Naquela noite eu fiquei pensando na voz dele.
No terceiro dia a reunião da tarde atrasou. Saí do prédio quase às nove da noite, com fome, sede e aquele cansaço que deixa a gente mais solta. Pedi o Uber. De novo Antônio.
Quando entrei no carro, o cheiro de cologne discreto e ar-condicionado me recebeu. Ele me olhou pelo retrovisor um segundo a mais do que o normal.
— Dia longo?
— Muito. Ainda tenho que jantar e responder e-mail.
— Tem lugar bom perto do seu hotel. Se quiser, eu te deixo na porta.
— Pode ser.
No caminho ele falou pouco, mas quando falava a voz era baixa, pausada, do tipo que a gente presta atenção sem perceber. Eu estava sentada no banco de trás, as pernas cruzadas, a saia subindo um pouco demais nas coxas. Em determinado momento ele olhou pelo retrovisor e o olhar demorou na minha perna. Não foi grosseiro. Foi só… atento. Eu não ajeitei a saia.
Quando parou em frente ao restaurante, eu abri a porta e, antes de descer, falei:
— Obrigada. Você está sempre aparecendo nos meus horários estranhos.
Antonio sorriu de canto, ainda olhando pelo retrovisor.
— Às vezes o aplicativo ajuda. Às vezes a gente só fica disponível na hora certa.
Eu desci. Ele esperou eu entrar no restaurante para sair.
No jantar eu quase não consegui prestar atenção na comida. A voz dele ficava voltando. O olhar no retrovisor. A forma calma como falava. Eu me peguei apertando as pernas sob a mesa, imaginando como seriam as mãos dele — grandes, escuras, com veias aparentes — segurando minha cintura.
Quando pedi o Uber de volta para o hotel, torci baixinho para ser ele.
Foi.
Antônio estava encostado no carro quando eu saí do restaurante. Abriu a porta do passageiro da frente, não a de trás.
— Pode vir na frente. O banco de trás está com uma mala de outro passageiro.
Era mentira. Não tinha mala nenhuma. Eu entrei do lado dele.
O carro saiu em silêncio. Eu estava perto demais. Sentia o calor do corpo dele, o cheiro de pele e cologne. A mão direita dele no câmbio, escura, larga, com o relógio prateado no pulso. Eu olhei para aquela mão e senti a umidade na calcinha.
— Você sempre dirige até tarde? — perguntei, só para quebrar o silêncio.
— Quando tem corrida boa. Ou quando a passageira parece cansada demais para ficar sozinha no hotel.
A frase foi dita sem ênfase, mas pesou no ar. Eu virei o rosto e o olhei. Antônio manteve os olhos na estrada por mais alguns segundos, depois olhou de lado, rápido, e voltou a dirigir.
— Eu estou cansada — admiti. — Mas não é só isso.
Ele não respondeu na hora. Só reduziu a velocidade, como se quisesse alongar o caminho. A mão dele saiu do câmbio e ficou apoiada na própria coxa. Eu olhei para ela de novo. Depois para o perfil dele: o nariz largo, a boca fechada, a barba grisalha, a pele escura iluminada pelos faróis dos carros.
— Você sabe o que está fazendo, né? — ele perguntou baixo, ainda olhando para a frente.
— Sei.
— Então fala.
Eu engoli em seco. O coração batia forte demais para alguém que estava só dentro de um Uber.
— Eu estou molhada desde o restaurante. E não é por causa do vinho.
Antônio soltou o ar pelo nariz, um som baixo, quase um riso. A mão direita dele saiu da coxa e foi devagar até a minha. Os dedos grandes pararam no tecido da saia, bem na altura do meio da coxa. Não subiram. Só ficaram ali, quentes, pesados.
— Continua — mandou, a voz mais rouca.
— Eu fico imaginando essas suas mãos em mim. Desde ontem. Desde o primeiro olhar no retrovisor.
Os dedos dele apertaram de leve a minha coxa. Depois subiram dois centímetros. A saia veio junto. Eu abri um pouco as pernas, o suficiente para ele sentir o calor. Antônio parou o carro num ponto mais escuro, perto do hotel, mas não em frente à entrada. Desligou o motor. O silêncio ficou só com a nossa respiração.
Ele virou o rosto para mim. Pela primeira vez olhou direto, sem o retrovisor no caminho.
— Eu não faço isso com passageira — falou, baixo. — Mas você está me deixando com vontade desde o segundo dia.
— Então faz — respondi.
A mão grande dele subiu o resto do caminho. Os dedos encontraram a calcinha já úmida e pressionaram o tecido contra o clitóris. Eu soltei um gemido baixo, a cabeça caindo para trás no banco. Antônio fez círculos lentos, sentindo o quanto eu já estava molhada, e depois puxou a calcinha para o lado. Dois dedos entraram de uma vez, fundos, sem pressa.
— Porra… — ele murmurou. — Olha como você está.
— Desde o restaurante… eu falei.
Ele meteu os dedos com ritmo calmo, o polegar no clitóris, me olhando enquanto fazia. Eu abria e fechava as mãos no banco, tentando não gemer alto demais. O carro estava escuro, mas qualquer pessoa que passasse perto poderia ver o movimento.
— Você vai gozar aqui mesmo? — perguntou, a voz grave.
— Se você continuar assim… vou.
— Então continua olhando pra mim.
Eu olhei. Os olhos dele eram escuros, concentrados, sem nenhuma pressa. Os dedos trabalhavam com precisão, entrando e saindo molhados, o polegar girando. O orgasmo veio rápido e contido. Eu gozei apertando os dedos dele, um gemido rouco preso na garganta, as coxas tremendo. Antônio só tirou a mão quando o último tremor passou. Depois levou os dedos até a boca e chupou, me olhando.
— Doce.
Eu estava ofegante, a saia ainda erguida, a calcinha torta. Antônio ligou o carro de novo e dirigiu os últimos metros até a entrada do hotel. Parou. Olhou para mim.
— Eu termino o turno às onze e meia. Se quiser… me chama. Eu estaciono no fundo do hotel.
Eu ajeitei a roupa com as mãos ainda trêmulas.
— Eu vou chamar.
Ele assentiu, uma vez só.
— Então não demora.
Eu desci do carro. O ar da noite bateu nas minhas coxas ainda úmidas. Entrei no hotel sem olhar para trás, o corpo inteiro latejando, a certeza de que aquela viagem de trabalho tinha acabado de mudar de direção.
No elevador eu abri o aplicativo e salvei o número dele.
Ainda eram só os primeiros dias.
E eu já sabia que as horas livres daquela cidade não iam ser gastas sozinha no quarto.

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