A casa da mãe em Brasília tinha paredes finas e silêncios pesados. Renan aprendeu cedo a mover-se neles. Às vezes o cheiro de café da manhã subia do térreo e ele ainda estava deitado de bruços, o corpo leve demais depois da noite, a marca dos dedos de Diego ainda quente na pele da cintura. Diego dormia no quarto ao lado — o de visitas —, mas as noites quase nunca terminavam ali. Começara num evento no Lago Paranoá. Diego produzia a festa, sorriso fácil, corpo atlético, olhar que não se desviava. Renan, então ainda se acostumando ao peso do sobrenome e às câmeras, sentiu o estômago virar quando o promoter passou perto demais e murmurou algo sobre o corte de cabelo. Depois veio o convite para a festa dos 500 mil seguidores na própria casa. Depois os churrascos. Depois a desculpa oficial: Diego seria “assessor de fachada”. Ninguém recebia salário. Ninguém perguntava demais. A mãe acreditava na versão conveniente. Renan nunca corrigiu. Na primeira noite em que as coisas ultrapassaram o limite do flerte, Renan estava bêbado o suficiente para deixar a máscara cair. Diego trancou a porta do quarto com o ombro, empurrou-o de costas contra a cama e beijou-o como se tivesse direito. Renan tremeu. Não de medo — de alívio. Anos de performance masculina, de poses de arma, de legenda patriota, de fingir interesse por mulheres que ele precisava de Viagra para aguentar, desmoronaram num gemido baixo quando Diego desceu a mão pela frente da calça e apertou. — Você quer isso — disse Diego, voz baixa, confiante. — Não precisa fingir comigo. Renan só assentiu, as mãos agarradas aos ombros do outro. Naquela noite ele ainda tentou controlar o ritmo, tentou ser o que imaginava que um homem como ele deveria ser. Diego não deixou. Virou-o de bruços com facilidade, puxou a cueca para baixo e passou a língua quente pela linha da coluna até a fenda. Renan engasgou no travesseiro. Nunca tinha sentido nada parecido. A língua de Diego era paciente e faminta ao mesmo tempo; abria-o devagar, molhava, pressionava até Renan empurrar os quadris para trás pedindo mais. Quando o dedo entrou, lubrificado só de saliva e desejo, Renan choramingou. Diego riu baixinho contra a pele dele. — Passivo do caralho. Sabia. A primeira penetração foi lenta, profunda, e Renan quase gozou só com a sensação de ser preenchido. Diego segurava a nuca dele com uma mão e a cintura com a outra, fodia com ritmo firme, falando baixo no ouvido: “Isso, abre pra mim”, “Você é meu agora”, “Ninguém precisa saber”. Renan gozou sem tocar no próprio pau, o corpo inteiro contraído, o rosto enterrado no lençol. Depois, enquanto ainda tremia, Diego virou-o de novo e o fez chupar até o fim. Renan engoliu tudo, olhos marejados, boca suja, e sentiu algo perigosamente próximo de felicidade. A rotina se estabeleceu rápido. Diego no quarto ao lado. Mensagens à noite: “Vem aqui.” “Leva camisinha. Tá na minha nécessaire.” “Vamos dar uma rapidinha antes da minha mãe acordar. Vivian dormiu. Vem no meu quarto, para de show.” Renan ia. Sempre ia. Às vezes ainda com a calça do pijama pela metade, o coração batendo forte no corredor escuro. Entrava, fechava a porta com cuidado, e em segundos estava de joelhos ou de quatro. Diego gostava de foder ele de frente às vezes, pernas abertas, para ver o rosto. Gostava de puxar o cabelo. Gostava de marcar a pele com chupões baixos demais para a câmera, altos demais para o orgulho. Renan aprendia a gostar de tudo. Aprendia a pedir. Aprendia a gemer baixo o suficiente para as paredes não contarem. Havia ciúmes. Uma noite Renan viu Diego rindo perto demais de outro cara numa festa. A mensagem saiu antes que ele pensasse: “Vi você conversando com aquele cara e fiquei bolado. Aí você que fica com raiva de mim? Já é! Então não vai responder?” Diego respondeu só horas depois, seco. Renan mandou de novo, mais desesperado: “Eu te amo, cara. Mas não termina comigo por conta disso. Já não quer transar comigo agora, vem querer terminar, porra. Vamos dar uma rapidinha antes de minha mãe acordar…” Diego veio. Foderam no chão do quarto, rápido e sujo, Renan engasgando no próprio gemido enquanto Diego enfiava fundo e segurava a boca dele com a mão. Depois, ainda dentro, Diego beijou a nuca e murmurou: — Não termina. Só não me provoca. Renan assentiu, o corpo ainda pulsando ao redor do pau do outro. Os meses passaram assim. Viagens. Gramado. Fotos em bancos, jaquetas iguais, sorrisos que as redes interpretavam como amizade. Em casa, à noite, Renan se ajoelhava entre as pernas de Diego e chupava com dedicação, olhos fechados, gosto salgado na língua. Diego elogiava o jeito que ele engolia, o jeito que ele se abria, o jeito que ele tremia quando era fodido fundo. Às vezes Diego queria sem camisinha. Renan hesitava, pensava nas outras — as meninas que Renan ainda saía para manter a fachada, as mesmas que depois comentavam com Diego o quanto o sexo era ruim, o quanto ele precisava de comprimido. Mas no calor do momento Renan cedia. Sentia o pau quente e nu deslizar dentro, o risco, a intimidade crua. Gozava com o corpo inteiro, a vergonha e o prazer misturados. Houve noites na sacada. O risco de alguém ver. O ar frio na pele, Diego atrás, mãos firmes nos quadris, o pau entrando devagar enquanto Renan segurava o parapeito e mordia o lábio até doer. Diego sussurrava que ele era o primeiro homem, que nunca tinha sentido vontade assim, que o resto era performance. Renan queria acreditar. Queria ser o segredo que valia a pena. Uma manhã, depois de uma noite especialmente longa, Renan acordou com a marca dos dentes de Diego na parte interna da coxa e o cheiro dele ainda no lençol. Desceu para o café. A mãe perguntou se Diego ia ficar mais alguns dias. Renan respondeu que sim, que precisava de ajuda com as redes. A mentira saiu fácil. Depois, no quarto, enquanto Diego ainda dormia, Renan se tocou pensando no que tinha acontecido na sacada, no jeito que o outro o tinha aberto com a língua e depois com o pau, no gemido abafado que ele próprio não conseguira conter. Gozou rápido, sujo, e limpou o esperma com a própria camiseta de ontem. Havia dias em que a fachada apertava mais. Renan postava fotos de academia, de arma, de legenda motivacional. À noite, no quarto ao lado, Diego o fazia engatinhar até a cama e chupar até a garganta doer. Renan gostava da dor. Gostava de ser usado. Gostava de ouvir Diego dizer “passivo do caralho” enquanto o fodia de quatro, uma mão no cabelo, a outra marcando a cintura. Depois, quando Diego gozava dentro ou na boca, Renan ficava quieto, respirando fundo, sentindo o corpo ainda aberto e quente. Às vezes chorava um pouco. Não de tristeza. De alívio. O ciúme voltou em forma de mensagem depois de outra festa. Renan viu Diego abraçando um cara por tempo demais. Mandou: “Você tá me fazendo de otário? Depois que eu te dei tudo?” Diego demorou a responder. Quando respondeu, foi seco: “Para de drama. Vem aqui.” Renan foi. Desta vez Diego o fodeu de frente, pernas abertas, olhando nos olhos, falando baixo: — Você é meu. Ponto. Não precisa de mais ninguém. Renan gozou entre os corpos, o esperma escorrendo pela barriga, e depois chupou Diego limpo, devagar, como se pedisse desculpas com a boca. As viagens eram o momento em que a máscara quase caía de vez. Em Gramado, num hotel pequeno, Diego trancou a porta e o fodeu contra a janela, as cortinas semiabertas, o frio entrando pela fresta. Renan gemia no ombro dele, as unhas cravadas nas costas do outro, pedindo mais fundo, mais devagar, mais. Depois, deitados na cama bagunçada, Diego passou o dedo pela entrada ainda sensível e murmurou: — Um dia a gente vai poder fazer isso sem medo. Renan não respondeu. Só se encolheu contra o peito dele e fingiu que acreditava. O término veio por mensagem formal, depois que o professor de tiro começou a circular demais pela casa. Renan sentiu o chão sumir. Tentou ligar. Tentou mensagens. Diego sumiu. As fotos pararam. A fachada de assessor desmoronou. Renan ficou sozinho com o cheiro residual no travesseiro e a memória do corpo se abrindo toda noite. Nos dias seguintes ele tentou voltar à rotina. Postou legenda patriota. Saiu com uma menina e precisou de Viagra. O sexo foi mecânico, sem gosto. Depois, sozinho no quarto, ele se ajoelhou no chão e se tocou pensando em Diego, em como era ser aberto, ser usado, ser chamado de passivo. Gozou no travesseiro e ficou ali, respirando o cheiro que já não existia mais. Meses depois, quando as conversas vazaram e Diego falou publicamente, Renan negou tudo. Disse que era amigo. Disse que o celular não tinha senha. Disse que era hetero. Mas à noite, sozinho, ele ainda acordava com o fantasma da língua de Diego na entrada, ainda sentia a falta do peso do outro corpo por cima, ainda se tocava pensando em ser fodido devagar e fundo, pedindo mais, passivo e aberto e completamente seu. Às vezes ele abria o chat antigo e lia as mensagens de novo. “Vem aqui no meu quarto.” “Leva camisinha.” “Eu te amo, cara.” O polegar parava sobre a tela. Ele não respondia. Não podia. Mas o corpo ainda respondia. Ainda se lembrava. Ainda queria. Numa noite especialmente longa, Renan se deitou de bruços no mesmo quarto, a porta trancada, e enfiou os dedos em si mesmo devagar, imaginando que era Diego. Gemeu baixo no travesseiro, o mesmo travesseiro, o mesmo silêncio da casa. Gozou sozinho, o corpo se contraindo em volta de nada, e por um segundo o alívio foi tão forte que quase pareceu companhia. Depois só restou o vazio. E a certeza, quieta e irreparável, de que aquilo tinha sido real. Que ele tinha sido gay. Que tinha sido passivo. Que tinha gostado. Que ainda gostava. A casa continuava silenciosa. As paredes finas. E Renan, sozinho, ainda aprendendo a viver com o eco do que tinha sido.
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