Ela deu um passo em direção à janela. Sob o toque da lua cheia, sua pele dourada arrepiou-se. O formigamento subiu por seus calcanhares, e a transformação a envolveu como um abraço quente. Em segundos, no lugar da garota, uma coruja de olhos brilhantes saltava para o telhado.
Nas noites de lua cheia, ela conseguia tomar forma de pequenos animais. Era o único momento que ela se sentia livre. Podia ir para qualquer lugar, sem medo de ser discriminada por sua origem ou ameaçada por ser uma frágil mulher.
A liberdade durou pouco. No topo da igreja, transmutada em coruja, ela planava no vento térmico quando o desastre aconteceu. Uma massa de nuvens negras, pesadas como chumbo, engoliu a lua de uma vez só.
A magia não apenas falhou; ela evaporou. Na pior forma ela descobriu que a magia só funcionava quando o brilho batia na pele dela.
As asas de Lucía perderam a sustentação no ar. O pânico a atingiu como um soco. Suas garras e bico retrocederam no meio da queda, e o corpo humano, pequeno e frágil, despencou. Ela caiu de mau jeito sobre a copa de uma laranjeira no pátio interno de uma rica taverna local. As folhas e galhos amorteceram o impacto, mas arranharam cruelmente sua pele.
Ela escorregou pelo tronco, caindo de joelhos na terra úmida do pátio. Estava completamente nua.
Encolhida no escuro, tiritando de frio e pavor, a mente de Lucía viajou até o homem que lhe dera aquela pele dupla: seu pai, Alfonso. He havia morrido três anos antes, levando consigo os segredos de sua linhagem. Lucía nunca soube se aquela herança era um dom divino ou uma terrível maldição familiar que ele lhe transmitira no último suspiro, quando tocou sua testa com os dedos gélidos.
“A lua é sua força, minha filha, mas também sua coleira”, ele costumava sussurrar, escondido no celeiro sob o efeito de febres terríveis. “Nunca confie nos céus da Andaluzia. A luz que te liberta é a mesma que te expõe à fogueira.”
Agora, sob a abóbada cinzenta de Ronda, ela entendia a amargura nas palavras do pai. Aquela magia não era dela; era um parasita que exigia a pureza absoluta da nudez para se manifestar, mas que a abandonava à própria sorte diante do menor capricho do clima. Se o pai estivesse certo, ela não passava de uma aberração vulnerável, à mercê de uma noite sem estrelas.
— Por favor... — sussurrou, com a voz embargada, as lágrimas de desespero começando a queimar seus olhos. — Só um raio de luz. Só um segundo.
Um ruído do outro lado do muro a sobressaltou: o bater de uma caneca de metal e risadas abafadas. Havia homens bebendo na viela lateral. Se alguém entrasse no pátio para buscar lenha ou água no poço, ela estaria perdida. Se a Inquisição ou mesmo os vizinhos a vissem daquela forma, o escândalo seria sua morte social — ou física.
A humilhação de ser descoberta ali, encolhida como um bicho acuado, era um peso insuportável. Mas a alternativa era igualmente aterrorizante.
Para voltar para casa, ela precisaria cruzar três ruelas de pedra. Trezentos metros de escuridão. Sem sapatos para proteger seus pés, sem uma capa para esconder suas curvas delicadas. Cada passo seria uma roleta-russa. O vento fresco da madrugada soprou no pátio, fazendo-a tremer dos pés à cabeça, arrepiando a pele de seus braços e de suas pernas expostas.
Ela olhou mais uma vez para a lua oculta. Esperar ali, rezando por um milagre que talvez só viesse com o sol, ou correr nua pela escuridão da Espanha quatrocentista?
Engolindo o choro e sentindo uma vergonha que parecia queimar sua pele mais do que o próprio sol do meio-dia, Lucía apoiou a mão trêmula na parede de pedra do pátio. Ela respirou fundo, tentou cobrir o próprio corpo com os braços cruzados sobre os seios, sentindo os mamilos endurecidos pelo frio e o estômago revirar de humilhação, e deu o primeiro passo em direção à ruela escura.
O primeiro contato dos seus pés descalços com as pedras irregulares da rua foi um choque. O calçamento de Ronda, áspero e pontiagudo, machucava suas solas macias. A escuridão era quase total, quebrada apenas pela luz trêmula de uma lamparina a óleo distante, que projetava sombras longas e fantasmagóricas nas paredes caiadas.
A cada dez passos, ela parava, achatando as costas nuas contra as paredes frias das casas, tentando se fundir com a cal. O vento da madrugada batia contra suas coxas e sua barriga expostas, dando-lhe uma sensação constante de que dezenas de olhos invisíveis a observavam das janelas fechadas. O gélido atrito do ar em sua nudez parecia despi-la ainda mais, transformando cada centímetro de sua pele exposta em um alvo.
De repente, o som que ela mais temia ecoou na esquina anterior:
Clac. Clac. Clac.
O som rítmico e pesado de botas de couro contra o chão. A patrulha noturna da milícia.
O pânico a paralisou. Olhando ao redor, desesperada por um esconderijo, ela percebeu que estava no meio de um trecho sem portas ou recuos de portões. Se os soldados dobrassem a esquina com suas tochas, a luz revelaria uma garota de dezoito anos, totalmente despida, encolhida contra a parede como uma pecadora renegada.
O suor frio misturou-se com as lágrimas em seu rosto. Ela prendeu a breath, cravando as unhas na própria pele, rezando para que a escuridão da tempestade iminente fosse o suficiente para ocultar suas formas delicadas nas sombras mais densas da ruela.
Lucía não tinha para onde correr. As pedras frias da ruela cortavam suas solas, mas o som das botas estava mais perto. Ela se apressou, mas tropeçou em algo — um saco de estopa? Um pedaço de madeira? — e caiu de joelhos, o impacto ecoando como um tiro na noite silenciosa.
— O que foi isso? — uma voz masculina, rouca de vinho, ecoou pela esquina.
Três homens. Não soldados, mas bêbados da taverna, com tochas que projetavam sombras dançantes nas paredes. O cheiro de cerveja azeda e suor a atingiu antes mesmo que eles a vissem.
— Parece que a gente achou a fonte da diversão da noite, rapazes — o mais alto, de barba por fazer, sorriu, mostrando dentes amarelados. — Olha só… uma fada sem asas.
Lucía tentou se levantar, mas suas pernas tremiam. Nua, suja, com folhas presas no cabelo, ela era o espetáculo mais patético e trágico que aqueles homens já tinham visto. A nudez, que antes era seu manto de liberdade, agora era sua maior sentença de terror.
— Por favor… — sua voz saía quebrada, quase um chiado. — Deixem-me ir. Eu não…
— Ah, mas você vai, sim — o segundo homem, gordo e suando, agarrou seu braço. — A gente não vai te machucar… muito.
O terceiro, mais novo, hesitou. — Mas… e se alguém ver? A Inquisição…
— A Inquisição não tá aqui, seu covarde — o primeiro empurrou Lucía contra a parede do beco. — E se vier, a gente diz que ela é uma bruxa. Todo mundo sabe que bruxa gosta de foder.
Risadas. O som rasgou seu peito como garras.
Os homens a arrancaram da parede, arrastando-a para o meio da ruela. O ar frio da madrugada bateu contra suas costas, mas o verdadeiro horror era a sensação de exposição total. Ela estava sendo levada à força pelo calçamento público, completamente nua, sob o risco iminente de que qualquer janela se abrisse e os vizinhos a vissem daquela forma — despida, suja de terra e folhas, tratada como um pedaço de carne por três bêbados.
— Olha como ela treme... — o homem gordo riu, apertando o braço dela com tanta força que os dedos dele deixaram marcas brancas na pele dourada. Ele desceu os olhos pesados pelo torso de Lucía, avaliando-a com escárnio. — Magrela desse jeito, parece que nem tem de onde segurar. Mas a pele é macia, rapazes... Não tem as calosidades das mulheres que trabalham no campo.
— Uma espiga de milho verde — o mais alto debochou, empurrando-a para frente, fazendo com que os seios delicados de Lucía balançassem com o impacto. — O bumbum é pequeno, mas dá pro gasto. Anda, mexe essas pernas compridas, fada! Vamos levar essa coisinha pro celeiro ali atrás, antes que alguém apareça.
Lucía sentia as pedras pontiagudas cortando a sola de seus pés a cada passo que era forçada a dar. A mente dela operava em um turbilhão de pânico puro: Se alguém me vir... se meu nome for jogado na lama... minha vida acabou. Vão me queimar viva ou me trancar em um convento para sempre. Meu pai, por que você me deixou isso?
— Por favor... — ela implorou, as lágrimas escorrendo quentes pelo rosto frio, a voz saindo em um sussurro engasgado enquanto ela tentava cruzar os braços sobre o peito para se tapar, mas era impedida pelos puxões. — Eu sou filha de Alfonso, o ferreiro... Ele era um homem bom. Eu não fiz nada... por favor, me deixem ir, eu juro que não conto a ninguém! Eu dou tudo o que tenho em casa... as ferramentas dele, as moedas... tudo! Só me deixem voltar!
— Cala a boca! — o homem gordo desferiu um tapa estalado em sua coxa nua, a agressão ecoando no beco e deixando uma mancha vermelha na pele exposta. — O ferreiro já morreu e você não tem nada que nos interesse mais do que isso aqui.
O terceiro homem, mais jovem, parecia nervoso enquanto ajudava a arrastá-la pela cintura, sentindo a silhueta magra da garota contra suas mãos sujas. — Ela é esquisita... Olha os olhos dela, parecem grandes demais no escuro. E se for bruxaria mesmo? Se o corpo dela sumir?
— Deixa de ser frouxo! — o mais alto agarrou o cabelo de Lucía, puxando a cabeça dela para trás com violência, forçando-a a olhar para o céu cinzento enquanto continuavam a levá-la. — Bruxas usam vassouras, essa aqui só tem esse corpinho frágil para nos dar. Vamos ver se você chora do mesmo jeito quando estiver no chão, sonsa.
Quando o homem gordo forçou sua boca, ela sentiu o gosto amargo da cerveja e da bile subindo em sua garganta. Ela fechou os olhos com força, o estômago revirando de humilhação absoluta ao sentir as mãos calosas tateando seus quadris estreitos e suas pernas, despindo-a de qualquer dignidade que ainda lhe restava.
— Isso, assim… — o homem gordo gemia, enquanto o outro segurava seus braços. — Vamos ver se você é boa nisso também…
A algazarra, os insultos e os gritos dos bêbados ecoaram pelo beco estreito, chamando finalmente a atenção da patrulha que rondava a ruela vizinha. O som das botas pesadas acelerou na direção deles.
E então, um sopro de vento.
Lucía sentiu algo mudando. Um formigamento familiar subindo por suas costas, como se alguém tivesse acendido uma tocha em suas veias. A lua! As nuvens começavam a se abrir, e um raio prateado atingiu seu ombro nu.
— O que…? — o homem que a segurava recuou, confuso.
Era agora.
Com um espasmo de dor e alívio, seus ossos estalaram, sua pele ardeu, e em um piscar de olhos, ela não estava mais ali.
— Cadê a puta? — o homem gordo olhou ao redor, desorientado. — Ela tava aqui!
— Tá brincando? — o mais novo esfregou os olhos. — A gente tava… e agora…
— Parados aí! — a voz grossa de um guarda da milícia ecoou quando a patrulha finalmente dobrou a esquina, com espadas em punho ao ouvir a confusão.
Um miado suave veio do chão.
— O que é isso? — o primeiro guarda baixou a guarda, olhando para os três homens assustados e depois para o beco vazio. — Vocês três fazendo essa baderna toda por causa de uma gata?
— Mas… mas tinha uma mulher! — o homem gordo apontou para o nada. — Nua! A gente… a gente…
— Vocês estão bêbados demais, seus imbecis — o guarda sacudiu a cabeça. — E ainda por cima perturbando a ordem do recolher. Vamos, levem eles para as celas.
— Mas…! — o mais novo tentou protestar, mas um empurrão do guarda o calou.
A gata observou tudo, imóvel. Quando os homens foram arrastados, ela saltou para o telhado, livre mais uma vez.
Mas não para sempre.
Porque amanhã, a lua não estaria cheia.




